A visão final é descrita sobretudo pelo que falta. No canto XXXIII, depois da oração de Bernardo e do consentimento dos olhos de Maria, Dante olha para a luz eterna e diz que o seu ver, dali em diante, foi maior do que o falar mostra, e que a memória cede a tanto excesso. O que resta é como a emoção que fica depois de um sonho.
No profundo da luz ele vê reunido num volume, por amor, o que pelo universo se desencaderna: substâncias, acidentes e seus modos, como que fundidos. Na substância clara da luz alta parecem-lhe três giros de três cores e de uma só medida, e o círculo do meio mostra a imagem humana. Dante, como o geômetra que quer medir o círculo, não acha o princípio de que carece.
Ele não resolve o enigma por conta própria: a mente é atingida por um fulgor em que o querer dela chega onde queria. O poema termina então sem nomear Deus e sem Maria. Falta o poder à alta fantasia, mas o desejo e a vontade de Dante já giram, como roda movida por igual, pelo amor que move o sol e as outras estrelas. É a mesma palavra, estrelas, com que terminam as outras duas cânticas.