Clavis Libri

Tema em Inferno

Justiça e lei

A justiça e a lei, e o choque entre elas: crime e castigo, julgamento, tribunal, lei natural contra lei escrita.

O tema na obra

A justiça é a primeira palavra que o Inferno diz de si mesmo. A inscrição da porta, no canto III do Inferno, fala em primeira pessoa e dá a causa da cidade: justiça moveu o alto criador, e a fizeram o poder divino, a suma sabedoria e o primeiro amor. Antes de qualquer pena, o poema avisa que o Inferno é obra de uma ordem, e não de um acidente.

Giustizia mosse il mio alto fattore; / fecemi la divina podestate, / la somma sapïenza e ’l primo amore. / Dinanzi a me non fuor cose create / se non etterne, e io etterno duro. / Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate, justiça moveu o meu alto criador; fizeram-me a divina potestade, a suma sabedoria e o primeiro amor. Antes de mim não houve coisas criadas, senão eternas, e eu, eterna, perduro. Deixai toda esperança, vós que entrais.
Cantos I a IV: A selva e a porta

Dessa ordem o poema mostra três engrenagens. A primeira é a vontade que ninguém discute. Diante de Caronte e depois diante de Minos, Virgílio responde com as mesmas palavras, quer-se assim lá onde se pode o que se quer, e a repetição diz que a viagem de Dante tem um dono que os guardiões conhecem.

Non impedir lo suo fatale andare: / vuolsi così colà dove si puote / ciò che si vuole, e più non dimandare, não impeças o seu fatal andar: quer-se assim lá onde se pode o que se quer, e não perguntes mais.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

A segunda é a medida: Minos examina a culpa e enrola a cauda tantas vezes quantos os graus da descida, e o desenho do abismo, exposto por Virgílio no canto XI do Inferno, ordena a pena pelo uso da inteligência contra a confiança dos outros. A terceira é o contrapasso, a pena que repete a culpa. O poema usa essa palavra uma só vez, na boca de Bertran de Born, no canto XXVIII do Inferno, que a enuncia como a lei de que ele é o exemplo: porque dividiu pessoas tão unidas, leva dividido o cérebro, longe do seu princípio. O que se vê nesse canto está em quase todos os outros, nas capas de chumbo dos hipócritas, nas serpentes que desfazem o corpo dos ladrões, nos corpos que os suicidas não terão de volta: a justiça do Inferno é uma coisa que o condenado entende e confirma, e não só sofre.

O poema não se limita a mostrá-la. Dante a interpela, no canto VII do Inferno, ao ver a quantidade de pena amontoada num só lugar, e o que recebe é uma lição sobre os avarentos e sobre a Fortuna, ministra posta por Deus, que o poema deixa ao leitor ver se responde à pergunta de por que a culpa dos homens os destrói assim:

Ahi giustizia di Dio! tante chi stipa / nove travaglie e pene quant’ io viddi? / e perché nostra colpa sì ne scipa, ai, justiça de Deus! quem amontoa tantos novos trabalhos e penas quantos eu vi? e por que a nossa culpa assim nos destrói?
Cantos V a VIII: Os incontinentes

E o poema vigia o próprio peregrino, para que não ponha a sua dor no lugar da sentença. Quando ele chora diante dos adivinhos, Virgílio o repreende com uma palavra que em italiano vale por compaixão e por piedade:

Qui vive la pietà quand’ è ben morta; / chi è più scellerato che colui / che al giudicio divin passion comporta?, aqui a piedade vive quando está bem morta; quem é mais celerado do que aquele que se compadece do juízo de Deus?
Cantos XVIII a XXII: As cinco primeiras valas

Há ainda a justiça dos homens, que o Inferno cobra e discute: a lei de propriedade que fecha o bosque dos suicidas, a vingança que a família de Geri del Bello deixa por pagar, a cidade em que, diz Ciacco, só dois são justos e não são ouvidos. Em todas o poema pergunta quem tem o direito de medir.

Quem o encarna

Minos é a justiça como ofício: examina, mede, enrola a cauda e manda, e só a fórmula de Virgílio o cala. Caronte é a execução: não julga, passa à outra margem quem a divina justiça esporeia, de modo que o temor se torna desejo. E o diabo que disputa Guido da Montefeltro com São Francisco é a mesma justiça em forma de argumento:

ch’assolver non si può chi non si pente, / né pentere e volere insieme puossi / per la contradizion che nol consente, pois não se pode absolver quem não se arrepende, nem arrepender-se e querer ao mesmo tempo, porque a contradição não o permite.
Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé, os falsários

Onde aparece

  • canto III: A inscrição da porta diz que a justiça moveu o criador do Inferno, e Virgílio explica que a divina justiça faz o temor das almas virar desejo de atravessar.
  • canto V: Minos examina cada culpa e enrola a cauda, e Virgílio repete a ele a fórmula que usou com Caronte, a de uma vontade que ninguém discute.
  • canto VII: Dante, diante da pena amontoada nos avarentos e pródigos, interpela a justiça de Deus, e Virgílio lhe responde falando da Fortuna.
  • canto XI: Virgílio expõe a ordem do abismo, em que a fraude vem embaixo da violência e a incontinência ofende menos a Deus que a malícia.
  • canto XII: Nesso explica que a justiça divina fere Átila, Pirro e Sexto no rio de sangue e espreme as lágrimas de dois salteadores de estrada.
  • canto XIII: Pier delle Vigne diz que os suicidas não terão os corpos de volta, porque não é justo ter o que se tirou.
  • canto XIV: Capaneu, deitado sob a chuva de fogo, grita que é morto como foi vivo, e Virgílio responde que a própria soberba é a pena dele.
  • canto XX: Virgílio repreende Dante por chorar diante dos adivinhos de rosto torcido, porque ali a piedade só vive quando está bem morta, e compadecer-se do juízo de Deus é o pior dos crimes.
  • canto XXI: Virgílio apresenta aos Malebranche a vontade do céu como razão de passar, e Malacoda deixa o gancho cair aos pés.
  • canto XXVII: Um diabo mostra a Guido da Montefeltro que não se pode absolver quem não se arrepende, nem se arrepender e querer ao mesmo tempo.
  • canto XXVIII: Bertran de Born diz que leva dividido o cérebro porque dividiu pai e filho, e chama a isso o contrapasso.
  • canto XXIX: O aretino conta que Minos, a quem errar não é permitido, o condenou pela alquimia que praticou no mundo, na última das dez valas.
  • canto XXX: Mestre Adão conta que a justiça que o fustiga o castiga no lugar onde pecou, e lembra os riachos do Casentino que agora o secam.

Onde as leituras divergem

A justiça que o Inferno exibe aguenta duas leituras, e o poema não escolhe. Numa, ela é uma ordem inteligível, que o condenado entende e confirma, como Bertran de Born diante do contrapasso, e que o peregrino aprende a aceitar sem chorar. Na outra, é uma ordem que se impõe por uma vontade acima de toda pergunta, como a fórmula repetida a Caronte e a Minos, e que o peregrino só aceita porque três damas do céu cuidam dele. O canto VII do Inferno mostra o ponto de tensão: Dante pergunta pela justiça de Deus e o poema responde com a Fortuna.

Entre a justiça que se explica e a que apenas se impõe, o Inferno guarda um lugar para cada uma, e o leitor decide qual pesa mais. A inscrição que abre a cântica põe as duas na mesma frase: o que a moveu é justiça, e quem a fez foi o primeiro amor.