Clavis Libri

Personagem

Dante, o peregrino

Quem é

Dante, o peregrino, é o personagem que faz a viagem: o homem que, no meio do caminho da vida, se vê numa selva escura sem saber dizer como entrou, e que atravessa o Inferno inteiro atrás de Virgílio até rever as estrelas no canto XXXIV do Inferno. Quem conta é o poeta, depois, e os dois se distinguem pelo tempo e pelo saber: o peregrino ainda não sabe o que o poeta já sabe, e por isso teme, chora, se engana e é corrigido, enquanto o poeta interrompe a cena para se dirigir a quem lê, como no canto VIII do Inferno, no canto XVI do Inferno, no canto XX do Inferno e no canto XXII do Inferno. A ficha segue o peregrino. O que o define é a reação: cada pena que vê pede a ele um sentimento, e o Inferno é também a história de como esse sentimento muda, da piedade que o derruba no canto V do Inferno à dureza com que arranca os cabelos de Bocca no canto XXXII do Inferno.

A viagem se passa na Semana Santa de 1300, ano do Jubileu, e a tradição a situa na Sexta-feira Santa.

Trajetória

No canto I do Inferno, o peregrino não sabe dizer como entrou na selva, só que estava cheio de sono quando deixou a via reta. Ao pé do morro iluminado pelo sol o medo se acalma e ele sobe, mas uma onça, um leão e uma loba lhe barram o caminho, e a loba o empurra de volta, tirando-lhe a esperança de chegar ao alto. Quando vê aparecer Virgílio, pede socorro com vergonha na fronte e lembra o estudo que fez do seu livro:

Tu se’ lo mio maestro e ’l mio autore, / tu se’ solo colui da cu’ io tolsi / lo bello stilo che m’ha fatto onore, tu és o meu mestre e o meu autor, tu és o único de quem tomei o belo estilo que me deu honra.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No canto II do Inferno, ao cair da noite, hesita antes de entrar no caminho. Não duvida da viagem, duvida do direito a ela, e se mede por dois nomes que viveram o além com uma função na história:

Ma io, perché venirvi? o chi ’l concede? / Io non Enëa, io non Paulo sono; / me degno a ciò né io né altri ’l crede, mas eu, por que ir lá? quem o concede? Eu não sou Eneias, eu não sou Paulo; digno disso nem eu nem outros me julgam.
Cantos I a IV: A selva e a porta

Virgílio chama a dúvida de covardia e conta que três damas do céu cuidam dele; como flor curvada pelo gelo da noite que se endireita ao sol, Dante recobra a virtude e diz que só tem um querer com o mestre. No canto III do Inferno lê na porta uma inscrição cujo sentido lhe é duro, chora com os gritos dos que viveram sem infâmia e sem louvor, e, diante da luz vermelha que sobe da terra lagrimosa depois do estrondo, cai como quem é tomado pelo sono. No canto IV do Inferno, desperto por um trovão, toma por medo a palidez de Virgílio e hesita em segui-lo, e recebe a correção:

L’angoscia de le genti / che son qua giù, nel viso mi dipigne / quella pietà che tu per tema senti, a angústia das gentes que estão aqui embaixo me pinta no rosto a piedade que tu tomas por medo.
Cantos I a IV: A selva e a porta

Entre os quatro poetas que recebem Virgílio, é aceito como sexto da fila:

e più d’onore ancora assai mi fenno, / ch’e’ sì mi fecer de la loro schiera, / sì ch’io fui sesto tra cotanto senno, e ainda mais honra me fizeram, porque me fizeram da sua fileira, de modo que fui o sexto entre tanto saber.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No canto V do Inferno desce ao segundo círculo, vê a tempestade dos luxuriosos e pede para falar com dois que vão juntos. Escuta Francesca da Rimini e, quando fala, troca o sujeito das frases dela:

Oh lasso, / quanti dolci pensier, quanto disio / menò costoro al doloroso passo, ai de mim, quantos doces pensamentos, quanto desejo levou estes ao doloroso passo!
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Desmaia de piedade como cai um corpo morto. No canto VI do Inferno chora por Ciacco, mas a pergunta que lhe faz é sobre Florença, e depois quer saber onde estão os bons florentinos. No canto VII do Inferno interpela a justiça de Deus diante de tanta pena amontoada. No canto VIII do Inferno, quando um coberto de lama lhe pergunta quem chega antes da hora, amaldiçoa-o, e depois pede ao mestre o espetáculo da pena dele:

Maestro, molto sarei vago / di vederlo attuffare in questa broda / prima che noi uscissimo del lago, mestre, eu teria muita vontade de vê-lo mergulhar nesta sopa antes de sairmos do lago.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Vê as gentes lamacentas despedaçá-lo e agradece a Deus sem ressalva:

Dopo ciò poco vid’ io quello strazio / far di costui a le fangose genti, / che Dio ancor ne lodo e ne ringrazio, pouco depois vi o estraçalhar que as gentes lamacentas fizeram dele, de que ainda louvo e agradeço a Deus.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Poucos versos depois, diante das portas de Dite fechadas a Virgílio, é ele quem teme ser deixado, e o poeta se dirige ao leitor pedindo compaixão para si:

Pensa, lettor, se io mi sconfortai / nel suon de le parole maladette, / ché non credetti ritornarci mai, pensa, leitor, se eu me desconfortei no som das palavras malditas, pois não acreditei que voltaria jamais.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

No canto IX do Inferno empalidece quando Virgílio interrompe a própria frase, imagina um guia que não conhece o caminho, e deixa que ele lhe cubra os olhos diante da Medusa. No canto X do Inferno encolhe-se junto do mestre ao ouvir uma voz toscana, e é empurrado para diante de Farinata degli Uberti. Responde como guelfo, com gosto:

«S’ei fur cacciati, ei tornar d’ogne parte», / rispuos’ io lui, «l’una e l’altra fïata; / ma i vostri non appreser ben quell’ arte»., se foram expulsos, voltaram de toda parte, respondi, uma e outra vez; mas os vossos não aprenderam bem essa arte.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

Hesita antes de responder ao pai de Guido Cavalcanti, e a hesitação, lida como um verbo no passado, derruba o velho de costas; arrepende-se, e pede a Farinata que avise o caído de que o filho ainda vive. No canto XI do Inferno é o discípulo que pergunta e o mestre que ensina. No canto XII do Inferno sente as pedras se moverem sob um corpo vivo e escuta que o vale tremeu quando chegou aquele que levou de Dite a grande presa. No canto XIII do Inferno colhe, por ordem de Virgílio, um raminho de espinheiro, ouve o tronco gritar e fica como quem tem medo; tanta pena sente de Pier delle Vigne que não consegue perguntar nada, e no canto XIV do Inferno, por amor da pátria, recolhe as folhas espalhadas de outro suicida e as devolve ao tronco. No canto XV do Inferno reconhece, apesar do rosto cozido, Brunetto Latini, e a primeira fala é de reverência:

e chinando la mano a la sua faccia, / rispuosi: «Siete voi qui, ser Brunetto?»., e baixando a mão até o rosto dele, respondi: estais aqui, senhor Brunetto?
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Não ousa descer da estrada, anda de cabeça baixa, e recebe a profecia do exílio sem espanto, como coisa já ouvida de Farinata:

Non è nuova a li orecchi miei tal arra: / però giri Fortuna la sua rota / come le piace, e ’l villan la sua marra, não é nova aos meus ouvidos tal garantia: por isso gire a Fortuna a sua roda como lhe apraz, e o vilão a sua enxada.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

No canto XVI do Inferno quer se jogar entre os três cavaleiros de Florença e é contido pelo fogo, responde de rosto erguido sobre a cidade e entrega a corda a Virgílio, que a atira ao abismo. No canto XVII do Inferno vai sozinho ver os usurários, a quem nenhum rosto conhece, e monta em Gerião com o medo de quem está perto da febre da quartã; o que o faz subir é a vergonha diante de Virgílio:

Qual è colui che sì presso ha ’l riprezzo / de la quartana, c’ha già l’unghie smorte, / e triema tutto pur guardando ’l rezzo, / tal divenn’ io a le parole porte; / ma vergogna mi fé le sue minacce, / che innanzi a buon segnor fa servo forte., qual é aquele que está tão perto do arrepio da quartã, que já tem as unhas mortas e treme todo só de olhar a sombra, tal fiquei com as palavras que me foram dirigidas; mas a vergonha me fez suas ameaças, que diante de um bom senhor torna forte o servo.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Pensa que maior medo não teve Faetonte nem Ícaro. No canto XVIII do Inferno reconhece e chama pelo nome Venedico Caccianemico, e reconhece Alessio Interminei, que já vira de cabelos secos. No canto XIX do Inferno fala aos simoníacos e a um papa condenado com a ira que Virgílio aprova com um abraço, e acusa os papas por fazerem do ouro um deus:

Fatto v’avete dio d’oro e d’argento; / e che altro è da voi a l’idolatre, / se non ch’elli uno, e voi ne orate cento? / Ahi, Costantin, di quanto mal fu matre, / non la tua conversion, ma quella dote / che da te prese il primo ricco patre!, fizestes de ouro e prata um deus; e que outra coisa vos separa dos idólatras, senão que eles adoram um e vós adorais cem? Ai, Constantino, de quanto mal foi mãe, não a tua conversão, mas aquele dote que de ti recebeu o primeiro pai rico!
Cantos XVIII a XXII: As cinco primeiras valas

No canto XX do Inferno, ao contrário, chora diante dos adivinhos de rosto torcido e é repreendido. No canto XXI do Inferno e no canto XXII do Inferno treme diante dos Malebranche e, ainda assim, olha: no canto XXII do Inferno sabia os nomes de todos os demônios, porque os notou quando foram escolhidos. No canto XXIII do Inferno teme que os demônios venham mais cruéis e é carregado no peito pelo mestre. No canto XXIV do Inferno, sem fôlego no alto do escolho, finge mais força do que sente para não parecer fraco. No canto XXV do Inferno avisa o leitor de que mal admite o que viu e desafia Lucano e Ovídio. No canto XXVI do Inferno, antes de ouvir Ulisses, diz que freia o engenho:

Allor mi dolsi, e ora mi ridoglio / quando drizzo la mente a ciò ch’io vidi, / e più lo ’ngegno affreno ch’i’ non soglio, / perché non corra che virtù nol guidi; / sì che, se stella bona o miglior cosa / m’ha dato ’l ben, ch’io stessi nol m’invidi., então me doí, e agora me dói de novo, quando volto a mente ao que vi, e freio o engenho mais do que costumo, para que não corra sem que a virtude o guie; de modo que, se a boa estrela ou algo melhor me deu o bem, eu mesmo não o inveje a mim.
Cantos XXIII a XXVI: Hipócritas, ladrões e Ulisses

No canto XXVII do Inferno responde, por indicação de Virgílio, à pergunta de Guido sobre a Romanha, cidade a cidade. No canto XXVIII do Inferno, diante de Mosca, soma uma maldição ao que ouve:

Ricordera’ti anche del Mosca, / che disse, lasso!, “Capo ha cosa fatta”, / che fu mal seme per la gente tosca». / E io li aggiunsi: «E morte di tua schiatta», lembrar-te-ás também de Mosca, que disse, coitado, coisa feita tem cabeça, o que foi má semente para a gente toscana. E eu lhe acrescentei: e morte da tua linhagem.
Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé, os falsários

No canto XXIX do Inferno tapa os ouvidos aos lamentos que o ferem de piedade, e lê o silêncio de Geri del Bello como cobrança que a família não pagou:

O duca mio, la vïolenta morte / che non li è vendicata ancor», diss’ io, / «per alcun che de l’onta sia consorte, / fece lui disdegnoso; ond’ el sen gio / sanza parlarmi, sì com’ ïo estimo: / e in ciò m’ha el fatto a sé più pio, ó meu guia, a morte violenta que ainda não lhe foi vingada, disse eu, por algum que seja consorte da ofensa, tornou-o desdenhoso; por isso se foi sem me falar, ao que estimo, e com isso me fez mais piedoso para com ele.
Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé, os falsários

No canto XXX do Inferno, repreendido por escutar a briga de Adão e Sinon, volta-se com vergonha tão grande que a memória ainda gira nela, e é perdoado:

Maggior difetto men vergogna lava», / disse ’l maestro, «che ’l tuo non è stato; / però d’ogne trestizia ti disgrava, falta maior com menos vergonha se lava, disse o mestre, do que a tua foi; por isso descarrega-te de toda a tristeza.
Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé, os falsários

No canto XXXI do Inferno teme Efialte e Anteu. No canto XXXII do Inferno, no gelo, bate o pé no rosto de uma cabeça, diz a Bocca que o fará dizer o nome e o agarra pela nuca:

Allor lo presi per la cuticagna / e dissi: «El converrà che tu ti nomi, / o che capel qui sù non ti rimagna, então o peguei pela nuca e disse: será preciso que te nomeies, ou aqui em cima não ficará cabelo em ti.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

No canto XXXIII do Inferno escuta Ugolino, e com frei Alberigo faz a promessa que não cumpre:

Ma distendi oggimai in qua la mano; / aprimi li occhi». E io non gliel’ apersi; / e cortesia fu lui esser villano, mas estende agora a mão para cá; abre-me os olhos. E eu não os abri; e foi cortesia ser vilão com ele.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

No canto XXXIV do Inferno, diante de Lúcifer, diz ao leitor que não sabe dizer o que sentiu e o manda imaginar:

Io non mori’ e non rimasi vivo; / pensa oggimai per te, s’hai fior d’ingegno, / qual io divenni, d’uno e d’altro privo, eu não morri e não fiquei vivo; pensa agora por ti, se tens flor de engenho, qual me tornei, privado de um e de outro.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

Sobe depois de Virgílio por um buraco redondo e vê, da boca da fenda, as coisas belas que o céu carrega.

Temas que encarna

O peregrino é o instrumento com que o poema mede o castigo: cada pena exige dele uma reação, e a reação é o ponto em que o leitor decide o que pensa. Ele desmaia de piedade diante de Francesca, chora por Ciacco e pelos adivinhos, deseja a pena de Argenti, arranca os cabelos de Bocca e nega os olhos a Alberigo. O Pecado aparece nele como pergunta: o que é devido ao pecador? A Justiça e lei aparece como a correção que ele ouve de Virgílio, que o abraça quando ele se enfurece contra os simoníacos e o repreende quando ele chora pelos adivinhos. O Desejo está na selva do começo, na vontade de ver a pena de Argenti e no desejo de saber e de ver, que o leva de canto em canto. A Honra e reputação atravessa as conversas com Brunetto, com os três cavaleiros de Florença e com Mosca, todos pedindo que ele os recorde no mundo de cima.

O peregrino quer saber de Florença em quase todo encontro com um florentino, e o motivo é o mesmo que o exílio dá ao poema: a Política da cidade, partida entre os que voltam e os que não aprendem a voltar. O que ele aprende, ao longo da cântica, é a medir a piedade. No fundo do gelo, a piedade que o derrubou no canto V do Inferno já não vale como virtude, e o guia que o repreendeu por chorar não o repreende por arrancar cabelos.

Leituras divergentes

O poema dá duas leituras para a mudança do peregrino, da piedade ao gosto da pena, e não escolhe entre elas. Pode ser aprendizado: ele percebe que sofrer com o condenado é pôr a própria dor no lugar da sentença, como Virgílio lhe diz no canto XX do Inferno, e por isso endurece onde o lugar pede dureza. Pode ser risco: o desejo de ver Argenti afundado, o aplauso a Deus por vê-lo despedaçado e a violência contra Bocca são movimentos de quem já gosta do que vê, e o próprio Virgílio, no canto XXX do Inferno, chama de baixo o desejo de ouvir a baixaria. A partir do canto VIII do Inferno, o texto sustenta as duas.

O Inferno também pode ser lido como um acerto de contas do exílio.

Erich Auerbach lê o canto X como cena em que a figura humana passa à frente da ordem divina, e o efeito sobre o peregrino que escuta é o que o crítico pede de quem lê:

Devemos admirar Farinata, e chorar com Cavalcante.
Auerbach, Mimesis

Dante olha para Farinata de pé e para Cavalcante de costas com duas reações opostas, e a segunda é a que o faz arrepender-se. Entre a admiração do canto X do Inferno e a vergonha do canto XXX do Inferno, o peregrino aprende que o que se admira e o que se escuta com gosto pedem medidas diferentes.

Relações