O tema na obra
A religião de Emma Bovary começa no convento, no capítulo 6 da Parte I: ela gosta da igreja pelas flores e do langor místico dos perfumes do altar, inventa pecados para ficar mais tempo no confessionário e acaba se revoltando contra os mistérios da fé. Na Parte II, Yonville tem dois porta-vozes do assunto. No capítulo 1, Homais discute religião com a estalajadeira e acusa de hipocrisia o Abade Bournisien assim que ele sai; no capítulo 3, no batizado de Berthe, o avô Bovary derrama champanhe na cabeça da criança, e o padre se indigna com a zombaria do sacramento.
No capítulo 6 da Parte II, ao ouvir as ave-marias, Emma vai à igreja disposta a qualquer devoção e encontra Bournisien ocupado com os meninos do catecismo; quando ela tenta dizer o que sente, ele pergunta se não é da digestão e receita chá. No capítulo 14, depois do abandono de Rodolphe Boulanger, ela pede a comunhão julgando-se à morte, quer tornar-se santa, compra rosários e dirige a Deus as palavras que murmurava ao amante, enquanto o padre encomenda ao livreiro do bispo livros piedosos que ela lê sem proveito. No capítulo 1 da Parte III, no encontro marcado com Léon na catedral de Rouen, ela reza na capela da Virgem pedindo socorro, e o guia da igreja os arrasta por túmulos até Léon fugir com ela para o fiacre.
O fim do livro passa pelos ritos. No capítulo 8, Emma beija o crucifixo com o maior beijo de amor que jamais dera e recebe a extrema-unção; no 9, Homais e Bournisien velam o corpo discutindo religião, celibato e confissão, cada um com a sua estante, até adormecerem um diante do outro; no 10, o cortejo sai ao som do De profundis, e o som das pedras no caixão parece o retumbar da eternidade.
Emma pede à religião o que pede aos romances, sensação, e a religião de Yonville não tem com que responder: o padre trata a alma como estômago, e o farmacêutico só quer vencer a discussão. As duas cenas de devoção sincera, a do capítulo 6 e a do capítulo 14 da Parte II, terminam iguais, sem resposta. O beijo no crucifixo usa o vocabulário do amor até o último gesto, e o livro não diz se alguém o recebeu.
Onde aparece
- Parte I, capítulo 6: a fé do convento, feita de flores, música e langor, cede diante dos mistérios.
- Parte II, capítulo 1: Homais discute religião e acusa o padre de hipocrisia.
- Parte II, capítulo 3: o batizado de Berthe acaba em champanhe e na indignação do padre.
- Parte II, capítulo 6: Emma procura o padre, e ele lhe receita chá.
- Parte II, capítulo 14: a comunhão, o desejo de santidade e a devoção com as palavras do adultério.
- Parte III, capítulo 1: Emma reza na capela da Virgem antes de entrar no fiacre.
- Parte III, capítulo 8: o beijo no crucifixo e a extrema-unção.
- Parte III, capítulo 9: Homais e Bournisien discutem diante do corpo até dormir.
- Parte III, capítulo 10: o enterro, o De profundis e o som da terra no caixão.
Passagens
No convento, Emma ama a igreja pelo que ela dá aos sentidos.
A fé do convento cai pelo mesmo critério.This nature, positive in the midst of its enthusiasms, that had loved the church for the sake of the flowers, and music for the words of the songs, and literature for its passional stimulus, rebelled against the mysteries of faith, esta natureza, positiva no meio dos seus entusiasmos, que amara a igreja pelas flores, a música pelas letras das canções e a literatura pelo estímulo passional, revoltou-se contra os mistérios da fé.
Emma pede socorro a Bournisien, e a resposta dele é de ofício.
- Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
A devoção repete a língua do adultério.
Quando se punha de joelhos sobre o genuflexório gótico, dirigia ao Senhor as mesmas palavras de suavidade que antes murmurara ao seu amante, durante as efusões do adultério.
A extrema-unção nomeia os pecados pelos órgãos.
primeiro nos olhos, que tanto haviam cobiçado todas as sumptuosidades terrestres, depois nas narinas, ávidas de brisas cálidas e perfumes amorosos, depois na boca, que se abria para a mentira, que gemera de orgulho e gritara de luxúria, depois nas mãos, que se deleitavam com suaves contactos, e, finalmente, nas plantas dos pés, tão rápidos outrora quando corria a saciar os seus desejos e que não voltariam a caminhar.
Diante do corpo, farmacêutico e padre recomendam um ao outro a própria estante.
Leia Voltaire! [...] Leia Holbach, leia a Enciclopédia!