O Purgatório pede atenção, mas tem um fio que se segue bem. A subida tem etapas, a regra do lugar é dita em poucas linhas e a doutrina do amor do canto XVII dá a chave de tudo o que vem depois. A dificuldade está menos na ideia do que na forma e nas referências.
A forma é o verso: 33 cantos de tercetos de rima encadeada, com cerca de 140 versos cada um. Uma edição comentada ajuda, porque o poema cita muita gente da Itália do século XIII e de 1300 que o leitor de hoje não conhece: Manfredi, Sordello, Guido del Duca, Forese, Bonagiunta. A política, que vai da invectiva do canto VI aos dois sóis de Roma, cansa quem lê hoje, e é ela que impede o poema de ser só doutrina.
Há três trechos em que a leitura exige mais: a doutrina do amor e do livre-arbítrio (cantos XVII e XVIII), a explicação da geração da alma por Estácio (XXV) e a procissão do Éden, que o poema descreve por cores, gestos e números, sem dar os nomes que os comentadores atribuem a cada figura. O próprio Virgílio fixa o limite da razão: «contentai-vos, gente humana, com o quia».
Um modo prático de ler é um canto por vez, perguntando em cada um quem fala e o que a pessoa aprende a querer. Por ser poesia, o texto funciona melhor lido devagar.