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Personagem

Catierina Ivánovna Marmieládova

Quem é

Catierina Ivánovna Marmieládova é a viúva de oficial que casou com Semion Zakhárovitch Marmieládov chorando e torcendo as mãos, porque nenhum parente a acolhia, e vive com os três filhos pequenos num cômodo de passagem de uma pensão barulhenta, tísica e altiva, e é a madrasta de Sófia Semeónovna Marmieládova.

O que ela quer é ser reconhecida pelo que diz ter sido, filha criada em casa de coronel, e garantir aos filhos o lugar que a miséria lhes tirou: abrir um pensionato para moças nobres na cidade natal é o plano que ela repete a quem ouvir.

O que ela teme é a ofensa, que ela sente como mortal quando cai sobre os filhos, o marido ou Sônia, e não a pobreza em si.

O que ela sabe, e diz sem pensar quando a cena aperta, é o que Sônia fez pela casa; o que a engana é a plateia que ela espera, os convidados que não vêm, o general que não a atende, os curiosos da rua que não reconhecem nos filhos dela os órfãos de um nobre.

Cai na rua, de sangue no peito, e morre no quarto de Sônia, depois de expulsa da casa onde enterrou o marido.

Trajetória

No capítulo II da Primeira Parte ela ainda é só o relato do marido, a viúva de oficial com três filhos que casou com ele sem opção, e depois a mulher que o arrasta pelos cabelos no quarto de passagem enquanto as crianças tremem num canto e ela manda embora o desconhecido, achando que ele bebeu com o marido.

No capítulo VII da Segunda Parte ela andava de um lado a outro da sala contando à filha Pólietchka os dias ricos da infância e, ao ver o marido ensanguentado no sofá, corre a ele, desfaz a roupa e age sem se perder. Expulsa os inquilinos aos gritos, briga com a senhoria Amália Ludvigovna, que quer mandar o ferido para o hospital, manda o marido calar quando ele tenta lhe pedir perdão, sabendo o que ele quer dizer, e ao ver o morto pergunta com que vai enterrá-lo e com que alimentará as crianças no dia seguinte.

No capítulo III da Terceira Parte Raskólnikov conta à mãe e à irmã que entregou a ela todo o dinheiro que recebera, para o enterro; no capítulo IV da Terceira Parte ela manda Sônia convidá-lo para o funeral e para a refeição em memória. No capítulo IV da Quarta Parte é Sônia quem a defende a Raskólnikov, com ardor: é como criança, perdeu o juízo de dor, é justa, e conta o dia da madrasta, que lavou, limpou e arrastou a tina sozinha, e a vez em que ela própria, Sônia, a feriu ao lhe negar uns colarinhos.

No capítulo I da Quinta Parte Lújin provoca Liebeziátnikov com a surra que ele deu nela. No capítulo II da Quinta Parte ela gasta cerca de dez dos vinte e tantos rublos de Raskólnikov em exéquias que ninguém lhe pediu, e o narrador oferece várias razões possíveis:

Эти пароксизмы гордости и тщеславия посещают иногда самых бедных и забитых людей и, по временам, обращаются у них в раздражительную, неудержимую потребность, Esses paroxismos de orgulho e de vaidade visitam às vezes as pessoas mais pobres e mais acuadas e, de quando em quando, viram nelas uma necessidade irritadiça, irreprimível.
Quinta Parte: A confissão

Dos convidados que ela queria impressionar ninguém vem, nem Lújin, de quem fizera elogios enormes na véspera; sentam-se bêbados, funcionários miseráveis e um polonês da pensão e dois outros que ninguém conhecia, e ela decide recebê-los com altivez. O narrador marca o que a mantém de pé:

ее можно было совсем убить обстоятельствами, но забить ее нравственно, то есть запугать и подчинить себе ее волю, нельзя было, dava para acabar com ela de vez com as circunstâncias, mas abatê-la moralmente, isto é, intimidá-la e submeter a sua vontade, isso não dava.
Quinta Parte: A confissão

Raskólnikov chega quando voltam do cemitério e é acolhido como o único convidado instruído; ela lhe conta do pensionato, exibe o certificado de louvor do marido e promete a Sônia um lugar de ajudante. Quando Sônia transmite as desculpas de Lújin, enfeitadas para acalmá-la, cala o que sabe, porque a ofensa feita a ela pesaria em Catierina mais que uma ofensa pessoal:

а обида ей, Соне, значила для Катерины Ивановны более, чем обида ей лично, ее детям, ее папеньке, одним словом, была обидой смертельною, e a ofensa feita a ela, a Sônia, pesava para Catierina Ivánovna mais do que uma ofensa pessoal, aos filhos, ao paizinho, numa palavra, era uma ofensa mortal.
Quinta Parte: A confissão

Uma observação de Amália vira troca de insultos, depois disputa de genealogias, o pai coronel contra o pai burgomestre de Berlim, e termina com Catierina atirando-se à senhoria para arrancar-lhe a touca. No capítulo III da Quinta Parte corre a Lújin pedindo proteção contra Amália, e ele nega ter conhecido o pai dela. Ao entender que ele acusa Sônia de furto, atira-lhe na cara os dez rublos que ele recusara, exige que revistem a enteada e vira ela mesma os bolsos de Sônia, de onde cai a nota de cem. Mesmo assim, defende a enteada contra a evidência que acaba de ver:

Глупые вы, глупые [...] да вы еще не знаете, не знаете, какое это сердце, какая это девушка! Она возьмет, она! Да она свое последнее платье скинет, продаст, босая пойдет, а вам отдаст, коль вам надо будет, вот она какая! Она и желтый-то билет получила, потому что мои же дети с голоду пропадали, себя за нас продала!.., Tolos que vocês são, tolos [...] vocês ainda não sabem, não sabem que coração é esse, que moça é essa! Ela ia roubar, ela! Ela tira o último vestido, vende, vai descalça e dá tudo a vocês, se precisarem, é assim que ela é! Até o bilhete amarelo ela recebeu porque meus filhos estavam morrendo de fome, vendeu-se por nós!..
Quinta Parte: A confissão

Desmascarado Lújin, Amália a culpa pelo copo que um embriagado atirou nele e a expulsa; Catierina, que no mesmo dia enterrou o marido e viu a enteada acusada, sai à rua de xale verde em busca de justiça.

No capítulo V da Quinta Parte ela já enlouqueceu. Tentou em vão um general em nome do marido, diz ter-lhe atirado um tinteiro, e agora leva os filhos fantasiados à beira do canal para ensiná-los a cantar e dançar diante de curiosos, convencida de que todos reconhecerão neles os órfãos de um nobre; recusa os apelos de Sônia e de Raskólnikov. Um funcionário condecorado lhe dá três rublos, um guarda a manda circular, os meninos assustados fogem, e ela corre atrás, tropeça e cai: o sangue que cobre o chão vem do peito. Levada ao quarto de Sônia, entre delírio e lucidez, recusa o padre que lhe sugerem:

На мне нет грехов!.. Бог и без того должен простить… Сам знает, как я страдала!.. А не простит, так и не надо!.., Não tenho pecado nenhum!.. Deus, de todo jeito, tem de perdoar… Ele mesmo sabe como eu sofri!.. E se não perdoar, não precisa!..
Quinta Parte: A confissão

O último grito, em que fala de si como do cavalo exausto, fecha a cena:

Довольно!.. Пора!.. Прощай, горемыка!.. Уездили клячу!.. Надорвала-а-ась!, Chega!.. Está na hora!.. Adeus, coitada!.. Esgotaram a velha égua!.. Rebentou-se!
Quinta Parte: A confissão

Ainda no mesmo capítulo, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov diz a Raskólnikov que pagará o enterro e colocará os três filhos em instituições. No capítulo I da Sexta Parte ele cuida do enterro e os órfãos já estão colocados, e a presença dela no livro se encerra aí.

Temas que encarna

Catierina é a demonstração, em carne, do que o narrador diz ao explicar o gasto das exéquias: o orgulho não é privilégio de quem pode pagá-lo, visita os mais pobres e acuados e vira neles uma necessidade irreprimível. Por isso o tema Orgulho não é reservado ao protagonista: o de Raskólnikov se apoia numa teoria, o dela numa origem, e os dois buscam uma plateia, ele a praça, ela a beira do canal.

O segundo serviço dela é medir o dinheiro que Raskólnikov dá por impulso e do qual se arrepende na escada. Esse dinheiro paga o enterro, mas paga também a recepção em que ela precisa provar a dignidade da família, e o dia termina na expulsão. O livro não censura o gesto dele, mostra que o dom sem conta não escolhe o destino que o doador imagina.

A cena da morte repete a imagem de o sonho da égua: a mulher que passou a vida a lutar pela posição termina chamando a si mesma de animal de carga esgotado. O texto sustenta duas leituras, e nenhuma é cômoda: dignidade que se recusa a desaparecer até o fim, ou delírio que já tomou o juízo dela. O que inclina para a primeira é que, no momento em que a nota cai do bolso de Sônia, é Catierina quem diz diante da casa inteira a verdade sobre o bilhete amarelo, ela que vive de fingir nobreza.

Relações