Quem é
Sófia Semeónovna Marmieládova, Sônia, é a filha do primeiro casamento do funcionário demissionário Marmieládov, empurrada para a carteira amarela de prostituta porque a madrasta tísica e os três filhos pequenos da madrasta não tinham mais o que comer (capítulo II da Primeira Parte). Vive num quarto alugado de canto torto no prédio dos Kapiernaúmov (capítulo IV da Quarta Parte), entrega à família tudo o que ganha, e é a contraparte de Rodion Românovitch Raskólnikov no romance: a única pessoa a quem ele confessa antes de qualquer autoridade, e a única que não discute com ele. O eixo dela são três cenas, a leitura de Lázaro (capítulo IV da Quarta Parte), a confissão que ela recebe e recusa absolver de graça (capítulo IV da Quinta Parte), e o Epílogo (capítulo II do Epílogo).
A entrada dela na história do crime não veio do projeto original: Sônia nasce da fusão de Crime e Castigo com um projeto paralelo de Dostoiévski chamado Os bêbados, fusão documentada nos rascunhos por Joseph Frank.
Trajetória
No capítulo II da Primeira Parte ela existe só como relato do pai bêbado na taberna, e é dessa cena que sai a frase que define a condição da família inteira:
Понимаете ли, понимаете ли вы, милостивый государь, что значит, когда уже некуда больше идти?, Entende o senhor, entende, prezado senhor, o que significa quando já não existe mais para onde ir?
Ainda ausente, ela já cumpre uma função de argumento: no capítulo IV da Primeira Parte, Raskólnikov lê a carta da mãe e conclui que o casamento da irmã com Lújin é a mesma venda que Sônia fez, só que revestida de casamento:
мы, при случае, и нравственное чувство наше придавим; свободу, спокойствие, даже совесть, все, все на толкучий рынок снесем., nós, quando calha, também esmagamos o nosso sentimento moral; liberdade, sossego, até a consciência, tudo, tudo levamos ao mercado de pulgas.
No capítulo VII da Segunda Parte ela aparece em pessoa pela primeira vez, vestida de prostituta, a tempo exato de ouvir do pai atropelado o pedido que fecha a vida dele:
Соня! Дочь! Прости!, Sônia! Filha! Perdoa!
No capítulo IV da Terceira Parte ela entra no quarto de Raskólnikov para convidá-lo ao funeral, é apresentada à mãe e à irmã dele, e de tudo o que diz na cena a frase que fica é a devolução do que ele fez pela família dela:
Вы нам все вчера отдали!, O senhor nos deu tudo ontem!
Ao sair, é seguida na rua por Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, que na galeria do prédio se apresenta como vizinho de porta:
Он мне жилет вчера перешивал. А я здесь, рядом с вами, у мадам Ресслих, Гертруды Карловны. Как пришлось-то!, Ontem ele ajustou um colete meu. E eu moro aqui, ao lado da senhora, na casa de madame Resslich, Gertrud Karlovna. Veja só a coincidência!
Na noite do capítulo IV da Quarta Parte está a cena que organiza o personagem. Raskólnikov vai ao quarto dela para uma última visita e submete a fé dela a um interrogatório sem trégua sobre o que será das crianças:
Да, может, и бога-то совсем нет, Pois é, talvez nem haja Deus nenhum.
Depois curva-se até o chão e beija o pé dela:
Я не тебе поклонился, я всему страданию человеческому поклонился, Não foi diante de você que me curvei, foi diante de todo o sofrimento humano que me curvei.
E pede que ela leia a ressurreição de Lázaro, no Novo Testamento que Lisavieta lhe trouxe. Ela lê tremendo, e o que pesa na cena é o modo como o texto entra nela:
O Evangelho entra na página em trechos longos, lidos em voz alta, e ninguém o discute na cena: Raskólnikov, que argumenta com todos os outros personagens, ouve a leitura em silêncio, sem interromper, porque o que ela responde não é um argumento, é o relato de um morto que sai do túmulo. O Epílogo volta a esse livro: o Evangelho que Raskólnikov encontra sob o travesseiro é o mesmo de onde Sônia lhe leu a ressurreição.
Na mesma noite vem a proposta que ela ainda não sabe interpretar:
Мы вместе прокляты, вместе и пойдем!, Juntos estamos amaldiçoados, e juntos iremos!
No capítulo III da Quinta Parte ela é primeiro vítima: Lújin a acusa de furto, com cem rublos que ele mesmo enfiou às escondidas no bolso dela, para desmoralizar Raskólnikov diante da família e voltar às graças de Dúnia:
дело тем только и кончится. В противном же случае принужден буду обратиться к мерам весьма серьезным, тогда… пеняйте уже на себя-с!, o caso acaba só com isso. Do contrário, serei obrigado a recorrer a medidas muito sérias, e então… só poderá culpar a si mesma!
Quem a defende em público é a madrasta que a empurrou para a rua:
Глупые вы, глупые [...] да вы еще не знаете, не знаете, какое это сердце, какая это девушка! Она возьмет, она! Да она свое последнее платье скинет, продаст, босая пойдет, а вам отдаст, коль вам надо будет, вот она какая! Она и желтый-то билет получила, потому что мои же дети с голоду пропадали, себя за нас продала!.., Tolos que vocês são, tolos [...] vocês ainda não sabem, não sabem que coração é esse, que moça é essa! Ela ia roubar, ela! Ela tira o último vestido, vende, vai descalça e dá tudo a vocês, se precisarem, é assim que ela é! Até o bilhete amarelo ela recebeu porque meus filhos estavam morrendo de fome, vendeu-se por nós!..
Horas depois, no capítulo IV da Quinta Parte, ela recebe a confissão do assassinato e faz a única coisa que o romance permite a ela fazer, que não é perdoar nem denunciar, é prescrever um rito:
Поди сейчас, сию же минуту, стань на перекрестке, поклонись, поцелуй сначала землю, которую ты осквернил, а потом поклонись всему свету, на все четыре стороны, и скажи всем, вслух: «Я убил!» Тогда бог опять тебе жизни пошлет, Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida.
No fim da mesma cena ele recusa, ela lhe oferece a cruz de cipreste, ele adia.
No capítulo VI da Sexta Parte ela recebe de Svidrigáilov, na última noite dele, os recibos dos três órfãos e três títulos que somam três mil rublos, com a ordem de guardá-los só para si, e ele justifica o dinheiro pelo destino que prevê a Raskólnikov:
У Родиона Романовича две дороги: или пуля в лоб, или по Владимирке., Rodion Românovitch tem duas estradas: ou uma bala na testa, ou a Vladímirka.
No último encontro, no capítulo VIII da Sexta Parte, ela tira da gaveta as duas cruzes e cumpre o que tinha combinado com ele na confissão:
Sônia põe no peito de Raskólnikov só a cruz de cipreste, a dos simples, e fica com a de cobre, que trocou com Lisavieta Ivánovna. Na Quinta Parte ele recusara a de cipreste, dizendo que seria melhor depois, e ela combinara dá-la quando ele fosse ao sofrimento, de modo que a cena cumpre o combinado; a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanhará.
A instrução dela é o que ele repete de cabeça na rua:
Поди на перекресток, поклонись народу, поцелуй землю, потому что ты и пред ней согрешил, и скажи всему миру вслух: „Я убийца!“, Vá a uma encruzilhada, curve-se diante do povo, beije a terra, porque você pecou também contra ela, e diga ao mundo inteiro, em voz alta: ‘Sou um assassino!’.
O beijo na terra que ele cumpre na praça é obediência a ela:
Он стал на колени среди площади, поклонился до земли и поцеловал эту грязную землю, с наслаждением и счастием., Pôs-se de joelhos no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade.
Ainda no mesmo capítulo, ela o segue de longe, escondida atrás de uma barraca, e está no pátio da delegacia quando ele hesita.
No capítulo I do Epílogo ela vai por conta própria para a Sibéria com o dinheiro de Svidrigáilov e escreve todo mês a Dmitri Prokófitch Razumíkhin, por quem passa toda a informação que chega a Petersburgo. No capítulo II do Epílogo os presos reagem aos dois de modos opostos, e o livro tira disso a sua conclusão sobre a teoria:
A prisão faz, sem discurso nenhum, a demonstração que o romance devia à teoria: entre condenados por crimes muito piores, quem é aceito por todos é a mulher que nunca formulou uma ideia, e quem é odiado é o único que chegou ali com um sistema explicando por que estava certo.
A virada do romance acontece com ela em cena e sem uma palavra dita:
Их воскресила любовь, сердце одного заключало бесконечные источники жизни для сердца другого, O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro.
No fecho do mesmo capítulo, o último objeto do livro é o Evangelho dela, o mesmo de onde saiu a leitura de Lázaro.
Temas que encarna
A função de Sônia na arquitetura do livro é ser a única personagem que não opera por argumento, e é por isso que ela é a única que sobrevive intacta ao romance: Lújin, Svidrigáilov, Porfiri e o próprio Raskólnikov disputam teses e cada um é desmontado pela sua, ela não tem tese nenhuma para desmontar. O romance a constrói de propósito no ponto exato em que a teoria do homem extraordinário deveria funcionar melhor, uma vida que a teoria chamaria de inútil e gasta, vendida para a família comer (capítulo II da Primeira Parte), e faz dessa vida o eixo de tudo, o que é a refutação mais dura da doutrina justamente por não ser uma refutação.
O que ela oferece a Raskólnikov não é perdão, e ler assim achata a cena: ela exige um rito público, com testemunhas, num cruzamento, e a recusa dele não é só orgulho de assassino, é também lucidez, porque cumprir o rito significaria admitir que ela está certa e a teoria não. Por isso a confissão dele na Quinta Parte (capítulo IV da Quinta Parte) é uma confissão invertida, entrega o fato e retém o gesto, e por isso a praça da Sexta Parte (capítulo VIII da Sexta Parte) é o momento em que ele cede metade do caminho e para.
Ela também é o contrapeso estrutural de Svidrigáilov: os dois escutam a mesma confissão, um pela parede (capítulo V da Quinta Parte) e outro de frente (capítulo IV da Quinta Parte), e o livro os põe lado a lado na Sexta Parte para desenhar as duas saídas possíveis, a bala e a Vladímirka (capítulo VI da Sexta Parte), com ela sendo a única razão pela qual a segunda existe.
Relações
- Rodion Românovitch Raskólnikov: recebe dele a confissão do duplo assassinato antes de qualquer autoridade (capítulo IV da Quinta Parte), e prescreve a ele o rito público que ele recusa e depois cumpre pela metade (capítulo VIII da Sexta Parte).
- Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov: vizinho de parede dela (capítulo IV da Terceira Parte), que escuta a confissão inteira, como revela a Raskólnikov (capítulo V da Quinta Parte), e de quem ela recebe o dinheiro que a sustenta na Sibéria (capítulo VI da Sexta Parte).
- Marmieládov, o pai, cujo monólogo de taberna a apresenta ao leitor e ao próprio Raskólnikov antes de ela entrar em cena (capítulo II da Primeira Parte).
- Catierina Ivánovna, a madrasta tísica que a empurrou para a carteira amarela (capítulo II da Primeira Parte) e que a defende publicamente contra a acusação de furto de Lújin (capítulo III da Quinta Parte).
- Lisavieta, a segunda vítima do crime, para quem Sônia lera a ressurreição de Lázaro (capítulo IV da Quarta Parte) e com quem trocou cruzes: a de cobre, de Lisavieta, fica com Sônia (capítulo VIII da Sexta Parte).