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Personagem

Dmitri Prokófitch Razumíkhin

Quem é

Dmitri Prokófitch Razumíkhin, antigo colega de universidade de Rodion Românovitch Raskólnikov, ex-estudante como ele e pobre como ele: alto, mal barbeado, forçudo, capaz de beber a noite inteira ou de não beber nada, de passar um inverno sem aquecer o quarto e de achar graça nisso.

É parente de Porfiri Pietróvitch, e é por essa porta social que o inquérito entra na vida de Raskólnikov antes de entrar por via policial.

Cuida de Raskólnikov durante os quatro dias de febre, assume a mãe e a irmã dele no instante em que ele as abandona, reúne por conta própria as provas que atenuam a pena no julgamento, e casa com Dúnia no fecho do livro.

É o único personagem inteiramente são do romance, e essa sanidade não é traço de temperamento, é peça de arquitetura: ele é a variável de controle do experimento que o livro monta.

Trajetória

No capítulo IV da Primeira Parte ele não entra em cena, entra como ideia: Raskólnikov pensa em procurá-lo em busca de trabalho e de gente, e é nesse ponto que o narrador para a narrativa e o descreve, instalando de saída a comparação que o resto do livro vai cobrar:

Разумихин был еще тем замечателен, что никакие неудачи его никогда не смущали и никакие дурные обстоятельства, казалось, не могли придавить его. Он мог квартировать хоть на крыше, терпеть адский голод и необыкновенный холод. Был он очень беден и решительно сам, один, содержал себя, добывая кой-какими работами деньги., Razumíkhin tinha ainda de notável o fato de que nenhum fracasso jamais o abalava e nenhuma circunstância ruim, ao que parecia, conseguia derrubá-lo. Podia morar até num telhado, aguentar uma fome dos diabos e um frio fora do comum. Era muito pobre e se sustentava decididamente sozinho, por conta própria, arranjando dinheiro com uns trabalhos quaisquer.
Primeira Parte: O crime

No capítulo V da Primeira Parte a ideia de procurá-lo assusta Raskólnikov, que a adia mentalmente para depois daquilo.

No capítulo II da Segunda Parte ele recebe em casa o amigo doente, que diz ter vindo pedir ajuda, se desmente na mesma fala e sai sem aceitar a tradução e os três rublos que ele oferece.

No capítulo III da Segunda Parte ele se instala como enfermeiro na febre, alimenta o doente na colher, resgata a nota de dívida da senhoria e compra roupa nova com o dinheiro da mãe de Raskólnikov. No capítulo IV da Segunda Parte, defendendo o pintor Nikolai contra a evidência material, formula o princípio que Porfiri Pietróvitch vai executar depois com precisão profissional:

По одним психологическим только данным можно показать, как на истинный след попадать должно. «У нас есть, дескать, факты!» Да ведь факты не все; по крайней мере, половина дела в том, как с фактами обращаться умеешь!, só os dados psicológicos já bastam para mostrar como se deve chegar ao rastro verdadeiro. Nós temos fatos, dizem eles! Mas os fatos não são tudo; ao menos metade da questão está em saber lidar com os fatos!
Segunda Parte: O inquérito

Na Terceira Parte ele aparece em três registros no espaço de seis capítulos. Bêbado, na noite do reencontro, assume Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova e Avdótia Românovna Raskólnikova e solta a defesa da mentira que também o define, no capítulo I da Terceira Parte:

Вранье есть единственная человеческая привилегия перед всеми организмами. Соврешь — до правды дойдешь! Потому я и человек, что вру., Mentir é a única prerrogativa do ser humano sobre todos os organismos. Mentindo, a gente chega à verdade! É justamente por mentir que eu sou gente.
Terceira Parte: A teoria

Sóbrio, na manhã seguinte, envergonha-se de um gesto mínimo de vaidade e decide não se barbear para não parecer que se arrumou por causa dela, no capítulo II da Terceira Parte. E na casa de Porfiri, no capítulo V da Terceira Parte, contra a tese socialista do crime como protesto contra o meio:

среда заела, o meio o devorou.
Terceira Parte: A teoria

acusa a doutrina de suprimir a natureza viva em nome de um sistema fechado:

Живая душа жизни потребует, живая душа не послушается механики, живая душа подозрительна, живая душа ретроградна!, A alma viva vai pedir vida, a alma viva não vai se submeter à mecânica, a alma viva é desconfiada, a alma viva é retrógrada!
Terceira Parte: A teoria

Ainda no mesmo capítulo, e sem saber do crime, é ele quem nomeia a gravidade do artigo de Raskólnikov depois de todos terem discutido em volta dela:

все-таки кровь по совести разрешаешь, и, извини меня, с таким фанатизмом даже… В этом, стало быть, и главная мысль твоей статьи заключается., ainda assim você permite o sangue segundo a consciência, e, perdoe-me, até com um fanatismo desses... É nisso, então, que está a ideia principal do seu artigo.
Terceira Parte: A teoria

e é a ele que Porfiri concede o único ponto que concede sem ironia em toda a cena:

Совершенно справедливо, страшнее-с, Absolutamente certo, é mais terrível, sim senhor.
Terceira Parte: A teoria

Na volta, no capítulo VI da Terceira Parte, tenta desfazer as suspeitas de Raskólnikov, embora ele mesmo ache estranho o tom de Porfiri e de Zamiótov.

No capítulo III da Quarta Parte, passada a ruptura com Lújin, Razumíkhin expõe o plano de uma sociedade editorial com mil rublos do tio e outros mil tirados dos três mil de Dúnia, e oferece à mãe e à irmã um apartamento na mesma casa. Depois vem a cena do corredor: Raskólnikov rompe com a família, os dois se olham em silêncio ao lado de uma lâmpada e alguma coisa passa entre eles sem ser dita, e o pedido que Raskólnikov faz não é silêncio, é substituição:

Одним словом, с этого вечера Разумихин стал у них сыном и братом., Em suma, desde aquela noite Razumíkhin se tornou, junto delas, filho e irmão.
Quarta Parte: O cerco

Na Quinta Parte ele desaparece da cena principal, e a ausência é significativa: a parte inteira se passa entre Lújin, Sófia Semeónovna Marmieládova, Catierina Ivánovna Marmieládova e Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, e Razumíkhin não tem lugar nenhum numa sequência feita de armadilha, delírio e escuta pela parede. Fica presente só por menção, no capítulo V da Quinta Parte, onde Dúnia o cita e Raskólnikov o recomenda a ela como homem bom, trabalhador e honesto.

No capítulo I da Sexta Parte ele reaparece irritado, para saber de uma vez se Raskólnikov é louco, e traz notícia da mãe adoecida e da confissão do pintor. Ouve do amigo que as duas mulheres passam a ficar com ele:

Куда бы я ни отправился, что бы со мной ни случилось, - ты бы остался у них провидением. Я, так сказать, передаю их тебе, Разумихин., Aonde quer que eu vá, aconteça o que acontecer comigo, você ficaria com elas como uma providência. Eu as passo a você, por assim dizer, Razumíkhin.
Sexta Parte: A entrega

Lê o gesto como sinal de conspiração política e não de culpa, e é esse engano que o mantém do lado de fora do segredo; ao sair dele, Raskólnikov dá de cara com Porfiri à porta. No capítulo VI da Sexta Parte, Svidrigáilov, ao entregar o dinheiro a Sônia, sugere que depois o confie a Razumíkhin, o que mede o quanto ele já é, para todos, a autoridade prática da família.

No capítulo I do Epílogo ele faz sozinho o que nenhuma tese fez: desenterra as provas de que Raskólnikov sustentara um colega tuberculoso e salvara duas crianças de um incêndio, tira a mãe de Petersburgo, combina com Dúnia a história de uma missão particular e distante que poupa a mãe da verdade, volta às aulas para concluir o curso, e casa:

Два месяца спустя Дунечка вышла замуж за Разумихина. Свадьба была грустная и тихая. [...] Дуня верила слепо, что он выполнит все свои намерения, да и не могла не верить: в этом человеке виднелась железная воля, Dois meses depois Dúnietchka casou com Razumíkhin. O casamento foi triste e quieto. [...] Dúnia acreditava às cegas que ele cumpriria todos os seus propósitos, e nem podia deixar de acreditar: via-se naquele homem uma vontade de ferro.
Epílogo: A ressurreição

Temas que encarna

A função de Razumíkhin na arquitetura do romance é ser a variável de controle, e é por isso que Dostoiévski lhe dá exatamente os mesmos dados de partida do protagonista: a mesma pobreza, a mesma faculdade abandonada por falta de dinheiro, a mesma cidade, a mesma inteligência, e nenhuma das mesmas conclusões. Sem ele, a teoria do homem extraordinário poderia ser lida como consequência da miséria de Petersburgo, e é justamente essa leitura que o tribunal do capítulo I do Epílogo adota; com ele em cena desde a Primeira Parte, a miséria deixa de explicar o crime, porque a mesma miséria produziu, na mesma cidade, um homem capaz de morar até num telhado sem se abater.

O segundo serviço que ele presta ao livro é enunciar o método de Porfiri antes de Porfiri, e enunciá-lo em tom de discussão de mesa, defendendo um inocente. Isso desarma de antemão a leitura de que a psicologia é arma de polícia: quando o juiz de instrução a aplicar contra Raskólnikov, o leitor já a viu servir à absolvição, e é essa simetria que Porfiri vem admitir no capítulo II da Sexta Parte, ao dizer que a psicologia corta para os dois lados. O romance não põe o método na boca do profissional primeiro porque não quer que ele seja um método profissional.

O terceiro eixo é o mais duro, e o livro o executa sem comentar: Razumíkhin sustenta a família de Raskólnikov exatamente no ponto em que Raskólnikov a abandona, e sustenta com o que a teoria desprezava, trabalho de tradução, dinheiro emprestado, presença física, paciência com uma velha que enlouquece devagar. O crime tinha como motivo íntimo salvar Dúnia do casamento com Lújin, e quem a salva é o colega que nunca precisou de uma teoria para isso, casando com ela num casamento triste e quieto, anos de plano econômico pela frente e nenhuma frase memorável. A refutação da doutrina não é o presídio siberiano, é essa cena sem drama.

A sanidade dele tem preço narrativo, e Dostoiévski o paga de propósito: Razumíkhin não tem arco. Ele termina o livro sendo o que já era na página em que foi descrito, e é a única figura do romance de quem isso pode ser dito. Num livro cuja matéria é a consciência que se transforma sob pressão, o personagem que não se transforma existe para dar medida aos outros, e é por isso que ele carrega tanto argumento sem nunca ser o assunto.

Leituras divergentes

O capítulo IV da Segunda Parte deixa duas leituras abertas para a defesa que ele faz do pintor: ironia dramática do narrador, que o faz descrever sem saber o método que ameaça o homem calado no sofá, ou prefiguração de Porfiri, que ele já respeita. A pergunta que fica, e não foi resolvida em nenhum capítulo seguinte, é por que o mesmo tipo de argumento não protege Raskólnikov quando o investigado é ele: uma resposta faz do método um instrumento válido que Raskólnikov não pode usar porque é culpado; a outra faz dele um instrumento indiferente à culpa, que Zóssimov já desconfia na hora ao achar a explicação sutil demais, encaixada bem demais para ser verdade.

O capítulo II da Terceira Parte o mostra como contraponto involuntário, alguém que se pune por um gesto mínimo de vaidade horas antes de o outro defender o direito de passar por cima de vidas inteiras. Essa leitura tem contra si o fato de que a objeção mais grave de toda a cena do capítulo V é formulada por ele e não por Porfiri, o que dificilmente é involuntário; e tem a favor que ele nunca percebe o que disse, e no capítulo VI procura desfazer as suspeitas do amigo em vez de lê-las nas próprias palavras.

Razumíkhin fica fora de algumas chaves de leitura do romance, e isso é informativo. Joseph Frank organiza o livro pela arquitetura de motivos de um homem que não sabe por que matou, e nessa chave Razumíkhin não tem função, porque ele não tem motivo obscuro nenhum.

Relações

  • Rodion Românovitch Raskólnikov: colega de faculdade e enfermeiro na febre, e o termo de comparação contra o qual o protagonista é medido, porque parte dos mesmos dados e chega a outro lugar.
  • Porfiri Pietróvitch: parente, porta de entrada social do inquérito, e o primeiro a formular o método que o outro pratica com prova nenhuma.
  • Avdótia Românovna Raskólnikova, Dúnia, irmã de Raskólnikov: de quem se envergonha de gostar no capítulo II da Terceira Parte e com quem casa no fecho do livro, fechando por via doméstica o que o crime pretendia resolver por via de machado.
  • Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova, a mãe: quem o trata como providência da família antes mesmo de o filho a abandonar, e a quem ele leva as notícias que a exaltam nos últimos meses de juízo perturbado.
  • Zóssimov, o médico: trazido por ele para tratar do amigo, e o primeiro a duvidar em voz alta do argumento psicológico que ele acabara de construir.
  • Sófia Semeónovna Marmieládova: a correspondente da Sibéria, que lhe escreve todo mês, endereçando as cartas a ele e por quem passa toda a informação sobre o presídio siberiano.