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Quincas Borba

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Um romance publicado por partes

Quincas Borba saiu primeiro em folhetim, de 1886 a 1891, na revista A Estação, do Rio de Janeiro, e foi reunido em livro em 1891, com diferenças em relação ao que a revista trouxera. A história foi escrita, portanto, ao longo de cinco anos, enquanto o país em que ela se passa mudava: a escravidão acabou em 1888, e o Império caiu em 15 de novembro de 1889, com a proclamação da República. Quando o livro apareceu inteiro, o mundo que ele descreve, o de 1867 a 1871, já era passado. Num prólogo posterior, Machado conta que a segunda edição se esgotou mais depressa que a primeira e recusa o pedido de um amigo para escrever uma trilogia com Sofia no centro, porque, diz ele, ela já está toda neste livro (prólogo).

O Rio de Pedro II em 1867

A ação começa em 1867, quando o Brasil era um império governado por Pedro II e o Rio de Janeiro, a Corte, era a capital. A escravidão está em toda parte: o testamento do filósofo inclui escravos entre os bens (capítulo XIV), e no trem Rubião, que pretende vender os que herdou e libertar só o pajem, lê a fala do trono, o discurso do imperador na abertura das Câmaras, que traz uma palavra sobre a "propriedade servil" (capítulo XXI). Na mesma conversa, Palha passa à política, às Câmaras e à guerra do Paraguai, que o Brasil travou de 1864 a 1870 e que ocupava as conversas da época. O fim do livro chega a 1871: nos meses que o narrador deixa passar, ele cita a discussão da lei dos ingênuos (capítulo CXCII), a que se tornaria a Lei do Ventre Livre, de setembro de 1871, que declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante.

A política do Império: ministros e deputados

Camacho, o político que conquista Rubião, ouve dele, na casa de um conselheiro, o relato da sessão em que o Ministério Itaboraí pediu os orçamentos, e comenta com ele a chamada dos conservadores ao poder e a dissolução da Câmara (capítulo LVIII). É a crise de 1868, quando Pedro II trocou o gabinete e o Visconde de Itaboraí passou a presidir o Ministério. O imperador nomeava e demitia os ministros livremente, e por isso o destino de um deputado como Teófilo, deixado de fora do novo Ministério e consolado com uma presidência de província, dependia de uma vontade acima dele (capítulo CLXXII, capítulo CLXXVII). A eleição de deputados era indireta e exigia renda anual mínima, e a candidatura só é oferecida a Rubião depois da herança (capítulo C). Um jornal político podia se montar com a cota de poucos sócios: a Atalaia, folha de Camacho, tem cinquenta contos de capital em dez cotas de cinco, e Rubião entra com uma (capítulo LXI).

De onde vem Quincas Borba e o seu império

O filósofo já aparecera nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881: lá, ele é antigo colega de escola de Brás Cubas, de mendigo passa a herdeiro rico, cria a doutrina do humanitismo e enlouquece. Neste romance, é Brás Cubas quem escreve a Rubião dando a notícia da morte dele (capítulo XIII). A doutrina, que trata a guerra e a vitória como o modo de a vida se conservar (capítulo VI), faz lembrar as teorias de luta pela vida que corriam na Europa depois de A Origem das Espécies, de Darwin, de 1859.

O delírio de Rubião também tem data. Napoleão III governou a França de 1852 a 1870 e perdeu o trono quando os prussianos o capturaram em Sedan, em setembro de 1870. Rubião guarda os bustos de Napoleão I e de Napoleão III sobre a secretária (capítulo CXXXIV), ganha a barba do imperador em janeiro de 1870 (capítulo CXLVI), vê a guerra franco-prussiana agravar as crises (capítulo CLVI) e, na febre final, imagina ter capturado o rei da Prússia (capítulo CXCIX).

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