Clavis Libri

Símbolo

O Berghof

O que é

O sanatório em Davos onde se passa quase todo o romance, e a "montanha mágica" do título: o lugar acima da planície onde o tempo deixa de correr e quem sobe são adoece. Davos é lugar real; o Berghof é invenção do romance e vale pelo que significa.

Onde aparece

Desde o primeiro diálogo, Joachim Ziemssen separa o tempo de cima do tempo de baixo.

Joachim responde relativizando a mesma medida, e é aqui que o vocabulário do sanatório entra pela primeira vez na conversa. Três semanas representam quase nada para nós aqui em cima, mas para você que vem de visita e tenciona demorar-se só três semanas é uma porção de tempo. [...] “Regressar daqui a três semanas” é uma ideia lá de baixo.
Capítulo I: A chegada ao Berghof
Depressa ou devagar, como queira [...] Ele não passa é de modo algum, sabe? Aqui não há tempo nem vida; não há é coisa alguma
Capítulo I: A chegada ao Berghof

No capítulo III o sanatório aparece como liturgia: as sete mesas, as cinco refeições, o repouso com hora certa.

Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas de través. Eram mesas grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas.
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini
colegas de Joachim, companheiros seus de destino, todos enfermos por dentro, a conversar e a tomar seu café da manhã
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini

No capítulo IV Dr. Behrens diz que o ar do lugar é bom contra a doença e bom para ela.

Bem, o ar que temos aqui é bom contra a enfermidade. [...] Mas, ao mesmo tempo, este ar também é bom para a enfermidade; compreende? No começo acelera o seu curso, revoluciona o corpo, fomenta a irrupção da doença latente, e tal irrupção é, com a sua licença, o seu catarro, O termômetro
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro

No capítulo VII o lugar apodrece no grande tédio, e o trovão da guerra o faz explodir.

Com Peeperkorn morto e Clawdia partida outra vez, o Berghof entra num estado que o narrador nomeia com todas as letras. Hans Castorp olhava em torno de si [...] Via coisas inquietantes, perniciosas, e sabia o que via diante de si: era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida como abjeção que se move à medida que estagna, a vida morta.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão
O narrador descreve o efeito sobre o Berghof com a mesma imagem do dorminhoco que abriu a digressão inicial do capítulo: estrondeou o trovão de que todos temos ciência, essa detonação ensurdecedora da mistura sinistra de tédio e irritação há muito acumulados [...] e o trovão que, para nós, porém, faz explodir a montanha mágica e lança ante seus portões, insuavemente, o nosso dorminhoco.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão

O que significa

Carpeaux desloca o assunto do romance do sanatório para o continente: a montanha é a Europa doente antes de 1914.

Sobre A Montanha Mágica em particular, Carpeaux dá duas teses que valem mais que qualquer resumo de enredo. A primeira é sobre o que o livro é: Der Zanberberg (A Montanha Mágica) resume todas as obras anteriores, mas com orientação nova. É o romance de uma decadência, como Os Buddenbrooks, mas não de uma família alemã, e sim da Europa inteira.
A História Concisa da Literatura Alemã - Parte 4 - Do Simbolismo à sombra do muro

O Berghof é ao mesmo tempo o cenário e a doença: é o lugar que retém, pela rotina, pelo ar e pelo diagnóstico, e o romance só sai dele por um acontecimento de fora, o trovão. A planície, "lá embaixo", aparece sempre como o que se deixou, até a última fala de Lodovico Settembrini, que manda descer.

Relações

  • Temas-padrão: Doença, Tempo, Indivíduo e sociedade.
  • Símbolos vizinhos: O termômetro e O relógio, as medidas do tempo de cima.