Quem é
Semion Zakhárovitch Marmieládov é um funcionário demissionário de mais de cinquenta anos, conselheiro titular, bêbado, de fala rebuscada, que se apresenta a Rodion Românovitch Raskólnikov numa taberna de porão e o escolhe como ouvinte por julgá-lo homem instruído e sensível, quando os fregueses só riem dele.
É o pai de Sófia Semeónovna Marmieládova, a filha do primeiro casamento, e o marido de Catierina Ivánovna Marmieládova, viúva de oficial, tísica e altiva, que casou com ele chorando porque nenhum parente a acolhia e tem três filhos pequenos.
O que ele quer é ser julgado e castigado para poder ser perdoado, e o que ele teme não são as pancadas da mulher, é o olhar dela, as manchas vermelhas nas faces e o choro das crianças.
O que ele sabe sobre si não tem segredo nenhum, ele conta tudo a quem ouvir, e o texto deixa em aberto se esse dizer tudo é arrependimento ou a defesa de tudo.
É atropelado por uma carruagem na rua, a trinta passos de casa, e morre em casa, nos braços da filha que a miséria mandou para a rua.
Trajetória
No capítulo II da Primeira Parte ele despeja a história da família a um desconhecido: o casamento da mulher, a filha que saiu uma tarde depois de a madrasta lhe dizer com ironia que fosse e voltou com trinta rublos, que pôs na mesa sem uma palavra, o emprego recuperado por comiseração de um superior, as semanas de café e roupa nova em casa, e o dia seguinte ao primeiro salário, quando roubou a chave do baú da mulher e bebeu cinco noites a fio. A pergunta com que ele funda a defesa de tudo é a mesma que a Raskólnikov volta à memória no dia seguinte:
Понимаете ли, понимаете ли вы, милостивый государь, что значит, когда уже некуда больше идти?, Entende o senhor, entende, prezado senhor, o que significa quando já não existe mais para onde ir?
Quando o dono da taberna pergunta de que adianta ter pena de um homem desses, ele se levanta de braço estendido, como se esperasse a provocação, e pede o contrário da pena:
меня жалеть не за что! Меня распять надо, распять на кресте, а не жалеть!, de mim não se deve ter pena! Tem de me crucificar, crucificar na cruz, e não ter pena!
Raskólnikov o leva para casa, onde Catierina Ivánovna o arrasta pelos cabelos enquanto ele grita que isso lhe dá prazer. Naquele dia ele fora à casa de Sônia pedir dinheiro para a ressaca, e ela lhe dera os últimos trinta copeques sem recriminá-lo, o que ele sente como o pior. No capítulo IV da Primeira Parte a pergunta dele sobre não ter mais para onde ir volta a Raskólnikov junto com a ideia que ainda não tem nome.
No capítulo VII da Segunda Parte ele aparece atropelado, reconhecido por Raskólnikov à luz de um lampião e levado para casa. Volta a si, pede um padre e se confessa com sons soltos. Tenta pedir perdão à mulher, que o manda calar sabendo o que ele quer dizer, e quando Sônia aparece à porta, vestida como as moças de rua, é a ela que pede:
Соня! Дочь! Прости!, Sônia! Filha! Perdoa!
Cai do sofá e morre nos braços dela. No capítulo III da Terceira Parte Raskólnikov explica à mãe e à irmã o sangue na roupa dizendo que ajudou a carregar um funcionário atropelado, que morreu, e que entregou à viúva todo o dinheiro que a mãe lhe mandara. No capítulo IV da Quarta Parte Raskólnikov diz a Sônia que a escolheu havia tempo para ouvir quem matou Lisavieta, desde que o pai dela falou dela.
Nos capítulos I e II da Quinta Parte, ele já é o morto das exéquias solenes: Lújin ouve da dona da pensão que serão solenes e quase todos os inquilinos foram convidados, e Catierina Ivánovna gasta cerca de dez dos vinte e tantos rublos que Raskólnikov lhe deu em honrar o marido e em mostrar à casa quem ela é, exibindo o certificado de louvor de que ele falara na taberna.
Temas que encarna
Marmieládov é a primeira voz do livro a formular o que o romance vai pôr à prova, e a formula antes do crime: um homem pode pedir para ser castigado em vez de ser poupado, porque o perdão só vale para quem aceita o juízo. Raskólnikov ouve isso poucos dias antes de cometer o que comete e, no capítulo IV da Quinta Parte, faz o inverso: entrega o fato a Sônia e recusa o gesto público que ela pede, porque não reconhece autoridade em quem o julgaria. A distância entre o bêbado que se oferece à cruz e o estudante que não se oferece a ninguém é uma das medidas da Culpa no livro.
O segundo serviço dele ao livro é mostrar quem paga a conta. Ele pede a pena e a justiça ao mesmo tempo, e quem as cobra é Sônia, que lhe dá os últimos trinta copeques sem recriminá-lo e vai para a rua para sustentar a casa que ele bebe. O romance não julga o pai, ele faz o leitor ver o preço da confissão que não muda de vida, e é nesse ponto que a compaixão de Raskólnikov, que dá as moedas e logo se arrepende, ganha a primeira medida, no tema Compaixão e caridade.
A frase da cruz tem duas leituras, e o texto sustenta as duas: arrependimento sincero de quem não suporta ser poupado, ou o papel que o bêbado fez de si mesmo e que a taberna, rindo, reconhece. O último pedido de perdão, a Sônia e não à mulher, mantém a ambiguidade: pode ser o pai que sabe o que a filha pagou, pode ser o homem que sabe quem dá o perdão sem cobrar.
Relações
- Catierina Ivánovna Marmieládova: a mulher que o arrasta pelos cabelos e a quem ele não consegue pedir perdão; o olhar dela é o que ele teme.
- Sófia Semeónovna Marmieládova: a filha a quem ele pede perdão ao morrer, e que lhe deu os últimos trinta copeques no dia em que ele conta a história a Raskólnikov.
- Rodion Românovitch Raskólnikov: o ouvinte instruído que ele escolhe, o homem que paga o enterro com o dinheiro da mãe, e quem herda dele a pergunta sobre não ter para onde ir.