O Purgatório fala de como uma vontade desviada se endireita. É a cântica em que as almas já não são o que fizeram, estão deixando de sê-lo, e a pergunta que a atravessa é o que um homem aprende a querer. O primeiro canto define o reino por duas ações do espírito: purgar-se e tornar-se digno de subir ao céu.
A tese que organiza tudo vem no canto XVII, na boca de Virgílio: nem o criador nem a criatura jamais foi sem amor, e o que varia é o objeto e o vigor. O vício, nessa conta, é amor desviado, e por isso se corrige. Daí as sete cornijas, que lavam o amor ao mal do próximo (soberba, inveja e ira), o amor frouxo ao bem (acídia) e o amor demasiado a bens menores (avareza, gula e luxúria).
Os assuntos da cântica se desdobram dessa raiz. O Perdão aparece em Manfredi, na lágrima pequena de Bonconte e na oração que encurta a espera; o Destino e o livre-arbítrio, em Marco Lombardo e na objeção de Dante à doutrina do amor; a Arte, em Casella, Oderisi, Bonagiunta e Guinizelli, poetas que falam do próprio ofício; a Política, na invectiva contra a Itália e nos dois sóis de Roma. No fim, Virgílio entrega a Dante um arbítrio «livre, reto e são», e Beatriz o cobra do que fez dele.
A cântica não termina numa tese. Termina numa subida que ela não mostra, com Dante lavado, mas ainda por subir.