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Personagem

Lisavieta Ivánovna

Quem é

Lisavieta Ivánovna é a meia-irmã mais nova da penhorista Aliena Ivánovna, e a segunda vítima do machado. Quase não fala e morre no capítulo VII da Primeira Parte, e mesmo assim pesa no livro inteiro, por um motivo que a leitura corrente costuma perder: é a morte dela que desmonta a teoria, não a da penhorista. E reaparece fora do próprio arco, porque é dela a cruz de cobre que Sófia Semeónovna Marmieládova guarda para si quando põe no peito de Rodion Românovitch Raskólnikov a de cipreste, antes de ele se entregar, e foi ela quem levou a Sônia o Evangelho de onde sai a leitura da ressurreição de Lázaro.

Trajetória

No capítulo VI da Primeira Parte ela chega ao leitor pela descrição do estudante da taberna: pobre, explorada pela própria irmã, mansa, sempre grávida, e útil a quem a cercava.

No capítulo VII da Primeira Parte ela entra no apartamento quando a irmã já está morta. O gesto dela ao ser atingida é o detalhe que o livro escolhe preservar, e ele não é de defesa nem de fuga:

Она только чуть-чуть приподняла свою свободную левую руку, далеко не до лица, и медленно протянула ее к нему вперед, как бы отстраняя его., Ela apenas ergueu um pouquinho o braço esquerdo, que estava desocupado, longe de chegar ao rosto, e o estendeu devagar na direção dele, como que o afastando.
Primeira Parte: O crime

Morta, ela volta ao livro pelo elo com Sônia, que o romance não explica de saída. As duas eram amigas e trocaram cruzes, e foi Lisavieta quem levou a Sônia, a pedido dela, o exemplar do Evangelho de onde sai a leitura da ressurreição de Lázaro, no capítulo IV da Quarta Parte. É também o capítulo que Sônia lera a Lisavieta que Raskólnikov lhe pede para ler.

Na confissão, no capítulo IV da Quinta Parte, o rosto de Sônia lhe devolve o de Lisavieta, a mão estendida e o susto de criança, e quando ele enfim consegue falar do crime, fala de si como de outro:

Лизавету эту… убить не хотел… Он ее… убил нечаянно… Он старуху убить хотел… когда она была одна… и пришел… А тут вошла Лизавета… Он тут… и ее убил, Essa Lisavieta… ele não queria matar… Ele a… matou sem querer… Queria matar a velha… quando ela estava sozinha… e chegou… E aí entrou Lisavieta… Aí ele… matou ela também.
Quinta Parte: A confissão

No mesmo capítulo Sônia lhe oferece a cruz de cipreste, a dos simples, e ele a recusa, dizendo que não era agora. No capítulo VIII da Sexta Parte, na hora da entrega, Sônia cumpre o que ficara combinado, e é aí que a cruz de Lisavieta volta ao livro:

Sônia põe no peito de Raskólnikov só a cruz de cipreste, a dos simples, e fica com a de cobre, que trocou com Lisavieta Ivánovna. Na Quinta Parte ele recusara a de cipreste, dizendo que seria melhor depois, e ela combinara dá-la quando ele fosse ao sofrimento, de modo que a cena cumpre o combinado; a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanhará.
Sexta Parte: A entrega

Temas que encarna

Ela é a prova de que o cálculo não fecha. O argumento de Raskólnikov depende de a vítima ser um piolho, alguém cuja morte só produz benefício, e Lisavieta, tal como o capítulo VI da Primeira Parte a descreve, é o contrário exato disso em todos os itens. Ela não estava na conta.

O gesto do capítulo VII da Primeira Parte é o instante em que a aritmética moral quebra dentro da própria cena, e não depois, na consciência do assassino. Uma teoria que precisa de uma vítima descartável produz, no mesmo minuto, uma vítima que nenhuma versão da teoria consegue descartar. O capítulo já deixa a pergunta.

O romance liga as duas vítimas do protagonista sem anunciar: o livro pelo qual ele será chamado de volta, lido no capítulo IV da Quarta Parte, veio das mãos da mulher que ele matou por acaso.

A troca das cruzes no capítulo VIII da Sexta Parte não é ironia de enredo, é a estrutura do castigo: a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanha, e o assassino leva a cruz da própria acompanhante. Quem lê a cena das cruzes sem saber disso perde metade do peso dela. Fica a pergunta sobre por que Dostoiévski deixa a cruz da vítima acidental com a mulher que acompanha o assassino, e dá a ele a de cipreste, em vez de entregar-lhe a cruz da vítima.

Relações