Virgílio é a sombra do poeta de Mântua, autor da Eneida, que guia Dante pelo Inferno e continua a guiá-lo no Purgatório até o topo da escada do Paraíso Terrestre. Na leitura corrente, representa a razão humana: leva até onde a inteligência alcança e diz onde isso termina.
É pagão do Limbo e, por isso, acompanha uma subida de que não participa. Diz ele mesmo, a Sordello, que perdeu o poder ver o alto Sol «não por fazer, mas por não fazer», e que o conheceu tarde. No Purgatório já não conhece o caminho: pergunta às almas, raciocina em voz alta e reza ao sol, escolhendo a luz que tem à vista.
Mas a palavra dele é a mais confiável da montanha. No centro do poema dá a lição do amor, em que mostra que todo ato nasce de amor e que só varia o objeto e o vigor. Quando Dante objeta que, se o amor vem de fora, não há mérito, responde até onde a razão vê e entrega o resto a Beatriz: «obra de fé». Estácio lhe deve a poesia e a fé, e o compara a quem leva o lume atrás de si e a si não aproveita.
Em nenhum canto o poema o rebaixa. Ele erra de caminho, se impacienta e se perturba, mas a imagem que ele deixa é a de um mestre que sabe a medida do que sabe. O ofício dele acaba no canto XXX, quando Dante se volta e o lugar está vazio.