O tema na obra
A traição é o pecado que o Inferno põe no fundo, e a escolha diz o que o poema entende por vínculo. Virgílio a anuncia no canto XI do Inferno: a fraude, mal próprio do homem, tem dois graus, um contra quem não confia, que corta só o laço de amor que a natureza faz, e outro contra quem confia, que rompe também a confiança especial; é neste, no círculo menor, que o traidor é consumido para sempre. O resto do caminho de Malebolge é a preparação: Venedico entrega Ghisolabella ao marquês, Jasão engana Isífile, os conselheiros fraudulentos usam a esperteza contra quem confia, os semeadores de discórdia cortam o que estava unido. A forma do castigo repete a quebra, e no fim ela se torna a figura geral do gelo, o castigo de quem desfez um laço.
A face que o poema dá à fraude é a de Gerião, no canto XVII do Inferno, o rosto de homem justo sobre o corpo de serpente, a aparência de lealdade sobre uma natureza peçonhenta:
La faccia sua era faccia d’uom giusto, / tanto benigna avea di fuor la pelle, / e d’un serpente tutto l’altro fusto, a face dele era face de homem justo, tão benigna tinha por fora a pele, e de serpente todo o resto do corpo.
O ensinamento dos gigantes, na borda do poço, é de que a inteligência posta a serviço da má vontade e da força não tem defesa possível:
ché dove l’argomento de la mente / s’aggiugne al mal volere e a la possa, / nessun riparo vi può far la gente, pois onde o instrumento da mente se junta à má vontade e à força, nenhum abrigo a gente pode fazer.
No gelo, a traição se divide pelos laços que desfez. Segundo a leitura corrente, a Caína é a dos parentes, a Antenora a da pátria ou do partido, a Tolomea a dos hóspedes e a Judeca a dos benfeitores. O poema não declara a classificação, mostra as cenas: Camiscion de' Pazzi à espera de Carlino, que o fará parecer menos culpado; Bocca, que recusa dar o nome; frei Alberigo, que explica que a alma cai na Tolomea antes de a morte chegar ao corpo, que um demônio passa a governar; e, no centro, a boca de Lúcifer em que mastiga Judas.
Quell’ anima là sù c’ha maggior pena», / disse ’l maestro, «è Giuda Scarïotto, / che ’l capo ha dentro e fuor le gambe mena, aquela alma lá em cima que tem a maior pena, disse o mestre, é Judas Iscariotes, que tem a cabeça dentro e agita as pernas fora.
O tema tem um avesso, que o poema não esconde, a lealdade que acaba mal. Pier delle Vigne jura nunca ter rompido a fé com o senhor e pede que a memória dele seja confortada, e os filhos de Ugolino se oferecem em comida ao pai para que ele se alimente. Dante, por sua vez, é leal a Virgílio no canto XVII do Inferno, onde monta em Gerião por vergonha diante de um bom senhor, e, no canto XXXIII do Inferno, promete a Alberigo desembaraçar-lhe os olhos e não cumpre.
ed ei, pensando ch’io ’l fessi per voglia / di manicar, di sùbito levorsi / e disser: “Padre, assai ci fia men doglia / se tu mangi di noi: tu ne vestisti / queste misere carni, e tu le spoglia, e eles, pensando que eu o fizesse por vontade de comer, de súbito se levantaram e disseram: pai, muito menos nos doerá se comeres de nós: tu nos vestiste destas carnes míseras, e tu as despoja.
Quem o encarna
Ugolino carrega os dois lados: traidor, segundo a fama, e pai cujos filhos oferecem o próprio corpo. Lúcifer é o laço mais alto desfeito, o criador traído, a figura de quem, tendo o vínculo mais alto, o rompeu. Guido da Montefeltro é a esperteza que dá o conselho fraudulento. Pier delle Vigne é a lealdade jurada que o poema ouve e não absolve.
Onde aparece
- canto V: Francesca diz que Caína espera quem lhe tirou a vida, e o poema deixa a pena do traidor de parentes anunciada no segundo círculo.
- canto XIII: Pier delle Vigne jura pelas raízes novas do tronco que nunca rompeu a fé com o senhor, e pede que conforte a sua memória.
- canto XVII: Gerião chega à margem com face de homem justo e corpo de serpente, e o narrador o chama de imagem suja da fraude.
- canto XVIII: Venedico Caccianemico confessa ter levado Ghisolabella a fazer a vontade do marquês, e Virgílio mostra Jasão, que enganou Isífile e a deixou grávida.
- canto XXVII: Guido da Montefeltro dá ao papa o conselho fraudulento, e um diabo lhe mostra que não se pode absolver quem não se arrepende.
- canto XXVIII: Bertran de Born carrega a cabeça cortada como lanterna porque pôs pai e filho em guerra, e Mosca recorda a frase que dividiu os toscanos.
- canto XXX: Sinon e mestre Adão trocam golpes e acusações, o falsário de moedas e o falso testemunho de Troia lado a lado.
- canto XXXI: Nemrod fala uma língua que ninguém entende, Efialte está preso por correntes, e Anteu desce os dois ao poço dos traidores.
- canto XXXII: Camiscion de' Pazzi espera Carlino, cuja traição maior o fará parecer menos culpado, e Bocca recusa dar o nome mesmo sob o puxão de cabelos.
- canto XXXIII: Ugolino conta a morte dos filhos na torre, e frei Alberigo pede que lhe tirem os véus duros do rosto, e Dante não o faz.
- canto XXXIV: Lúcifer mastiga Judas, Bruto e Cássio nas três bocas, e Judas, de cabeça dentro, tem a maior pena.
Onde as leituras divergem
O poema não decide se Ugolino é traidor ou só tem fama de ter traído, e deixa a pergunta aberta na própria fala de Dante: ainda que ele tivesse fama de ter traído os castelos, as crianças eram inocentes. A pena do pai no gelo continua, e a ressalva do narrador não a levanta. A mesma ambiguidade rege a cortesia de Dante com Alberigo, que o poema chama de cortesia: ironia que admite o descumprimento, ou literalidade, a boa criação do peregrino que não serve a um traidor.
Entre as duas, o gelo mostra o preço de falar de lealdade num poema que a trai e a sustenta ao mesmo tempo: o narrador que promete e não cumpre, o guia que carrega e repreende. O texto sustenta ambas as leituras.