A matéria muda. No Inferno e no Purgatório há corpo, sangue e peso, personagens que contam a própria história e castigos que se veem; no Paraíso há luz, música, dança e número, e quase não há enredo. Em vez de cenas, o que Dante encontra são lições: a ordem do universo, as manchas da Lua, o valor de um voto, a ressurreição dos corpos, a justiça que não se mede de longe.
Muda também o que se pergunta. O Inferno mostra o que cada pecado faz de uma alma, e o Purgatório, o que a montanha ensina a querer. O Paraíso pergunta o que um homem aguenta ver. Por isso o céu se modera para o corpo que sobe: em Saturno Beatriz não ri e os santos não cantam, porque o ouvir de Dante é mortal como a vista. Muda ainda o guia, porque Virgílio ficou no Purgatório e quem conduz é Beatriz, até o canto XXXI.
A dificuldade cresce ao contrário do esperado. É a cântica mais difícil e a menos lembrada, e é também a que faz da incapacidade de dizer a matéria do poema. Fica igual a forma, os tercetos, e fica igual o fim de cada livro: as três cânticas terminam na palavra estrelas.