No Inferno as almas são o que fizeram; no Purgatório estão deixando de sê-lo. É essa a diferença central, e é por isso que o Inferno pune e o Purgatório cura, e que aqui, ao contrário de lá, se canta. As almas da montanha sabem que a pena tem fim e a querem.
O texto mostra a diferença em cenas. Forese chama de consolo a pena que sofre, porque a vontade que o leva à árvore é a que levou Cristo a dizer Eli. Estácio, depois de mais de quinhentos anos, sente a vontade livre de subir, e o monte inteiro treme de louvor. A montanha mesma pesa no começo e alivia a cada passo, e Virgílio mede o progresso por esse peso, e não pela distância.
Muda também o guia. No Inferno Virgílio conhecia o caminho; no Purgatório precisa perguntar, raciocinar em voz alta e rezar ao sol, e o poema faz disso uma lição sobre o alcance da razão. Muda a vizinhança: em vez de condenados que repetem o que foram, há poetas, príncipes e papas que falam do próprio erro com a distância de quem já o enxerga. E muda o centro: o Inferno organiza os pecados por espécie, enquanto o Purgatório os reduz a uma raiz só, o amor, e mostra a vontade sendo endireitada ao longo do caminho.
É por isso que a cântica é a que mais fala da vida de quem está tentando mudar e ainda não conseguiu: tem recaída, pressa, espera e progresso lento.