Clavis Libri

Tema em Inferno

Honra e reputação

O valor de alguém aos olhos dos outros e aos próprios: honra, glória, fama, dignidade, vergonha pública.

O tema na obra

No Inferno, o nome é a última coisa que resta, e o que os condenados pedem a Dante é quase sempre que o nome sobreviva. O pedido é tão constante que o poema o usa para medir os cantos: Ciacco quer ser lembrado aos vivos, Pier delle Vigne quer que alguém conforte a sua memória, Brunetto Latini recomenda o seu livro, os três cavaleiros de Florença pedem que se fale deles, Mosca quer que a sua frase seja recordada. Do outro lado ficam os que nem isso têm: os ignavos, a quem o mundo não deixa fama, e os usurários, conhecidos só pela bolsa com o brasão.

O primeiro caso está no vestíbulo, no canto III do Inferno. Virgílio recusa nomear os ignavos porque a pena deles é exatamente essa, e dá ao discípulo um jeito de olhar:

Fama di loro il mondo esser non lassa; / misericordia e giustizia li sdegna: / non ragioniam di lor, ma guarda e passa, fama deles o mundo não deixa existir; misericórdia e justiça os desdenham: não falemos deles, mas olha e passa.
Cantos I a IV: A selva e a porta

O inverso aparece no canto VI do Inferno, no único pedido de Ciacco, que quer deixar vestígio entre os que o chamaram pelo nome:

Ma quando tu sarai nel dolce mondo, / priegoti ch’a la mente altrui mi rechi: / più non ti dico e più non ti rispondo, mas quando fores ao doce mundo, peço que me tragas à memória dos outros: não te digo mais e não te respondo mais.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

E o caso máximo está no canto XV do Inferno, quando o mestre de Dante reduz toda a sua existência de homem de letras a uma recomendação, a do livro em que ainda vive:

Sieti raccomandato il mio Tesoro, / nel qual io vivo ancora, e più non cheggio». / Poi si rivolse, e parve di coloro / che corrono a Verona il drappo verde / per la campagna; e parve di costoro / quelli che vince, non colui che perde., seja-vos recomendado o meu Tesoro, no qual ainda vivo, e mais não peço. Depois se voltou, e pareceu daqueles que correm em Verona o pano verde pelo campo; e pareceu, entre eles, o que vence, não o que perde.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

A honra tem, no poema, uma contraparte, a vergonha. Vanni Fucci, no canto XXIV do Inferno, diz que lhe dói mais ter sido visto por Dante na miséria em que está do que a morte. Dante se envergonha no canto XXX do Inferno de ter escutado a briga de Adão e Sinon, e Virgílio o perdoa porque falta maior com menos vergonha se lava. No fundo do gelo, a inversão é completa: Bocca recusa a única moeda que os condenados pediam, a fama do nome, e Dante responde com a violência.

Del contrario ho io brama. / Lèvati quinci e non mi dar più lagna, / ché mal sai lusingar per questa lama, do contrário eu tenho desejo. Some daqui e não me aborreça mais, pois mal sabes lisonjear nesta baixada.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

O que o poema sustenta, entre essas posições, é uma distinção sobre o que é fama. Virgílio levanta Dante do cansaço no canto XXIV do Inferno dizendo que sentado em pluma não se chega à fama, e que sem ela a vida deixa de si na terra o rastro que têm no ar a fumaça e na água a espuma:

ché, seggendo in piuma, / in fama non si vien, né sotto coltre; / sanza la qual chi sua vita consuma, / cotal vestigio in terra di sé lascia, / qual fummo in aere e in acqua la schiuma., porque sentado em pluma não se chega à fama, nem sob coberta; sem ela, quem consome a vida deixa de si na terra o rastro que têm no ar a fumaça e na água a espuma.
Cantos XXIII a XXVI: Hipócritas, ladrões e Ulisses

Fama como vestígio, portanto, e fama como prêmio de uma conduta, e os dois sentidos se tocam nos tipos que o poema escolhe. Farinata é, nas palavras do poeta, magnânimo. Brunetto, condenado, é mostrado vencendo no último verso do canto. O que o Inferno mostra é que a honra de um homem se mede em muitos lugares, a cidade, a família, a obra, e que a pena que o põe ali pode deixá-la intacta.

Quem o encarna

Farinata degli Uberti é a honra como postura: de pé no túmulo, não muda de aspecto nem quando o outro desaba. Brunetto Latini é a honra como obra, o Tesoro em que ele ainda vive. Pier delle Vigne é a honra ferida, que pede ao visitante que a conforte. Dante, o peregrino, é o ouvinte a quem tudo isso é confiado, e o poeta que o faz.

Onde aparece

  • canto III: Os ignavos não têm fama no mundo, nem a misericórdia nem a justiça os querem, e Virgílio manda Dante olhar e passar.
  • canto IV: Os poetas recebem Virgílio com honra e fazem de Dante o sexto da fila, entre Homero, Horácio, Ovídio e Lucano.
  • canto VI: Ciacco pede a Dante que o lembre aos vivos quando voltar ao doce mundo, e depois baixa a cabeça e cai entre os outros cegos.
  • canto X: Farinata não muda de aspecto nem quando Cavalcante cai de costas, e o poeta o chama de magnânimo.
  • canto XIII: Pier delle Vigne jura nunca ter rompido a fé com o senhor e pede que Dante conforte a sua memória, ferida pela inveja.
  • canto XV: Brunetto recomenda a Dante o seu Tesoro, no qual ainda vive, e some como o corredor que vence em Verona.
  • canto XVI: Os três cavaleiros de Florença pedem a Dante que fale deles quando rever as belas estrelas.
  • canto XVII: Os usurários não têm rosto conhecido, só uma bolsa com o brasão da família, e nenhum tem nome para pedir.
  • canto XXIV: Virgílio diz a Dante que sentado em pluma não se chega à fama, e Vanni Fucci diz que lhe dói mais ser visto do que morrer.
  • canto XXVIII: Mosca pede que Dante se lembre dele com a frase que foi má semente, e Dante responde com a morte da linhagem.
  • canto XXXI: Virgílio pede a Anteu que os desça ao fundo, prometendo que Dante, que vive, pode lhe dar fama no mundo.
  • canto XXXII: Bocca recusa a oferta de fama de Dante e diz desejar o contrário, e Dante lhe arranca os cabelos para saber o nome.

Onde as leituras divergem

A oferta de fama divide o poema em duas posições que o texto sustenta, sem decidir. Numa, a fama é a moeda que o Inferno aceita: Virgílio a oferece a Anteu, Dante a oferece a Bocca, e quase todo condenado a pede. Na outra, é a moeda que o gelo recusa: Bocca a recusa e o poema o deixa recusar, de modo que o fundo é o lugar onde ser lembrado é pior que ser esquecido. A fórmula de Virgílio a Anteu pode ser cortesia legítima de quem pede ajuda a um forte, ou adulação do tipo que o poema pune na vala dos aduladores.

O contraste é o ponto de maior unidade do tema. Ciacco, Pier, Brunetto e os três cavaleiros pedem a mesma coisa, e Bocca recusa a mesma coisa, e a diferença entre eles é a do laço que cada um quebrou: quem quebrou o laço mais fundo prefere o esquecimento.