Quem é
Piotr Pietróvitch Lújin, conselheiro da corte e advogado em ascensão, é o noivo de Avdótia Românovna Raskólnikova. A importância dramática dele é média, e o peso está na função: é ele quem enuncia a teoria de Rodion Românovitch Raskólnikov sem o disfarce histórico, no capítulo V da Segunda Parte, e é nesse capítulo que se arma o argumento do espelho entre os dois. Reaparece fora do próprio arco toda vez que o assunto é egoísmo racional e utilitarismo.
Trajetória
Ele entra no livro pela carta da mãe, no capítulo III da Primeira Parte, e a frase que ela lhe atribui já diz o que ele procura numa esposa:
муж ничем не должен быть обязан своей жене, а гораздо лучше, если жена считает мужа за своего благодетеля, o marido não deve nada à esposa, e é muito melhor que a esposa veja no marido o seu benfeitor.
Chega em pessoa no capítulo V da Segunda Parte, empertigado, com as luvas lilás na mão, e expõe, em conversa de recém-chegado, o que julga ser ciência econômica moderna, com a serenidade de quem repete lugar-comum respeitável:
Наука же говорит: возлюби, прежде всех, одного себя, ибо все на свете на личном интересе основано, a ciência, por sua vez, diz: ama, antes de todos, só a ti mesmo, pois tudo no mundo se funda no interesse pessoal.
A resposta do protagonista, ainda no mesmo capítulo, não discute a premissa, faz o que ele sabe fazer melhor: leva a consequência até onde ela vai.
А доведите до последствий, что вы давеча проповедовали, и выйдет, что людей можно резать…, pois leve às últimas consequências o que o senhor pregou há pouco, e vai resultar que se pode passar gente na faca...
No capítulo II da Terceira Parte, um bilhete dele exige que o irmão não esteja presente no encontro com a noiva e a mãe.
No capítulo II da Quarta Parte, a ruptura de Dúnia acontece diante de todos, no instante em que fica claro que ela não vai pagar a dívida que ele esperava dela.
No capítulo III da Quarta Parte, quando o noivado desmorona, o narrador diz sem rodeios o que ele procurava:
девице благонравной и бедной (непременно бедной), очень молоденькой, очень хорошенькой, благородной и образованной, очень запуганной, чрезвычайно много испытавшей несчастий и вполне перед ним приникшей, такой, которая бы всю жизнь считала его спасением своим, благоговела перед ним, подчинялась, удивлялась ему, и только ему одному., uma moça de bons costumes e pobre (pobre sem falta), muito novinha, muito bonitinha, nobre e instruída, muito assustada, que tivesse passado por desgraças demais e se curvasse inteira diante dele, uma que pela vida toda o tivesse como sua salvação, o venerasse, lhe obedecesse, se maravilhasse com ele, e só com ele.
Humilhado, ele monta a acusação de furto contra Sófia Semeónovna Marmieládova por ocasião das exéquias de Marmieládov. No capítulo I da Quinta Parte ele a chama ao quarto e lhe dá dez rublos em segredo, com a testemunha de Liebeziátnikov na sala e o dinheiro à vista sobre a mesa.
No capítulo III da Quinta Parte ele a acusa diante da casa inteira, depois de a nota de cem ter sido enfiada no bolso dela, para desmoralizar Raskólnikov por tabela. A ameaça que ele faz antes já anuncia o método:
дело тем только и кончится. В противном же случае принужден буду обратиться к мерам весьма серьезным, тогда… пеняйте уже на себя-с!, o caso acaba só com isso. Do contrário, serei obrigado a recorrer a medidas muito sérias, e então… só poderá culpar a si mesma!
A armação desmorona em público, no mesmo capítulo, e ele sai da casa meia hora depois, enquanto o custo cai em Sônia e em Catierina Ivánovna Marmieládova, expulsa da casa por Amália naquela mesma tarde.
Temas que encarna
A doutrina do capítulo V da Segunda Parte é o egoísmo racional na versão de salão: se cada um cuidar bem do próprio interesse, o conjunto prospera, e a caridade individual só atrapalha. O romance põe essa fala antes de o leitor conhecer o artigo de Raskólnikov, no capítulo V da Terceira Parte, e é essa ordem que arma a resposta do protagonista.
Lújin é o espelho barato. As duas doutrinas partem do mesmo lugar, a de que o benefício geral justifica o custo particular, e a diferença entre elas não é de princípio, é de coragem e de escala. Ele nunca mataria ninguém, e é justamente por isso que serve: mostra que a teoria do extraordinário não precisa de grandeza para funcionar, basta interesse próprio bem articulado. Quando Raskólnikov o desmonta, está desmontando a si mesmo em voz alta, e não percebe.
O que ele procura não é esposa, é gratidão perpétua. Quer uma mulher pobre o bastante para lhe dever tudo, como a frase da carta já anuncia (capítulo III da Primeira Parte) e o narrador confirma quando o noivado desmorona (capítulo III da Quarta Parte).
A armação contra Sônia (capítulo III da Quinta Parte) é uma derrota completa que não lhe custa castigo nenhum. Vale marcar a simetria: ele é desmascarado diante de testemunhas, exatamente o terreno em que Dúnia decide e em que Raskólnikov vai acabar confessando. O romance parece tratar a praça como o lugar onde as coisas se resolvem, para o bem e para o mal.
Leituras divergentes
Lújin admite duas leituras. Na corrente, é o vilão, e fica a pergunta sobre por que o romance é duro com ele e trágico com Raskólnikov, se a doutrina de um é a do outro sem a coragem. Na outra, ele não é vilão, é o destino provável de qualquer pessoa que adote a teoria sem ter a doença que o protagonista tem, e então a pergunta passa a ser o que muda na leitura quando a diferença entre os dois é a doença, e não a doutrina.
Relações
- Rodion Românovitch Raskólnikov: o espelho sem grandeza, e o único personagem que ouve a própria teoria de fora e não se reconhece nela.
- Avdótia Românovna Raskólnikova: a noiva que rompe, e o motivo da vingança.
- Sófia Semeónovna Marmieládova: a vítima da armação, e a testemunha que ele escolhe mal.
- Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov: os dois são degraus da mesma escada, Lújin com a teoria sem grandeza, Raskólnikov com a teoria e a grandeza, Svidrigáilov sem teoria nenhuma, só apetite.