O poema não explica: diz que Dante, no meio do caminho da vida, se achou numa selva escura, porque deixou a via reta sem saber quando, e que uma onça, um leão e uma loba lhe barram a subida de um monte iluminado. O sentido de cada imagem vem da leitura que os comentadores fizeram depois.
Sobre a selva, o texto diz só que Dante não sabe contar como entrou, tão cheio de sono estava quando abandonou o caminho verdadeiro. Fala do medo, de uma noite passada com tanta pena, e do sol que, no alto do morro, acalma a angústia. Duas leituras convivem: distração sem culpa, porque ninguém o enganou, ou sono como falha, porque o poema não aponta outra causa.
Das três feras, só a loba tem sentido dito por alguém, e é Virgílio quem o diz: é de natureza tão má que nunca sacia a vontade e, depois do pasto, tem mais fome que antes. Ela só morrerá quando vier o veltro, o libertador que se nutrirá de sabedoria, amor e virtude. Da onça e do leão o poema não diz nada; as leituras que lhes atribuem pecados, por exemplo as três grandes categorias do Inferno, incontinência, violência e malícia, vêm da tradição, e não dos versos.
O veltro nunca é nomeado. Virgílio diz apenas que nascerá «entre feltro e feltro», e a expressão fica sem solução no texto.