Beatriz é a mulher que o Purgatório promete desde o canto VI e entrega no canto XXX: aparece no Paraíso Terrestre, em nuvem de flores, e, em vez de consolar Dante, o chama pelo nome e o acusa. A tradição biográfica a identifica com Beatrice Portinari, a florentina que Dante teria conhecido em criança; dentro do poema ela nunca recebe sobrenome.
Antes de aparecer, é anunciada. Virgílio a nomeia pela primeira vez ao chegar ao limite do que a razão dele alcança, no canto VI, e a promete «rindo e feliz» no alto do monte. No canto XV diz que ela tirará toda fome que a razão não sacia, no XVIII lhe entrega o livre-arbítrio, que ela entende por nobre virtude, e no XXVII é o nome dela, e nenhum argumento, que faz Dante entrar no muro de fogo.
Quando chega, a cena tem três movimentos: reconhecer, julgar e mandar escrever. Dante a reconhece antes dos olhos, por uma virtude oculta que sai dela. Ela diz o nome dele, a única vez em que o poema o faz, e o acusa com o gesto de um almirante que vai à popa e à proa animar a gente dos outros navios. Quando Dante confessa e é lavado, ela o manda olhar o carro e, de volta ao mundo, escrever o que viu.
Na leitura corrente, representa a revelação, a teologia que toma o lugar da razão de Virgílio. O texto dá a personagem: uma mulher exigente, que não acolhe e comanda, e cuja acusação o poema não suaviza.