O tema na obra
A paixão da Eneida tem uma dona, Dido, e uma origem divina. No Livro I, Vênus teme a instabilidade dos tírios e a ira de Juno e faz Cupido tomar a forma de Ascânio para acender Dido por Enéias: prender a rainha pelo amor é proteger o filho. A paixão nasce como arma de uma deusa, e o narrador já chama Dido de infeliz quando ela pede a Enéias que conte tudo e bebe um longo amor.
No Livro IV, o fogo trabalha por dentro: a rainha não dorme, confessa à irmã Ana que reconhece os vestígios da antiga chama e jura que preferia ser engolida pela terra a violar o pudor, e é Ana quem desfaz o juramento com razões práticas. Na gruta, durante a tempestade que Juno armou, ela chama de casamento o que viveu, e o narrador diz que com esse nome encobre a culpa. O romance quase não é encenado: o único diálogo direto dos dois é o da ruptura.
A ruptura mostra duas medidas de amor. Dido, ao descobrir a frota, lembra a mão dada e o que perdeu por ele, e "hóspede" é o único nome que lhe resta de esposo. Enéias responde de olhos fixos que nunca prometeu casamento e que não vai à Itália por vontade própria; o narrador diz depois que ele geme, abalado por grande amor, mas ela só vê a imobilidade e o chama de filho de tigres. Quando ele parte, ela sobe à pira, lembra que fundou a cidade e vingou o marido e diz que seria feliz demais se as naus troianas nunca tivessem tocado a sua costa.
No Livro VI, nos Campos do Pranto, onde moram os que o amor consumiu, Enéias jura que deixou a costa dela contra a vontade, e Dido, de olhos no chão, não responde e foge ao bosque onde Siqueu iguala o seu amor. O silêncio sustenta duas leituras: recusa da desculpa ou conversa que já não lhe interessa. Em outro registro, o amor de Niso por Euríalo, que dá a vitória ao amigo no Livro V, leva os dois à morte no Livro IX, onde Niso diz que Euríalo só amou demais o amigo infeliz.
O poema trata a paixão como força que os deuses acendem e os homens pagam, e não toma partido entre as duas fidelidades que se chocam, a de Dido a Siqueu, que ela rompe ao ceder, e a de Enéias ao destino. Por isso ninguém é limpo: Dido é ferida por um fogo que dois deuses armam, Vênus e Juno, e Enéias é o homem que Mercúrio precisa repreender duas vezes e que, ainda assim, geme. A leitura contrária também se sustenta: a paixão de Dido é dela, nasce do que ouviu à mesa e não só do dardo de Cupido, e a fidelidade de Enéias só aparece depois da repreensão de Mercúrio.
Onde aparece
- Livro I: Vênus faz Cupido tomar a forma de Ascânio para inflamar Dido por Enéias, porque teme a instabilidade dos tírios e a ira de Juno.
- Livro I: Dido prolonga a noite do banquete com perguntas sobre Troia e pede a Enéias que conte tudo desde o princípio.
- Livro IV: Dido confessa à irmã Ana que reconhece os vestígios da antiga chama, e Ana desfaz com argumentos práticos o juramento de fidelidade a Siqueu.
- Livro IV: Dido e Enéias entram na mesma gruta durante a tempestade que Juno arma, e Dido chama de casamento o que viveu.
- Livro IV: Dido descobre o preparo da frota, acusa Enéias de pérfido e ouve dele que não vai à Itália por vontade própria.
- Livro IV: Dido, vendo o porto vazio, invoca as Fúrias e um vingador que nasça dos seus ossos.
- Livro IV: Dido sobe à pira e pede que o dardânio veja o fogo do alto mar e leve o presságio da sua morte.
- Livro VI: Enéias encontra Dido nos Campos do Pranto e jura que partiu contra a vontade, e ela foge ao bosque onde Siqueu iguala o seu amor.
- Livro VII: Alecto, a mando de Juno, inflama Amata e Turno, e o furor que ela planta transforma em guerra a acolhida dos troianos no Lácio.
- Livro IX: Niso volta para buscar Euríalo, capturado pelos inimigos, e morre ao lado dele, porque o amor pelo companheiro pesa mais que a missão.
- Livro XII: Enéias vê em Turno o cinturão de Palante, é tomado pela fúria e mata o inimigo que lhe pedia a vida.
Passagens
Vênus explica por que quer inflamar Dido.
Quocirca capere ante dolis et cingere flamma / Reginam meditor, por isso penso em tomar antes a rainha com astúcia e cercá-la de fogo.
O livro I termina com Dido bebendo um longo amor.
Nec non et vario noctem sermone trahebat / Infelix Dido, longumque bibebat amorem, e a infeliz Dido prolongava a noite em conversa variada, e bebia um longo amor.
Dido reconhece em si os vestígios da antiga chama.
Anna (fatebor enim), miseri post fata Sichaei / Conjugis, et sparsos fraterna caede Penates, / Solus hic inflexit sensus, animusque labantem / Impulit: agnosco veteris vestigia flammae, Ana (vou confessar), depois da sorte do infeliz Siqueu, meu marido, e dos Penates espalhados pelo crime do irmão, só este homem abalou os meus sentimentos e empurrou o meu ânimo que vacilava: reconheço os vestígios da antiga chama.
O narrador dá nome ao que acontece na gruta.
Ille dies primus leti primusque malorum / Causa fuit: neque enim specie famave movetur, / Nec jam furtivum Dido meditatur amorem; / Conjugium vocat, hoc praetexit nomine culpam, aquele dia foi o primeiro da morte e a primeira causa dos males: pois ela já não se move pela aparência nem pela fama, nem pensa mais num amor furtivo; chama de casamento, e com esse nome encobre a culpa.
Na pira, Dido faz o balanço da vida.
Dulces exuviae, dum fata deusque sinebant, / Accipite hanc animam, meque his exsolvite curis. / Vixi, et quem dederat cursum fortuna peregi: / Et nunc magna mei sub terras ibit imago. / Urbem praeclaram statui; mea moenia vidi; / Ulta virum, poenas inimico a fratre recepi; / Felix, heu! nimium felix, si littora tantum / Nunquam Dardaniae tetigissent nostra carinae!, doces despojos, enquanto os fados e o deus permitiam, recebei esta alma e livrai-me destas angústias. Vivi e cumpri o curso que a fortuna me deu: e agora a minha grande sombra irá sob a terra. Fundei uma cidade ilustre; vi as minhas muralhas; vinguei o marido e cobrei a pena do irmão inimigo; feliz, ai, demasiado feliz, se as naus dardânias nunca tivessem tocado a nossa costa!
Nos Campos do Pranto, Dido não responde a Enéias.
Illa solo fixos oculos aversa tenebat; / Nec magis incepto vultum sermone movetur, / Quam si dura silex aut stet Marpesia cautes. / Tandem proripuit sese, atque inimica refugit / In nemus umbriferum, conjux ubi pristinus illi / Respondet curis, aequatque Sichaeus amorem, ela, desviada, mantinha os olhos fixos no chão, e não move o rosto com a conversa começada mais do que se fosse dura pedra ou rocha de Márpeso. Por fim arranca-se e, hostil, foge ao bosque sombrio, onde Siqueu, seu marido de antes, responde às suas penas e iguala o seu amor