O tema na obra
A solidão em Um, Nenhum e Cem Mil começa como desejo e termina como diagnóstico. No Livro I, Vitangelo Moscarda quer ficar uma hora sozinho, e a pergunta que faz ao leitor é o que isso significa. A resposta comum, ficar em companhia de si mesmo, ele a desfaz na hora com uma sequência de lembranças que se abrem umas dentro das outras, e a que propõe é inversa: estar só é estar num lugar onde o eu não tem nome nem voz, e onde o estranho é o próprio visitante. Daí o paradoxo do começo, o de querer ficar sem si mesmo, com um estranho em volta, e esse estranho ser ele. O romance vai então virar a ideia pelo avesso. Quanto mais ele tenta fugir dos olhos dos outros, mais descobre que o que chamava de si mesmo era feito deles, e que a solidão que buscava não existe, a não ser como horror.
No capítulo III do Livro I a primeira definição é feita para ser desfeita:
Per voi, esser soli, che vuol dire? Restare in compagnia di voi stessi, senza alcun estraneo attorno., para os senhores, estar só, o que quer dizer? Ficar em companhia de si mesmos, sem nenhum estranho em volta.
No capítulo IV do Livro I vem a segunda, a que o livro leva a sério, e que põe o leitor no papel de estranho:
La vera solitudine è in un luogo che vive per sè e che per voi non ha traccia nè voce, e dove dunque l’estraneo siete voi., a verdadeira solidão está num lugar que vive por si e que para os senhores não tem rastro nem voz, e onde portanto o estranho são os senhores.
No capítulo III do Livro V, escondido num terreno vazio, ele só consegue confidenciar a quem não responde, e a cadela Bibi, que não fala, é a única a quem ele se confia. Mesmo com ela, tem medo:
Io non posso più vedermi guardato. Neanche da te. Ho paura anche di come ora mi guardi tu, eu não posso mais me ver olhado. Nem por você. Tenho medo até de como você me olha agora.
No capítulo IV do Livro V a descoberta se inverte: a consciência, que se toma pelo mais íntimo, são os outros em nós, e por isso não podemos nos sentir sós. É o que significa saber da solidão sem senti-la:
Sapevo, sapevo la mia solitudine; ma ora soltanto ne sentivo e toccavo veramente l’orrore, davanti a me stesso, per ogni cosa che vedevo; se alzavo una mano e me la guardavo, eu sabia, sabia da minha solidão; mas só agora sentia e tocava de verdade o seu horror, diante de mim mesmo, em cada coisa que eu via, se levantava uma mão e a olhava.
No capítulo VII do Livro V, entre parênteses, ele formula a conclusão que não diz em voz alta: se todos olhássemos como ele olha, ninguém conviveria com a falsa segurança.
E nessuno pensa che tutti dovremmo guardare sempre così, ciascuno con gli occhi pieni dell’orrore della propria solitudine senza scampo, e ninguém pensa que todos deveríamos olhar sempre assim, cada um com os olhos cheios do horror da própria solidão sem escapatória.
No capítulo II do Livro VI, depois que Dida vai embora, o isolamento deixa de ser ideia e vira casa vazia:
A toccarmi, a strizzarmi le mani, sì, dicevo “io„, ma a chi lo dicevo? e per chi? Ero solo. In tutto il mondo, solo. Per me stesso, solo., tocando-me, apertando as mãos, sim, eu dizia “eu”, mas a quem o dizia? e para quem? Eu estava só. No mundo inteiro, só. Para mim mesmo, só.
E a pergunta que o encerra:
A chi dire “io„? Che valeva dire “io„, se per gli altri aveva un senso e un valore che non potevano mai essere i miei; e per me, così fuori degli altri, l’assumerne uno diventava subito l’orrore di questo vuoto e di questa solitudine?, a quem dizer “eu”? De que valia dizer “eu”, se para os outros tinha um sentido e um valor que nunca podiam ser os meus; e para mim, tão fora dos outros, assumir um (sentido) logo se tornava o horror deste vazio e desta solidão?
O tema tem duas fases que se contradizem sem se anular. Na primeira, a solidão é uma ausência de companhia que Vitangelo quer e não consegue, porque a mulher, a casa e os amigos o mantêm presente a si. Na segunda, é a perda do outro interior, aquele que torna a consciência possível, e então é um estado que ele teme, e que descobre no capítulo IV do Livro V e no capítulo II do Livro VI. O que une as duas fases é que a solidão, nos dois casos, é uma questão de testemunha: quem a quer, quer ser desconhecido, e quem a sofre, perdeu o outro que o fazia consciente. O desfecho propõe uma terceira, em que a solidão deixa de ser problema porque o eu, que precisava de testemunha, se dissolveu nas coisas.
Quem o encarna
Vitangelo Moscarda é a solidão em todas as fases: a buscada no capítulo III do Livro I, a temida no capítulo III do Livro V e a vazia no capítulo II do Livro VI. Anna Rosa é a solidão compartilhada, no capítulo VIII do Livro VII: depois que ele lhe ensina que quem se mira nos espelhos não vive, abre-se para os dois a visão da solidão irremediável, e é o momento em que o livro mostra duas pessoas diante da mesma. Bibi, a cadela, é a presença que não responde e por isso a única que cabe no terreno vazio do capítulo III do Livro V. O louco do terraço do capítulo VII do Livro VII é a solidão que ninguém interrompe, e que o bispo trata como hábito de anos. Dida é o contrário: a pessoa que, estando perto, mais o deixa só, porque no abraço do capítulo II do Livro V ele sente que aperta uma estranha e não pode lhe dizer como ela é.
fiducioso nell’abbandono che mi faceva di sè, senza il più lontano sospetto che non si désse realmente a me, quel suo corpo, e che io, stringendomelo tra le braccia, non mi stringessi con quel suo corpo una che m’apparteneva totalmente, e non un’estranea, alla quale non potevo dire in alcun modo com’era, confiante no abandono com que se entregava a mim, sem a mais remota suspeita de que não se desse realmente a mim, aquele corpo dela, e de que eu, apertando-o entre os braços, não apertasse com aquele corpo uma mulher que me pertencesse por inteiro, e sim uma estranha, a quem eu não podia dizer de modo algum como era.
Onde aparece
- Livro I, capítulo III: Vitangelo quer estar só uma hora, e mostra que estar só não é, como pensa o leitor, ficar em companhia de si mesmo.
- Livro I, capítulo IV: A solidão verdadeira é um lugar que não tem rastro nem voz para quem o visita.
- Livro II, capítulo I: A consciência não basta, porque há também a dos outros; se estivéssemos sós, não haveria consciência.
- Livro II, capítulo IX: Vitangelo põe na boca do leitor o desejo de não ter mais consciência de ser, como uma pedra ou uma planta.
- Livro V, capítulo III: Vitangelo fala com a cadela Bibi num terreno vazio porque não suporta mais ser olhado.
- Livro V, capítulo IV: A consciência são os outros em nós, e sem a vista deles os olhos não sabem o que veem.
- Livro V, capítulo VII: Dois olhos vazios perturbam mais do que qualquer palavra, e todos deveriam olhar assim, cheios do horror da solidão sem escapatória.
- Livro VI, capítulo II: A casa de Vitangelo se esvazia, e dizer "eu" já não tem a quem.
- Livro VII, capítulo VIII: Vitangelo e Anna Rosa veem juntos a solidão irremediável, quando ele explica que a vida que se move não consegue se ver.
- Livro VIII, capítulo IV: Nos campos do asilo, a cidade está longe, e Vitangelo vive inteiro em cada coisa fora.
Onde as leituras divergem
A solidão do romance se lê de duas maneiras, e a diferença é o fecho. Numa, é condição de todos: o horror da própria solidão sem escapatória, que Vitangelo imagina nos olhos de qualquer um que se olhe de verdade, e que a vida social serve para encobrir. Na outra, é a de Vitangelo apenas, a de quem perdeu o outro interior por ter feito um experimento que ninguém fez. O texto sustenta a primeira ao dizer que todos deveriam olhar sempre assim (capítulo VII do Livro V), e a segunda ao mostrar que os outros vivem protegidos pela ilusão que os sustenta (capítulo V do Livro V).
O desfecho favorece a primeira. Quando Vitangelo diz que não precisa pensar na morte nem rezar, e que os sinos falam por quem ainda tem essa necessidade, está dizendo que aquilo que os outros tentam consolar com a reza e o pensamento da morte ele deixou de sentir como falta. O livro não decide se isso é saúde ou dissolução, mas deixa claro que a solidão, uma vez nomeada, não se resolve com companhia: o que a faz passar, no capítulo IV do Livro VIII, é a perda do eu que a sentia.