O tema na obra
A política atravessa o Inferno como assunto de conversa: quase todo florentino que Dante encontra lhe fala da cidade, e a cidade fala por ele. Dante não escreve sobre Florença de fora. Põe os mortos dela no poema e deixa que julguem os vivos que ainda governam, e é por isso que o Inferno é lido, em parte, como um ajuste de contas do exílio.
Otto Maria Carpeaux vai mais longe e vê na cidade infernal que aparece por trás da paisagem imaginária de montanhas e desfiladeiros a própria Florença, nomeada dentro do Inferno pelo poeta que dela foi exilado:
Godi, Fiorenza, poi che se’ sì grande / che per mare e per terra batti l’ali, / e per lo ’nferno tuo nome si spande!, alegra-te, Florença, pois és tão grande que por mar e por terra bates as asas, e pelo inferno teu nome se espalha!
A matéria política do canto tem três camadas. A primeira é a cidade partida em facções: Ciacco, no canto VI do Inferno, profetiza a longa contenda, o sangue e a expulsão de uma parte pela outra, e resume as causas da discórdia em soberba, inveja e avareza; Farinata, no canto X do Inferno, e Dante trocam a acusação de quem foi expulso e voltou; Vanni Fucci, no canto XXIV do Inferno, profetiza a derrota dos Brancos só para que Dante sofra.
sì ch’ogne Bianco ne sarà feruto. / E detto l’ho perché doler ti debbia!, de modo que todo Branco será ferido. E eu o disse para que isso te doa!
A segunda é a crítica à cidade nova, de gente recente e ganho súbito. Dante, que recusa dizer se a cortesia e o valor ainda moram em Florença, aponta a causa:
«La gente nuova e i sùbiti guadagni / orgoglio e dismisura han generata, / Fiorenza, in te, sì che tu già ten piagni»., a gente nova e os ganhos súbitos geraram em ti, Florença, soberba e desmedida, de modo que já choras por isso.
A terceira é a política maior, a da Igreja e do Império. No canto XIX do Inferno o peregrino acusa os papas simoníacos de terem feito de ouro e prata um deus e lança a culpa a Constantino pelo dote, e no canto XXVII do Inferno Guido da Montefeltro conta como o papa, que a tradição lê como Bonifácio VIII, em guerra contra cristãos, lhe pediu conselho para tomar Penestrino e lhe ofereceu o perdão antes do pecado. No canto XXXIV do Inferno o poema junta, nas três bocas de Lúcifer, Judas, que traiu Cristo, e Bruto e Cássio, que traíram César. O que o Inferno acrescenta a essa matéria é a distância entre o que cada político diz e o que a pena mostra dele, e a disposição de Dante de nomear a cidade e o partido que o expulsaram, no mesmo fôlego em que nomeia as próprias faltas. Pisa e Gênova, no canto XXXIII do Inferno, recebem a imprecação do poeta, e a voz que ele usa contra uma cidade inteira é a de quem fala em nome dos vizinhos que tardam a puni-la.
Ahi Pisa, vituperio de le genti / del bel paese là dove ’l sì suona, / poi che i vicini a te punir son lenti, ai, Pisa, vitupério das gentes do belo país onde o sim soa, já que os vizinhos são lentos em te punir.
Quem o encarna
Farinata degli Uberti é o político que o Inferno não consegue diminuir: de pé no túmulo, fala da cidade e do partido como se fossem tudo o que lhe resta. Brunetto Latini é o mestre que, no canto XV do Inferno, lê o céu de Dante e lhe diz que o povo ingrato e maligno que desceu de Fiesole será seu inimigo. Guido da Montefeltro é o conselheiro de papas e tiranos, a esperteza posta a serviço do poder.
Onde aparece
- canto VI: Ciacco, florentino, profetiza a Dante a longa contenda de Florença e diz que só dois justos há e não são ouvidos, porque soberba, inveja e avareza acendem os corações.
- canto X: Farinata diz que dispersou duas vezes os antepassados de Dante, e Dante responde que eles voltaram e que os do outro lado não aprenderam essa arte.
- canto XV: Brunetto Latini anuncia a Dante que o povo ingrato e maligno que desceu de Fiesole será seu inimigo por ele ter feito o bem.
- canto XVI: Dante diz a três cavaleiros florentinos que a gente nova e os ganhos súbitos geraram soberba e desmedida em Florença.
- canto XIX: Dante acusa os papas de terem feito de ouro e prata um deus e lança a Constantino a culpa pelo dote que a Igreja recebeu.
- canto XXIV: Vanni Fucci profetiza que todo Branco será ferido, e diz que o faz para que a notícia doa a Dante.
- canto XXVI: Dante abre o canto com uma invectiva a Florença, que achou entre os ladrões cinco florentinos e ganhou nome até no Inferno.
- canto XXVII: Guido da Montefeltro conta que o papa o chamou como médico da própria soberba e lhe pediu conselho para derrubar Penestrino.
- canto XXVIII: Mosca mostra a Dante a frase que foi má semente para a gente toscana, e Dante lhe responde com a morte da linhagem.
- canto XXXII: Dante arranca os cabelos de Bocca para saber o nome, e Bocca, denunciado, diz que Buoso da Duera chora ali o dinheiro dos franceses e nomeia outros traidores.
- canto XXXIII: Dante chama Pisa de vitupério das gentes e pede que Capraia e Gorgona fechem a foz do Arno e afoguem toda a sua gente.
Onde as leituras divergem
A política do Inferno aguenta duas leituras. Numa, é o exílio que fala: o poema acerta contas com Florença, com os papas que a fizeram e com os rivais que a venceram, e o interesse maior do canto é o ajuste. Noutra, é a doutrina que se serve do exílio: o poema ordena o mundo político pela mesma medida moral que usa para o resto, e o florentino, o papa e o tirano pesam pelo uso que fizeram da inteligência, não pela facção a que pertenceram. O canto XXVII do Inferno é o canto em que as duas leituras mais se tocam, porque Guido pesa pela esperteza e o papa pela soberba, mas a pergunta com que ele abre é sobre a terra que ficou para trás.
Entre as duas, o texto sustenta ambas, e é a presença do próprio Dante, que responde, amaldiçoa e se envergonha, que as mantém juntas. O Inferno é político porque o peregrino tem uma cidade, e a cidade é o que ele leva consigo a cada canto.