Clavis Libri

Tema em Inferno

Pecado

A falta diante de Deus: pecado, tentação, queda, os vícios capitais.

O tema na obra

O Inferno é uma classificação do pecado posta em espaço: cada círculo, cada giro, cada vala é um tipo de falta, e a pena repete a falta por dentro. O poema não deixa o leitor adivinhar o critério. Quando Virgílio o expõe, no canto XI do Inferno, a lição é simples e dura: de toda malícia que o céu odeia o fim é a injustiça, e toda injustiça aflige o outro com força ou com fraude; como a fraude é o mal próprio do homem, mais desagrada a Deus, e por isso os fraudulentos ficam embaixo e mais dor os assalta.

D’ogne malizia, ch’odio in cielo acquista, / ingiuria è ’l fine, ed ogne fin cotale / o con forza o con frode altrui contrista. / Ma perché frode è de l’uom proprio male, / più spiace a Dio; e però stan di sotto / li frodolenti, e più dolor li assale., de toda malícia que no céu atrai ódio o fim é a injustiça, e todo fim assim aflige o outro ou com força ou com fraude. Mas porque a fraude é o mal próprio do homem, mais desagrada a Deus; e por isso ficam embaixo os fraudulentos, e mais dor os assalta.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

O pecado, nessa conta, não se mede pelo sangue derramado, mede-se pelo uso da inteligência contra a confiança dos outros. Antes disso o poema já tinha mostrado o degrau mais leve, o dos que pecam vencidos por um desejo que a própria razão condena, e o define pela voz do narrador diante da tempestade do segundo círculo:

Intesi ch’a così fatto tormento / enno dannati i peccator carnali, / che la ragion sommettono al talento, entendi que a tão grande tormento são condenados os pecadores carnais, que submetem a razão ao desejo.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Virgílio completa, no canto XI do Inferno, com uma lição da Ética de Aristóteles que Dante deveria lembrar: incontinência, malícia e a louca bestialidade são as três disposições que o céu não quer, e a incontinência ofende menos a Deus e acarreta menos censura, porque o incontinente peca contra o que sabe, e o malicioso escolhe o mal.

Non ti rimembra di quelle parole / con le quai la tua Etica pertratta / le tre disposizion che ’l ciel non vole, / incontenenza, malizia e la matta / bestialitade? e come incontenenza / men Dio offende e men biasimo accatta?, não te lembras daquelas palavras com que a tua Ética trata das três disposições que o céu não quer, incontinência, malícia e a louca bestialidade? E como a incontinência ofende menos a Deus e acarreta menos censura?
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

O que o poema acrescenta à classificação é a pergunta sobre a relação entre o pecado e a pessoa. Francesca atribui a queda ao Amor, Pier delle Vigne ao desdém e à inveja da corte, Guido da Montefeltro ao papa que o absolveu antes do crime, Ulisses a uma sede de conhecer o mundo que nenhum afeto vence, e cada uma dessas vozes põe o pecado fora do ato: no que o move, em quem o pede, naquilo a que não resistiu. O Inferno responde a cada uma com a pena que repete a falta, e a cena em que isso fica mais claro é a do diabo que lembra a Guido que a contradição não permite arrepender-se e querer ao mesmo tempo. Há ainda, nas bordas do sistema, os casos que o mapa não explica: os ignavos do canto III do Inferno, que nem foram rebeldes nem fiéis, recusados pelo céu e pelo inferno profundo, e as almas do Limbo, do canto IV do Inferno, que não pecaram mas não tiveram o batismo. O Inferno tem, portanto, um lugar para quem pecou, um vestíbulo para quem não escolheu e um círculo para quem foi privado da porta, e o critério que serve a um não serve ao outro.

Quem o encarna

Francesca da Rimini é o pecado do desejo contado por quem o sofre, e a voz do Amor como sujeito é o modo como o poema mostra a troca de responsável. Guido da Montefeltro é a fraude do conselho, aplicada por quem se descreve pela esperteza. Lúcifer, no fundo, é a rebelião contra o criador, que o poema deduz do estado em que o vê.

Amor, ch’al cor gentil ratto s’apprende, / prese costui de la bella persona / che mi fu tolta; e ’l modo ancor m’offende. / Amor, ch’a nullo amato amar perdona, / mi prese del costui piacer sì forte, / che, come vedi, ancor non m’abbandona, amor, que ao coração gentil logo se prende, prendeu este pela bela pessoa que me foi tirada, e o modo ainda me ofende; amor, que a nenhum amado perdoa amar, prendeu-me tão forte do prazer dele que, como vês, ainda não me abandona.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Onde aparece

  • canto III: Os ignavos, que viveram sem infâmia e sem louvor, ficam no vestíbulo, recusados pelo céu e pelo inferno profundo, e o poema manda Dante olhar e passar.
  • canto IV: Virgílio explica que as almas do Limbo não pecaram, mas, sem batismo ou nascidas antes do cristianismo, não adoraram a Deus como devido, e por isso vivem em desejo sem esperança.
  • canto V: Dante entende que os luxuriosos são os pecadores carnais, que submetem a razão ao desejo, e vê Francesca atribuir ao Amor o que lhe aconteceu.
  • canto VI: Ciacco, florentino, é punido pela gula sob uma chuva eterna e pede a Dante que o lembre aos vivos quando voltar ao mundo.
  • canto VII: Avarentos e pródigos rolam pesos com o peito e se acusam, e Virgílio resume a culpa deles em dois verbos, mal dar e mal reter.
  • canto X: Virgílio mostra que os hereges jazem em sepulcros abertos, que só se fecharão quando os corpos voltarem do vale de Josafá no fim dos tempos.
  • canto XI: Virgílio divide o abismo em violência e fraude, com a fraude embaixo, e remete a incontinência à Ética de Aristóteles.
  • canto XIII: Pier delle Vigne conta que a alma que se arranca do próprio corpo vira árvore, e que os corpos dos suicidas ficarão pendurados nos espinheiros.
  • canto XVII: Gerião mostra a fraude com rosto de homem justo e corpo de serpente, e os usurários, sentados ao lado, são conhecidos só pela bolsa.
  • canto XIX: Dante acusa os papas simoníacos de fazerem de ouro e prata um deus, e Virgílio aprova o desabafo com um abraço.
  • canto XXVI: Ulisses e Diomedes ardem dentro de uma chama pelo ardil do cavalo, de Aquiles e do Paládio, e a viagem do herói fica sem sentença expressa.
  • canto XXX: Sinon e mestre Adão trocam golpes e acusações, cada um dizendo que o pecado do outro é maior, e Virgílio quase perde a paciência com Dante.
  • canto XXXII: Camiscion de' Pazzi espera Carlino, cuja traição maior o fará parecer menos culpado, e Bocca se recusa a dizer o nome mesmo quando Dante lhe arranca os cabelos.
  • canto XXXIV: Lúcifer mastiga Judas, Bruto e Cássio nas três bocas, e Judas, de cabeça dentro, tem a maior pena.

Onde as leituras divergem

O mapa que Virgílio traça no canto XI do Inferno é claro, mas deixa de fora os hereges do canto anterior, e o texto sustenta três respostas: eles cabem na violência contra Deus, ou na fraude, ou numa terceira coisa que Virgílio calou. O poema não decide, e o leitor tem de escolher entre uma ordem que explica quase tudo e o silêncio de quem a expôs.

Entre a classificação de Aristóteles e o gesto de Dante diante de Argenti, o Inferno mostra que a medida do pecado e a medida do que o peregrino sente podem divergir. O gosto de Dante pela pena de Argenti, que Virgílio aprova, é do mesmo tipo de impulso que o Estige pune em quem a ira venceu, e o poema deixa o paralelo sem comentário.