No canto XVII, Virgílio ensina que todo ato, bom ou mau, nasce de amor: nem o criador nem a criatura jamais foi sem amor, natural ou de ânimo. O amor natural, o instinto, nunca erra; o de ânimo, o da escolha, pode errar por mau objeto, por demasiado ou por pouco vigor. É a tese que organiza a montanha.
A lição vem de uma pergunta de Dante: que ofensa se purga naquela cornija? Virgílio responde com o nome de um amor, e não de um pecado. Chega ao mal do próximo por exclusão, como quem demonstra, e diz que esse amor nasce de três modos, que se purgam nas três cornijas de baixo. O amor frouxo ao bem é o da cornija em que estão, e o amor demasiado a bens menores se purga nas três de cima. O vício deixa de ser espécie à parte: é amor desviado, e se corrige.
No canto XVIII, Virgílio completa a lição com a imagem da cera e do selo: a matéria do amor é boa em todos, mas nem todo selo é bom. Dante então objeta que, se o amor vem de fora e a alma só anda nesse pé, andar direito ou torto não é mérito dela. A objeção ameaçava a possibilidade da penitência, e Virgílio responde até onde a razão vê: de reter o amor há poder em cada um, e a nobre virtude, Beatriz a entende por livre-arbítrio. O resto, diz, é obra de fé, e espera por ela.