Quem é
Rodion Românovitch Raskólnikov, Ródia para a mãe e a irmã, é o protagonista: ex-estudante de direito em Petersburgo, pobre a ponto de ter abandonado as aulas e de dever à senhoria o cubículo onde vive (capítulo I da Primeira Parte), e autor de um artigo, escrito meio ano antes e publicado sem que ele soubesse, que divide a humanidade em ordinários e extraordinários (capítulo V da Terceira Parte). Ele mata a usurária Aliena Ivánovna e, por acidente, a irmã dela Lisavieta (capítulo VII da Primeira Parte), não para roubar, mas para descobrir de que lado da própria divisão ele está (capítulo IV da Quinta Parte). O romance inteiro cabe na distância entre a teoria que ele escreveu e o homem que a executou.
Trajetória
No capítulo I da Primeira Parte ele já chega com a "coisa" ruminada na cabeça há um mês, e o que os capítulos seguintes mostram não é uma decisão, é uma cadeia de empurrões, a começar pelo axioma que ele repete consigo mesmo, tirado da vergonha de ter fugido da senhoria:
все в руках человека, и все-то он мимо носу проносит, единственно от одной трусости… это уж аксиома…, tudo está nas mãos do homem, e ele deixa tudo passar rente ao nariz, unicamente por covardia... isso já é um axioma.
No capítulo V da Primeira Parte ele jura, chorando pela égua do sonho, que não aguentaria, e na volta ouve por acaso, na Siénnaia, o horário em que Lisavieta deixará a velha sozinha:
Он вошел к себе, как приговоренный к смерти. Ни о чем он не рассуждал и совершенно не мог рассуждать; но всем существом своим вдруг почувствовал, что нет у него более ни свободы рассудка, ни воли и что все вдруг решено окончательно., Entrou em casa como um condenado à morte. Não raciocinava sobre nada e era incapaz de raciocinar; mas com todo o seu ser sentiu de repente que já não tinha liberdade de juízo nem vontade, e que tudo estava de repente decidido em definitivo.
No capítulo VI da Primeira Parte o narrador conta a aritmética moral que ele ouvira seis semanas antes de um estranho num botequim e nunca reivindica como sua:
Убей ее и возьми ее деньги, с тем чтобы с их помощию посвятить потом себя на служение всему человечеству и общему делу: [...] Одна смерть и сто жизней взамен — да ведь тут арифметика!, Mate-a e fique com o dinheiro dela, para depois, com a ajuda dele, dedicar-se ao serviço de toda a humanidade e da causa comum: [...] Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!
O mesmo capítulo fecha o preparo com a imagem que resume o estado dele:
Точно он попал клочком одежды в колесо машины, и его начало в нее втягивать., Era como se tivesse prendido um pedaço da roupa na roda de uma máquina, e ela começasse a puxá-lo para dentro.
No capítulo VII da Primeira Parte, no dia seguinte ao do sonho, o golpe cai quase mecanicamente:
Он вынул топор совсем, взмахнул его обеими руками, едва себя чувствуя, и почти без усилия, почти машинально, опустил на голову обухом, Tirou o machado por inteiro, ergueu-o com as duas mãos, mal sentindo a si mesmo, e, quase sem esforço, quase mecanicamente, baixou-o sobre a cabeça, com o lado cego.
No capítulo I da Segunda Parte a ordem se inverte e o corpo passa a entregar o que a mente ainda defende: ele examina a roupa em busca de sangue antes de examinar a consciência, e o que sente primeiro, na delegacia, não é culpa, é estranhamento em relação aos outros:
Мрачное ощущение мучительного, бесконечного уединения и отчуждения вдруг сознательно сказались душе его, uma sensação sombria de solidão atormentadora e sem fim, de estranhamento, revelou-se de repente, e conscientemente, à sua alma.
No capítulo II da Segunda Parte esconde o roubo sob uma pedra sem ter olhado o que havia na bolsa:
Если действительно все это дело сделано было сознательно, а не по-дурацки, если у тебя действительно была определенная и твердая цель, то каким же образом ты до сих пор даже и не заглянул в кошелек и не знаешь, что тебе досталось, из-за чего все муки принял и на такое подлое, гадкое, низкое дело сознательно шел?, se tudo isso foi feito mesmo conscientemente, e não como uma estupidez, se você teve de fato um objetivo definido e firme, então como é que até agora nem chegou a olhar dentro da bolsa e não sabe o que lhe coube, por causa de que sofreu todos os tormentos e foi, conscientemente, a um ato tão vil, repugnante e baixo?
Na febre do capítulo III da Segunda Parte ele delira em voz alta, entre brincos, correntes, a meia e a franja da calça, e no capítulo VI da Segunda Parte provoca Zamiótov com a pergunta que quase o entrega:
А что, если это я старуху и Лизавету убил?, e se fui eu que matei a velha e Lisavieta?
O único alívio da parte vem de um gesto que a teoria dele não previa, dar o dinheiro que tinha à família de um desconhecido, no capítulo VII da Segunda Parte:
Есть жизнь! Разве я сейчас не жил? Не умерла еще моя жизнь вместе с старою старухой!, há vida! Por acaso não vivi agora mesmo? Ainda não morreu a minha vida junto com a velha anciã!
É no capítulo V da Terceira Parte que a doutrina enfim se enuncia em público, na casa de Porfiri Pietróvitch, e ganha a formulação mais completa do livro: primeiro a correção que ele faz ao resumo de Porfiri, depois o núcleo da divisão entre os dois grupos.
Я просто-запросто намекнул, что «необыкновенный» человек имеет право… то есть не официальное право, а сам имеет право разрешить своей совести перешагнуть… через иные препятствия, и единственно в том только случае, если исполнение его идеи (иногда спасительной, может быть, для всего человечества) того потребует., Eu simplesmente insinuei que o homem extraordinário tem o direito... isto é, não o direito oficial, mas ele mesmo tem o direito de permitir à sua consciência transpor... certos obstáculos, e unicamente no caso em que a execução da sua ideia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija.
Первый разряд всегда — господин настоящего, второй разряд — господин будущего. Первые сохраняют мир и приумножают его численно; вторые двигают мир и ведут его к цели., O primeiro grupo é sempre senhor do presente, o segundo, senhor do futuro. Os primeiros preservam o mundo e o fazem crescer em número; os segundos põem o mundo em marcha e o levam à meta.
O teste já contém o veredito: ele sustenta a tese em abstrato, com Newton, Licurgo e Napoleão, e recua diante de toda pergunta que a aproxime dele mesmo (capítulo V da Terceira Parte), e mais tarde no mesmo dia, sozinho, desmonta a própria doutrina em duas frases (capítulo VI da Terceira Parte):
я не человека убил, я принцип убил! Принцип-то я и убил, а переступить-то не переступил, на этой стороне остался... Только и сумел, что убить., não foi uma pessoa que eu matei, foi um princípio! O princípio, esse eu matei, mas transpor não transpus, fiquei deste lado... Só o que consegui foi matar.
я действительно вошь, eu sou mesmo um piolho.
No capítulo III da Quarta Parte ele rompe com a mãe e a irmã e pede que renunciem a ele:
Что бы со мною ни было, погибну я или нет, я хочу быть один. Забудьте меня совсем. [...] А теперь, когда любите меня, откажитесь… Иначе, я вас возненавижу, я чувствую…, Seja o que for que me aconteça, pereça eu ou não, quero ficar só. Esqueçam-me de vez. [...] E agora, se me amam, desistam de mim… Senão eu as odiarei, eu sinto…
Vai então ao único lugar que lhe resta, o quarto de Sófia Semeónovna Marmieládova, onde, no capítulo IV da Quarta Parte, faz as duas coisas contraditórias que o definem. Primeiro ataca a fé dela, quando ela repete que Deus não permitirá o pior para as crianças:
Да, может, и бога-то совсем нет, Pois é, talvez nem haja Deus nenhum.
Logo depois curva-se até o chão e beija o pé dela, diante de todo o sofrimento humano:
Я не тебе поклонился, я всему страданию человеческому поклонился, Não foi diante de você que me curvei, foi diante de todo o sofrimento humano que me curvei.
E antes de sair propõe que os dois sigam juntos como malditos:
Мы вместе прокляты, вместе и пойдем!, Juntos estamos amaldiçoados, e juntos iremos!
No capítulo IV da Quinta Parte ele confessa, mas não pelo motivo que a cena sugere: sobe ao quarto dela ainda tomado pela vitória sobre Lújin (capítulo III da Quinta Parte), e o que entrega é o fato, nunca o gesto. Primeiro descarta o dinheiro, a mãe e a humanidade como motivo:
Я просто убил; для себя убил, для себя одного, Eu simplesmente matei; matei para mim, para mim somente.
Depois diz a pergunta que afirma ter feito ao matar:
мне надо было узнать тогда, и поскорей узнать, вошь ли я, как все, или человек? Смогу ли я переступить или не смогу! Осмелюсь ли нагнуться и взять или нет? Тварь ли я дрожащая или право имею…, eu precisava saber então, e saber depressa: sou um piolho, como todos, ou um homem? Vou conseguir transpor ou não vou! Ouso me abaixar e pegar ou não? Sou uma criatura trêmula ou tenho o direito…
E chega à conclusão que o resto do livro vai cobrar dele:
Разве я старушонку убил? Я себя убил, а не старушонку! Тут так-таки разом и ухлопал себя, навеки!.., Foi a velhota que eu matei? Foi a mim que matei, e não a velhota! Ali mesmo, de uma vez só, liquidei a mim, para sempre!..
No capítulo II da Sexta Parte Porfiri o acusa sem prova e lhe oferece a saída:
Как кто убил?.. — переговорил он, точно не веря ушам своим, — да вы убили, Родион Романыч! Вы и убили-с…, Como, quem matou?..., repetiu ele, como se não acreditasse nos próprios ouvidos, ora, o senhor matou, Rodion Románitch! O senhor mesmo matou...
No capítulo V da Sexta Parte Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov reduz, diante de Dúnia, a teoria dele a uma teoria como outra qualquer:
Тут была тоже одна собственная теорийка, [...] по которой люди разделяются, [...] на материал и на особенных людей, то есть на таких людей, для которых, [...] закон не писан а, напротив, которые сами сочиняют законы остальным людям, материалу-то, сору-то. Ничего, так себе теорийка; une theorie comme une autre, Havia também uma teoriazinha dele mesmo, [...] segundo a qual as pessoas se dividem [...] em material e em gente especial, isto é, em pessoas para as quais, [...] a lei não está escrita e que, ao contrário, elas próprias compõem as leis para as demais, para o material, para o refugo. Nada mal, uma teoriazinha qualquer; uma teoria como qualquer outra.
Na praça, no capítulo VIII da Sexta Parte, ele cumpre metade do rito que Sônia lhe ensinara, e as palavras congelam na língua:
Он стал на колени среди площади, поклонился до земли и поцеловал эту грязную землю, с наслаждением и счастием., Pôs-se de joelhos no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade.
A confissão só sai na delegacia, seca:
Это я убил тогда старуху-чиновницу и сестру ее Лизавету топором и ограбил., Fui eu que matei, naquela ocasião, a velha mulher de funcionário e a irmã dela, Lisavieta, com um machado, e roubei.
No capítulo I do Epílogo o tribunal lê o crime como perturbação passageira, e ele mesmo, perguntado, dá como causa a miséria e o desamparo:
подоспела новейшая модная теория временного умопомешательства, которую так часто стараются применять в наше время к иным преступникам, chegou a tempo a novíssima teoria da moda, a da perturbação mental passageira, que em nossos dias tanto se procura aplicar a certos criminosos.
причиной всему было его скверное положение, его нищета и беспомощность, желание упрочить первые шаги своей жизненной карьеры с помощью, по крайней мере, трех тысяч рублей, которые он рассчитывал найти у убитой, a causa de tudo era a situação ruim em que estava, a miséria e o desamparo, o desejo de firmar os primeiros passos de sua carreira com a ajuda de, ao menos, três mil rublos que contava achar com a morta.
No capítulo II do Epílogo, por dentro, ele recusa essa explicação e todas as outras: o que o adoece na prisão siberiana é orgulho ferido.
его гордость сильно была уязвлена; он и заболел от уязвленной гордости, o orgulho dele estava muito ferido; foi de orgulho ferido que ele adoeceu.
Até a penúltima página a posição dele é intacta:
он не раскаивался в своем преступлении, ele não se arrependia de seu crime.
O sonho da peste devolve a doutrina dele em escala planetária:
всякий думал, что в нем в одном и заключается истина, cada qual achava que a verdade se encerrava nele, e só nele.
E a virada, quando vem, não é um argumento vencido por outro argumento:
Вместо диалектики наступила жизнь, и в сознании должно было выработаться что-то совершенно другое, Em vez da dialética, chegou a vida, e na consciência algo completamente outro devia se formar.
Temas que encarna
A função de Raskólnikov na arquitetura do romance não é ser o culpado que se procura, é ser o laboratório em que uma ideia correta por dentro se prova falsa por fora: Dostoiévski dá a ele uma teoria sem incoerência lógica interna e depois observa o que ela faz num corpo, e a resposta é que o corpo protesta antes da razão. Por isso o livro nunca refuta a doutrina do homem extraordinário com contra-argumento nenhum: cada objeção séria vem de fora da cabeça dele, de Dmitri Prokófitch Razumíkhin que não sabe do crime e de Zamiótov que insinua, ambos na casa de Porfiri (capítulo V da Terceira Parte), de Sônia que não discute (capítulo IV da Quarta Parte), e nenhuma delas o convence, só o desgasta.
Raskólnikov é também o eixo pelo qual todos os outros personagens são medidos, e é essa função que faz dele protagonista mesmo quando some de cena: Lújin diz a teoria dele sem o disfarce histórico e ele reage como quem se vê no espelho errado (capítulo V da Segunda Parte), Svidrigáilov a aplica sem mal-estar nenhum e vira o desenho do que ele seria sem consciência (capítulo V da Quinta Parte), Porfiri a devolve como método (capítulo V da Quarta Parte), Sônia a ignora inteira (capítulo IV da Quinta Parte). Cada um deles existe para responder à pergunta que ele fez com um machado.
O que o romance instala como responsabilidade dele não é o momento em que ele decide, é o momento em que ele deixa de decidir: ele nunca escolhe matar com a clareza com que escolhe, por exemplo, impedir o casamento da irmã (capítulo IV da Primeira Parte), e essa lacuna é o assunto, não uma falha de construção.
Leituras divergentes
Raskólnikov pode ser lido como louco em sentido clássico ou como lúcido, e a divergência vale mais que qualquer síntese. Na leitura que o tem por louco, ele é o intelectual que agiu sobre a própria teoria e enlouqueceu por isso, ao contrário do intelectual que só teoriza e mantém as mãos limpas.
Joseph Frank lê o oposto: a oscilação entre motivos não é sintoma de desequilíbrio nem hesitação do autor, é o próprio assunto, cada camada de motivo sendo uma fase da autodescoberta de um homem que não sabe por que matou. O que, depois do segundo golpe, o levaria a se denunciar (capítulo VII da Primeira Parte) também não é medo:
No momento em que age, "o pavor se apoderava dele cada vez mais", mas o que o levaria a se entregar não é medo e sim "o simples horror e repugnância ao que havia praticado"; a consciência que sua teoria devia ter neutralizado continua viva e reage antes que a razão a alcance.
O teste a que ele submete o próprio ídolo (capítulo VI da Terceira Parte) está numa passagem que a leitura psiquiátrica não alcança:
Нет, те люди не так сделаны; настоящий властелин, кому всё разрешается, громит Тулон, делает резню в Париже, забывает армию в Египте, тратит полмиллиона людей в московском походе и отделывается каламбуром в Вильне; и ему же, по смерти, ставят кумиры, — а стало быть, и всё разрешается., Não, aqueles homens não são feitos assim; o verdadeiro soberano, a quem tudo é permitido, arrasa Toulon, faz um massacre em Paris, esquece um exército no Egito, gasta meio milhão de homens na campanha de Moscou e se safa com um trocadilho em Vilna; e a ele mesmo, depois de morto, erguem ídolos, e portanto tudo é permitido.
As duas leituras divergem em algo prático: se ele é louco, o Epílogo é cura e a teoria nunca precisou de resposta; se ele é lúcido e se descobre por etapas, o Epílogo é o único ponto em que o livro devia responder e não responde. A terceira divergência, sobre se a conversão final é genuína ou enxerto forçado, fica registrada lado a lado, sem escolha, no fecho do capítulo II do Epílogo.
Relações
- Sófia Semeónovna Marmieládova: a contraparte, a quem ele confessa antes de qualquer autoridade (capítulo IV da Quinta Parte) e de quem recusa o único remédio oferecido, beijar a terra em praça pública, que só cumpre pela metade (capítulo VIII da Sexta Parte).
- Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov: o duplo sem teoria e sem horror, que escuta a confissão pela parede (capítulo V da Quinta Parte) e aplica a mesma lógica sem peso nenhum de consciência.
- Porfiri Pietróvitch: o investigador que o cerca sem prova, por psicologia pura (capítulo V da Quarta Parte), e que lhe oferece a entrega voluntária como saída (capítulo II da Sexta Parte).
- Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova e Avdótia Românovna Raskólnikova, mãe e irmã, de quem ele se separa antes de se entregar (capítulo III da Quarta Parte, capítulo VII da Sexta Parte), e cujo sacrifício por ele é o motivo íntimo que o crime pretendia resolver (capítulo IV da Primeira Parte).
- Dmitri Prokófitch Razumíkhin, o colega que o sustenta durante a febre (capítulo III da Segunda Parte), que formula sem saber do crime a objeção mais grave à teoria dele (capítulo V da Terceira Parte), e que assume a família dele quando ele a abandona (capítulo III da Quarta Parte).
- Julien Sorel, fora do romance: o parente mais velho, o jovem pobre e inteligente de 1830 que também decide agir contra a régua comum, e cuja hipocrisia abre a mesma pergunta sobre defeito de caráter ou resposta racional.