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Perguntas · Paraíso

O Paraíso, de Dante, é difícil de ler?

É, e é a cântica mais difícil da Comédia, também a menos lembrada. Quase não há enredo, o corpo e o sangue do Inferno dão lugar a luz, música, dança e número, e quem entra esperando uma descrição do céu encontra aulas. A dificuldade vem menos de uma ideia escondida do que do pedido do poema: paciência com argumentos que Beatriz e os santos desdobram canto a canto.

O próprio Dante avisa, no canto II, que o mar adiante é fundo. Pede que quem segue numa barca pequena volte às praias que conhece, porque no mar alto pode se perder, e convida só os poucos que ergueram cedo o pescoço ao pão dos anjos. Além do aviso, pesam as referências: a cosmologia dos céus, a teologia escolástica, a política do século XIII e de 1300, os nomes de gente que o leitor de hoje não conhece. Uma edição comentada ajuda muito.

Quem nunca leu pode começar pelo primeiro grupo de cantos, a Lua, e depois seguir um percurso curto: a profecia do exílio, a escada de Saturno, o exame da fé e a visão final. Quem quer ritmo lê um canto por vez, perguntando em cada um quem fala e o que o peregrino consegue ver. E quem lê devagar descobre que o poema trata a dificuldade como assunto: a cada altura o poeta confessa que a língua não alcança, e essa confissão é parte da leitura.

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