O tema na obra
A doença é a condição do lugar desde a primeira noite. No capítulo I, a caminho do sanatório (ver O Berghof), Joachim Ziemssen fala dos cadáveres descidos em trenós; no quarto 34 morreu uma americana dois dias antes; no corredor, Hans Castorp ouve a tosse do aristocrata austríaco; e o Dr. Krokowski recebe o visitante sadio dizendo que nunca encontrou um homem em perfeita saúde.
No capítulo III o corpo de Hans Castorp começa a reagir sozinho: o rosto arde, o riso não para, o coração bate sem motivo, e o lenço sai manchado de sangue sem que ele tenha forças para refletir sobre isso. O sr. Albin faz da doença incurável uma dispensa de toda obrigação, e Lodovico Settembrini chama os pacientes de gente decaída. No capítulo IV o italiano formula a doutrina, a doença não é nobre nem digna de reverência, enquanto Krokowski ensina na conferência que toda doença é amor transformado. No fim do capítulo, o termômetro (ver O termômetro) marca 37,6, e o Dr. Behrens declara que o visitante era, clandestinamente, um dos nossos.
No capítulo V a doença deixa de ser hipótese. Hans Castorp passa três semanas de cama, vê na radiografia a própria mão sem carne e, nas leituras noturnas de anatomia e fisiologia, chega a pensar a vida como febre da matéria e a enfermidade como forma licenciosa da vida. Settembrini adverte que a doença e o desespero são formas de licenciosidade, e a paixão por Clawdia Chauchat se dirige a um corpo que a doença transformou, uma vez mais, em corpo.
O livro faz a doença percorrer o caminho inverso ao da cura: começa como coisa dos outros, vira sintoma sem nome, depois diagnóstico, e termina como chave para pensar a própria vida. Settembrini e Krokowski disputam o sentido dela, rebaixamento ou desejo disfarçado, e Hans Castorp não escolhe entre os dois. A frase decisiva é a de Behrens, porque o "um dos nossos" vale menos como medicina do que como admissão: estar doente, no Berghof, é pertencer.
Onde aparece
- Capítulo I: A chegada ao Berghof: os trenós com cadáveres, o quarto desinfetado, a tosse no corredor e a frase de Krokowski sobre a saúde.
- Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini: os sintomas sem nome de Hans Castorp, o sangue no lenço e o revólver do sr. Albin.
- Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro: a doutrina de Settembrini contra a nobreza da doença, a conferência de Krokowski e o diagnóstico de Behrens.
- Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis: a cama, a radiografia e a leitura que faz da vida uma doença da matéria.
Passagens
Krokowski recebe o recém-chegado transformando a saúde em anomalia.
Krokowski recebe a notícia de que o novo hóspede veio sem doença com um sorriso e uma frase que desfaz a ideia de saúde.Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem sequer em perfeita saúde.
O sr. Albin usa a doença incurável como licença para rir de tudo.
Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável [...] Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo…
Settembrini responde a Hans Castorp com a recusa da nobreza da doença.
A doença absolutamente não é nobre, nem digna de reverência, de modo algum., Compra necessária
Behrens transforma o visitante em paciente.
cheguei à opinião bastante firme de que o senhor era, clandestinamente, um dos nossos e acabaria por perceber esse fato, como fizeram tantos outros que vieram aqui para divertir-se, estudaram o ambiente, torcendo o nariz, e um belo dia ficaram sabendo que seria conveniente para eles [...] abandonarem a atitude de curiosidade displicente e passarem aqui uma temporada extensa, O termômetro
Nas leituras da sacada, a doença passa a explicar a própria vida.
A mesma meditação chega ao pecado original como metáfora biológica, fechando o raciocínio que ligou doença, prazer e origem da vida num só movimento.A enfermidade era a forma licenciosa da vida. E a vida, por sua vez? Não passava ela, quiçá, de uma doença infecciosa da matéria [...]? [...] Eis o que era o pecado original.