Clavis Libri

Tema em Inferno

Desejo

O querer: prazer, apetite, tentação, anseio pelo que não se tem.

O tema na obra

O desejo é o que o Inferno pune e o que o Inferno mantém vivo. A primeira fera que Dante encontra, no canto I do Inferno, é a loba, e é a única das três cujo sentido o poema diz: Virgílio a descreve pelo efeito, uma vontade que nunca se sacia e que depois do pasto tem mais fome que antes. Quase toda pena que se segue repete essa estrutura de uma vontade sem objeto que a satisfaça.

e ha natura sì malvagia e ria, / che mai non empie la bramosa voglia, / e dopo ’l pasto ha più fame che pria, e tem natureza tão má e tão ruim que nunca sacia a vontade ávida, e depois do pasto tem mais fome que antes.
Cantos I a IV: A selva e a porta

O poema trata o desejo em três registros. O primeiro é o desejo como pecado. Nos círculos da incontinência ele é o apetite a que a razão se submete, e Dante o resume no canto V do Inferno diante dos luxuriosos arrastados pela ventania; nos cantos seguintes, a gula, o gastar e o guardar sem medida, a ira, mostram variantes do mesmo erro. O segundo é o desejo como pena. No Limbo, Virgílio descreve a condição dos seus como a de quem vive em desejo sem esperança, e outras penas do poema mantêm o desejo sem o objeto: mestre Adão, vivo, teve o que quis, e agora anseia por uma gota de água. O terceiro é o desejo como motor de conhecimento e de ação. O ardor de Ulisses de conhecer o mundo e os vícios dos homens é, no canto XXVI do Inferno, uma paixão como as outras que o Inferno pune, só que de objeto elevado, e vence dentro dele o filho, o velho pai e a mulher.

Per tai difetti, non per altro rio, / semo perduti, e sol di tanto offesi / che sanza speme vivemo in disio, por tais defeitos, não por outra culpa, estamos perdidos, e ofendidos só nisto: que sem esperança vivemos em desejo.
Cantos I a IV: A selva e a porta
né dolcezza di figlio, né la pieta / del vecchio padre, né ’l debito amore / lo qual dovea Penelopè far lieta, / vincer potero dentro a me l’ardore / ch’i’ ebbi a divenir del mondo esperto / e de li vizi umani e del valore, nem a doçura de um filho, nem a piedade pelo velho pai, nem o amor devido que devia alegrar Penélope, puderam vencer dentro de mim o ardor que tive de me tornar conhecedor do mundo, dos vícios humanos e do valor.
Cantos XXIII a XXVI: Hipócritas, ladrões e Ulisses

O desejo também mede o peregrino. No canto VIII do Inferno, Dante, que desmaiou por Francesca e chorou por Ciacco, pede a Virgílio o espetáculo da pena de Filippo Argenti, e o pede com a palavra de quem tem gosto por ver. No canto XXX do Inferno, Virgílio lhe diz o nome do mesmo impulso: querer ouvir a briga é desejo baixo. O mesmo poema que mostra no canto III do Inferno o temor das almas se convertendo em desejo de atravessar o rio, porque a justiça divina as esporeia, mostra no fundo do gelo um condenado que, convidado a ganhar a fama, responde que deseja o contrário. Em quase todo canto há alguém que quer alguma coisa, e o que o Inferno faz é medir, pela pena, a distância entre o que ele quis e o que teve.

Quem o encarna

Francesca da Rimini é o desejo mais amável do poema, um amor que prende o coração gentil e não perdoa a ninguém amado amar. Ulisses é o mais alto, o ardor de conhecer. Dante é o que olha, aprende e erra, e o seu desejo de ver Argenti afundado e de ouvir uma briga é o que o poema vigia nele.

Maestro, molto sarei vago / di vederlo attuffare in questa broda / prima che noi uscissimo del lago, mestre, eu teria muita vontade de vê-lo mergulhar nesta sopa antes de sairmos do lago.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Onde aparece

  • canto I: Dante se vê numa selva escura e uma loba, que nunca sacia a vontade ávida, lhe tira a esperança de chegar ao alto do morro.
  • canto III: Virgílio explica que a divina justiça esporeia os condenados, de modo que o temor das almas diante de Caronte se torna desejo de atravessar o rio.
  • canto IV: Virgílio diz que as almas do Limbo vivem em desejo sem esperança, e Dante se vê o sexto entre os poetas que o recebem.
  • canto V: Francesca conta que o Amor a prendeu ao prazer do outro e não a abandona, e Virgílio nomeia os luxuriosos que o vento arrasta.
  • canto VI: Cérbero, de gargantas famintas, esfola os gulosos sob a chuva, e Virgílio lhe joga terra nas bocas, usando o apetite da fera contra ela.
  • canto VII: Avarentos e pródigos rolam pesos com o peito e se acusam, e Virgílio resume o erro deles em dois verbos, mal dar e mal reter.
  • canto VIII: Dante pede a Virgílio o espetáculo da pena de Filippo Argenti, e o poema mostra o desejo realizado e agradecido a Deus.
  • canto XII: O poeta interrompe a descrição do rio de sangue para chamar de cega a cobiça e louca a ira que punem os violentos.
  • canto XXVI: Ulisses diz que nem o filho, nem o velho pai, nem Penélope venceram dentro dele o ardor de conhecer o mundo e o valor dos homens.
  • canto XXX: Mestre Adão, que teve em vida bastante do que quis, anseia por uma gota de água, e Virgílio chama de baixo o desejo de ouvir a briga.
  • canto XXXII: Bocca recusa a oferta de fama de Dante e diz que deseja o contrário, pois quem traiu quer ser esquecido.
  • canto XXXIII: Ugolino, depois de chamar por dois dias os filhos mortos, diz que mais do que a dor pôde o jejum.

Onde as leituras divergem

O verso de Ugolino sobre a fome que venceu a dor aguenta duas leituras, e o desejo está nas duas: a fome mata, ou a fome faz o pai comer os filhos. O poema não decide, e a cena seguinte, em que ele volta a roer o crânio do arcebispo, empurra de um lado, enquanto a oferta dos filhos empurra de outro. O que o texto torna certo é que o desejo mais elementar, o de comer, é também o que o poema reserva para a pena mais alta de piedade e de horror.

Entre a loba do começo e a fome do fim há a mesma estrutura: uma vontade que ultrapassa a medida e uma pena que a mantém. O Inferno não ensina a não desejar; ensina a ver o que cada desejo faz do homem que o tem, e é por isso que Ulisses é o mais difícil de ler: o objeto do desejo dele é o próprio conhecer.