Sim. Dante põe papas no Inferno e é duro com a Igreja do seu tempo. O caso mais claro é o do condenado de um buraco da vala dos simoníacos, no canto XIX, que a tradição identifica com o papa Nicolau III e que espera Bonifácio VIII para ocupar o seu lugar. Os simoníacos vendem o que é sagrado por ouro e prata, e ficam de cabeça para baixo em buracos de pedra, com as plantas dos pés em chamas.
Dante lhe responde com a acusação mais dura do poema: fizestes de ouro e prata um deus, e que outra coisa vos separa dos idólatras, senão que eles adoram um e vós adorais cem? E culpa Constantino, não pela conversão, mas pelo dote que a Igreja recebeu dele. Só a reverência às chaves supremas o impede de ir além. Virgílio, contente, o toma nos braços.
No canto XXVII, Guido da Montefeltro conta que o papa, a quem o poeta chama de príncipe dos novos fariseus e que a leitura corrente identifica com Bonifácio VIII, lhe ofereceu a absolvição antes do pecado em troca de um conselho para tomar Penestrino, dizendo que podia fechar e abrir o céu. Um diabo desfaz a promessa: não se absolve quem não se arrepende, nem se pode arrepender e querer ao mesmo tempo.
Há ainda, no vestíbulo, a sombra de quem fez por covardia a grande recusa; a tradição a liga ao papa Celestino V, que renunciou em 1294, mas o poema não o nomeia.