Quem é
Juiz de instrução encarregado do caso da usurária assassinada, e parente de Razumíkhin (capítulo IV da Segunda Parte), o que o põe dentro da vida de Rodion Românovitch Raskólnikov por via social antes de o pôr por via policial.
Solteiro, adoentado, falastrão, com um jeito de conversa que se desmancha em digressões sobre o próprio apartamento e as próprias hemorroidas, e que o adversário demora a reconhecer como método (capítulo V da Quarta Parte).
Nunca reúne uma única prova material contra Raskólnikov, e diz isso na cara dele mais de uma vez (capítulo V da Quarta Parte, capítulo II da Sexta Parte).
Também nunca o prende: o que faz, do primeiro encontro ao último, é oferecer ao suspeito o espelho em que ele se entrega sozinho.
Trajetória
O método aparece no romance antes do homem. Ainda no capítulo IV da Segunda Parte, defendendo o pintor Nikolai, Dmitri Prokófitch Razumíkhin formula em tom de discussão de mesa o princípio que Porfiri vai executar com precisão profissional.
По одним психологическим только данным можно показать, как на истинный след попадать должно. «У нас есть, дескать, факты!» Да ведь факты не все; по крайней мере, половина дела в том, как с фактами обращаться умеешь!, só os dados psicológicos já bastam para mostrar como se deve chegar ao rastro verdadeiro. Nós temos fatos, dizem eles! Mas os fatos não são tudo; ao menos metade da questão está em saber lidar com os fatos!
No capítulo V da Terceira Parte vem o primeiro encontro, e ele começa pelo terreno em que o suspeito é vaidoso: o artigo escrito meio ano antes. Porfiri o resume numa versão simplificada e agressiva, calculada para forçar a correção.
Все дело в том, что в ихней статье все люди как-то разделяются на «обыкновенных» и «необыкновенных». Обыкновенные должны жить в послушании и не имеют права переступать закона, потому что они, видите ли, обыкновенные. А необыкновенные имеют право делать всякие преступления и всячески преступать закон, собственно потому, что они необыкновенные., A coisa toda é que, no artigo do senhor, as pessoas se dividem de certa forma em ordinários e extraordinários. Os ordinários têm de viver obedecendo e não têm direito de transgredir a lei, pois são, veja só, ordinários. Já os extraordinários têm o direito de cometer todo tipo de crime e de transgredir a lei como quiserem, justamente por serem extraordinários.
Raskólnikov corrige, refina, expõe a doutrina inteira, e é exatamente o que se queria dele. Quando Razumíkhin, que não sabe do crime, nomeia sem rodeio a gravidade da tese, Porfiri confirma de imediato.
Совершенно справедливо, страшнее-с, Absolutamente certo, é mais terrível, sim senhor.
No capítulo V da Quarta Parte ele descreve o próprio método como se fosse teoria geral do ofício, e Raskólnikov entende a lição como dirigida a ele.
Видали бабочку перед свечкой? Ну, так вот он все будет, все будет около меня, как около свечки, кружиться [...] все суживая да суживая радиус, и — хлоп! Прямо мне в рот и влетит, Já viu uma mariposa diante da vela? Pois ele vai ficar, vai ficar o tempo todo à minha volta, dando voltas como em torno da vela [...] e vai apertando, apertando o raio, e zás! Entra voando direto na minha boca.
O cerco desanda no capítulo VI da Quarta Parte, com a confissão falsa de Nikolai, e Raskólnikov sai dali entendendo, pela primeira vez, que a arma do adversário corta para os dois lados.
Все о двух концах, теперь все о двух концах, Tudo corta dos dois lados, agora tudo corta dos dois lados.
No capítulo II da Sexta Parte ele vai à casa de Raskólnikov para uma visita que chama de explicação. Reconstrói a armadilha psicológica e reconhece, sem ser pressionado, o defeito constitutivo da própria arma, e é essa confissão que explica por que ele precisa da entrega voluntária.
ведь в том-то и штука, что вся эта проклятая психология о двух концах!, pois aí está a questão: toda essa maldita psicologia corta para os dois lados!
Depois descarta Nikolai e diz o que nunca havia dito sem rodeio:
Как кто убил?.. — переговорил он, точно не веря ушам своим, — да вы убили, Родион Романыч! Вы и убили-с…, Como, quem matou?..., repetiu ele, como se não acreditasse nos próprios ouvidos, ora, o senhor matou, Rodion Románitch! O senhor mesmo matou...
Sem prova e sem prisão, o que lhe resta é oferecer uma saída, e ele a oferece de um lugar rebaixado, tirando de si qualquer autoridade moral sobre o outro.
Кто я? Я поконченный человек, больше ничего., Quem sou eu? Sou um homem acabado, e mais nada.
не смейтесь над этим, в страдании есть идея. Миколка-то прав., não ria disso, no sofrimento há uma ideia. Mikolka é que tem razão.
Temas que encarna
Porfiri é o adversário que o romance precisava para não virar romance policial, e a função dele na arquitetura do livro é negativa: ele existe para que o desfecho não possa ser creditado à investigação.
Um inquérito que produzisse a prova faria de Crime e Castigo a história de um homem apanhado, e a pergunta do livro deixaria de ser respondida, porque a pergunta nunca foi quem matou nem se seria pego, foi o que decide um homem a agir.
Por isso o juiz de instrução chega sempre com as mãos vazias, e por isso ele é quem enuncia a teoria de Raskólnikov na cena, antes de o próprio Raskólnikov a expor (capítulo V da Terceira Parte): a tarefa dele não é reunir indícios, é obrigar o suspeito a ouvir a própria doutrina dita em voz alta por outra boca.
A arma é ambivalente por construção, e o livro faz questão de dizê-lo com todas as letras, primeiro pela boca de Raskólnikov, que descobre poder converter cada acusação em defesa (capítulo VI da Quarta Parte), depois pela do próprio Porfiri, que admite que a psicologia corta para os dois lados (capítulo II da Sexta Parte).
A confissão falsa de Nikolai (capítulo VI da Quarta Parte) é a demonstração prática: o mesmo método que enxerga o culpado por trás do fato também absolve o inocente que se acusa, e nada dentro do método distingue um caso do outro.
O que fecha o cerco não é a psicologia, é a proposta que vem depois dela. Porfiri para de investigar e passa a oferecer sofrimento como caminho, exatamente a mesma coisa que Sófia Semeónovna Marmieládova já havia proposto por via religiosa (capítulo IV da Quinta Parte), e o faz de um lugar sem autoridade, declarando-se homem acabado (capítulo II da Sexta Parte). É o adversário abrindo mão da vitória processual para que a rendição valha.
A ambivalência da arma não é defeito do personagem, é a tese do livro aplicada ao próprio enredo: se dado psicológico bastasse para condenar, a consciência seria legível de fora, e é justamente isso que o romance passa seiscentas páginas negando. Porfiri fracassa como investigador pelo mesmo motivo pelo qual Raskólnikov fracassa como homem extraordinário, porque nenhum dos dois consegue reduzir uma pessoa a um sistema que a preveja.
Leituras divergentes
O capítulo VI da Quarta Parte deixa a pergunta em aberto sem escolher lado, se a confissão de Nikolai prova que o método funciona (só Porfiri não se deixou enganar) ou que ele pode ser enganado por qualquer um disposto a confessar. As duas respostas são sustentáveis pelo texto, e a segunda é a que o próprio Porfiri assume quando fala dos dois gumes (capítulo II da Sexta Parte).
Joseph Frank desloca o peso para longe do inquérito: lê o romance como a busca de uma motivação que o criminoso faz por si mesmo, e não pela polícia, o que rebaixa Porfiri a instrumento dessa busca. É leitura compatível com a que o duelo dos capítulos permite, mas com a ênfase invertida, porque Frank se interessa pela arquitetura de motivos e a cena se interessa pelo duelo.
Porfiri não é peça do desfecho, é peça da construção: numa leitura estritamente religiosa o juiz de instrução seria dispensável, e é isso que confirma, por outra via, que o desfecho não se deve à investigação.
Relações
- Rodion Românovitch Raskólnikov: adversário e, no fim, conselheiro. O duelo tem três rodadas, o artigo (capítulo V da Terceira Parte), o cerco (capítulo V da Quarta Parte) e a explicação (capítulo II da Sexta Parte), e nenhuma delas produz prova.
- Dmitri Prokófitch Razumíkhin: parente de Porfiri, porta de entrada social do inquérito (capítulo IV da Terceira Parte), e o primeiro a formular o método que o outro pratica (capítulo IV da Segunda Parte).
- Zamiótov, escriturário da delegacia: quem carrega a suspeita para dentro da cena do artigo com a insinuação mais direta de todo o encontro (capítulo V da Terceira Parte).
- Nikolai (Mikolka), o pintor: a confissão falsa que desarma o cerco (capítulo VI da Quarta Parte) e que só Porfiri recusa, lendo nela o desejo religioso de assumir sofrimento, não a culpa (capítulo II da Sexta Parte).
- Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov: o outro cerco, montado ao mesmo tempo e por método oposto (capítulo I da Quarta Parte), e o único que sabe do crime por escuta direta em vez de dedução (capítulo V da Quinta Parte).