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Personagem

Avdótia Românovna Raskólnikova

Quem é

Avdótia Românovna Raskólnikova, chamada Dúnia quase sempre e Dúnietchka pela mãe, é a irmã de Rodion Românovitch Raskólnikov. É indispensável para compreender a obra, porque é o casamento dela com Piotr Pietróvitch Lújin que põe o crime em movimento, e reaparece fora do próprio arco como o contraponto exato de Nastácia Filíppovna Barachkova. Dúnia não é a irmã que sofre em silêncio enquanto o irmão pensa: o eixo dela são decisões, a de aceitar o noivado, a de rompê-lo diante de testemunhas (capítulo II da Quarta Parte) e a de não atirar uma terceira vez em Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov (capítulo V da Sexta Parte).

Trajetória

No capítulo III da Primeira Parte ela só existe pela pena da mãe. A carta conta o noivado com Lújin, aceito depois de uma noite em claro e de oração diante do ícone, e conta também o que veio antes dele: a honra de Dúnia destruída quando Marfa Pietróvna a surpreende no jardim com Svidrigáilov, entende tudo ao contrário, bate nela e a manda para a casa da mãe numa carroça de camponês, e restaurada só quando a própria Marfa Pietróvna lê em voz alta, de casa em casa, a carta em que Dúnia o repelira. Não bastou a verdade existir: foi preciso encená-la.

No capítulo IV da Primeira Parte ela é o motor do crime, sem saber: é ali que Raskólnikov transforma a teoria em urgência, porque, se a irmã vai se vender por ele, a inação vira cumplicidade. O romance faz o protagonista agir por um cálculo que ela nunca lhe pediu para fazer.

No capítulo I da Terceira Parte, quando o irmão lhe ordena que rompa, ela pergunta por qual direito, a mesma pergunta que ele fez a si mesmo ao ler a carta. Ela sabe exatamente o que está fazendo, e recusa o vocabulário do sacrifício. É a primeira das decisões públicas, e a explicação vem de viva voz no capítulo III da Terceira Parte, diante da mãe e dos amigos dele:

я не выйду за него, не быв убеждена, что он ценит меня и дорожит мной [...] А такой брак не есть подлость, как ты говоришь!, não vou me casar com ele sem ter certeza de que ele me valoriza e me preza [...] E um casamento desses não é canalhice, como você diz!
Terceira Parte: A teoria

No capítulo II da Quarta Parte vem a ruptura com Lújin, diante de testemunhas. Quando ele se levanta para sair, é ela quem o detém e põe a escolha em termos de um ou outro, sem hesitar e sem fazer a cena em particular:

Поймите, что [...] я должна же выбирать между вами: или вы, или он. [...] муж ли вы мне?, Entenda que [...] eu tenho de escolher entre os dois: ou o senhor, ou ele. [...] o senhor é marido para mim?
Quarta Parte: O cerco

E o fecho, quando ele avisa que, se sair, não volta mais, é dela e não do irmão:

Что за наглость! [...] да я и не хочу, чтобы вы возвращались назад!, Que insolência! [...] pois eu nem quero que o senhor volte!
Quarta Parte: O cerco

No capítulo V da Sexta Parte está a cena mais importante dela, e a mais subaproveitada nas leituras correntes. Encurralada por Svidrigáilov num apartamento de salas vazias com a porta trancada, ela saca o revólver: a primeira bala lhe roça a têmpora, a segunda falha, e então ela joga a arma fora. Ele pergunta se ela não pode amá-lo, e a resposta encerra o arco dos dois:

Так не любишь? — тихо спросил он. Дуня отрицательно повела головой. — И… не можешь?.. Никогда? — с отчаянием прошептал он. — Никогда! — прошептала Дуня., Não ama, então?, perguntou ele baixinho. Dúnia negou com a cabeça. E... não pode?... Nunca?, sussurrou ele, desesperado. Nunca!, sussurrou Dúnia.
Sexta Parte: A entrega

O suicídio dele vem no amanhecer seguinte, no capítulo VI da Sexta Parte.

No capítulo I do Epílogo, o narrador dá ao casamento dela com Dmitri Prokófitch Razumíkhin o mesmo tratamento sóbrio que dá a tudo:

Два месяца спустя Дунечка вышла замуж за Разумихина. Свадьба была грустная и тихая. [...] Дуня верила слепо, что он выполнит все свои намерения, да и не могла не верить: в этом человеке виднелась железная воля, Dois meses depois Dúnietchka casou com Razumíkhin. O casamento foi triste e quieto. [...] Dúnia acreditava às cegas que ele cumpriria todos os seus propósitos, e nem podia deixar de acreditar: via-se naquele homem uma vontade de ferro.
Epílogo: A ressurreição

Temas que encarna

Dúnia decide, e decide quase sempre em público. A recusa de chamar o noivado de venda é dita diante da família (capítulo III da Terceira Parte), e a ruptura com Lújin, diante de todos (capítulo II da Quarta Parte).

A frase do capítulo III da Terceira Parte é uma condição, não uma negação: ela não diz que o casamento não é uma venda, diz que não se casa sem ser apreciada. É a formulação de quem já aceitou o termo da troca e está negociando a dignidade dentro dele, e é por isso que Raskólnikov a lê como venda mesmo depois de ouvir isto.

A cena do revólver (capítulo V da Sexta Parte) é a do romance em que uma mulher lesada tem poder físico na mão e, depois de dois tiros, escolhe não usá-lo mais, e é a exceção ao padrão da decisão pública: aqui não há testemunha alguma. Svidrigáilov, que passou o livro inteiro sem encontrar limite externo, recua diante do único limite que reconhece.

É pela calúnia contada na carta do capítulo III da Primeira Parte que as decisões dela se explicam como padrão e não como temperamento. Dúnia aprendeu, antes do romance começar, que o julgamento alheio não se desfaz em particular, e decide, quase sempre, diante de testemunhas. O mesmo mecanismo aparece em Sófia Semeónovna Marmieládova, quando ela manda Raskólnikov ajoelhar-se e beijar a terra numa encruzilhada, no capítulo IV da Quinta Parte, gesto que a leitura corrente sempre tratou como religioso. Em Dúnia ele aparece sem religião nenhuma, o que sugere que o romance trata a confissão pública como forma de reparação, e não como sacramento. Se Dúnia decide diante de testemunhas por causa da calúnia que a marcou, fica a pergunta sobre o que muda na leitura do irmão, que beija a terra em praça pública (capítulo VIII da Sexta Parte) antes de confessar na delegacia.

O casamento com Razumíkhin, no capítulo I do Epílogo, não é prêmio. Fecha a simetria que o livro monta desde a Primeira Parte: ela recusou o homem que a comprava e ficou com o que tem a mesma pobreza do irmão e não tirou dela a mesma conclusão. O narrador, porém, descreve a festa como triste e quieta, e isso desautoriza a leitura de recompensa.

Leituras divergentes

A recusa dela a atirar de novo, no capítulo V da Sexta Parte, admite duas leituras, e a cena não escolhe entre elas: misericórdia de quem tem o poder na mão e o larga, ou cálculo de quem sabe que a segunda bala não resolveria. A pergunta que fica é se o romance permite ler o gesto como misericórdia, ou só como cálculo.

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