Clavis Libri

Tema em A Montanha Mágica

Tempo

A passagem do tempo e o que ela faz: duração, envelhecimento, eternidade, o tempo vivido contra o tempo do relógio.

O tema na obra

O tempo entra no romance antes do enredo. No Propósito do capítulo I, o narrador diz que a antiguidade da história não se deve propriamente ao tempo, promete narrá-la com minúcia e brinca que a narração não chegará a sete anos. Na chegada, Hans Castorp fixa a visita em três semanas, e Joachim Ziemssen responde que lá em cima três semanas são quase nada e, no jantar, que ali não há tempo nem vida.

O capítulo II, único recuo à infância, dá ao tema a forma de uma sensação: diante da pia batismal da família, o menino sente algo que se muda e contudo permanece. No capítulo III, Lodovico Settembrini avisa que no sanatório a menor unidade de tempo é o mês, e Hans Castorp, na sacada, enquanto o primo mede a temperatura, improvisa a tese de que o tempo não tem natureza própria e de que as medidas são convenções. O capítulo IV faz disso teoria do narrador: no Excurso sobre o sentido do tempo, o hábito enfraquece o senso de tempo, e o tédio é uma brevidade mórbida provocada pela monotonia. No fim do mesmo capítulo, o termômetro (ver O termômetro) e o exame de Dr. Behrens trocam as três semanas por uma temporada extensa. No capítulo V, de cama, Hans Castorp vive a tese em primeira pessoa: a Sopa eterna descreve o mesmo dia repetido, um agora que parou, um presente sem extensão em que lhe trazem a sopa eternamente.

O capítulo VII abre com outra digressão, Passeio pela praia: o narrador pergunta se é possível narrar o tempo em si e conclui que, onde reina a uniformidade, o movimento já não é movimento e o tempo deixa de existir. Depois da morte de Pieter Peeperkorn, Hans Castorp vê no Berghof (ver O Berghof) a vida sem tempo, a vida morta, e o tédio vira mania coletiva. Sete anos depois da chegada, o trovão da guerra faz explodir a montanha e lança o protagonista de volta à planície.

O romance não usa o tempo como cenário, usa-o como a matéria que o lugar corrói. O tema muda de registro a cada volta: conversa de primos no capítulo I, lembrança de infância no II, filosofia improvisada no III, teoria no IV, experiência vivida no V, confissão de impossibilidade no VII. E o desfecho diz o que a teoria preparava: o que devolve a Hans Castorp o tempo que a montanha suspendeu não é uma decisão dele, é um acontecimento histórico vindo de fora, e ele chega como trovão.

Onde aparece

Passagens

No primeiro jantar, a formulação mais seca do lugar vem de Joachim, e não de nenhum dos pedagogos.

Depressa ou devagar, como queira [...] Ele não passa é de modo algum, sabe? Aqui não há tempo nem vida; não há é coisa alguma
Capítulo I: A chegada ao Berghof

Na infância, o tempo aparece como repetição que não muda nada.

O próprio avô repetia a cada vez, sobre a mesma bacia, o relato de três batismos, o de Hans, o do pai dele e o do próprio avô, cada um com a água caindo na mesma concavidade dourada, e é diante dessa repetição idêntica que o narrador nomeia pela primeira vez o sentimento central do capítulo, a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era tanto reiteração como vertiginosa monotonia.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô

Na sacada, Hans Castorp conclui que as medidas do tempo são convenções.

Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e onde está escrito que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções…
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini

O Excurso dá a teoria do tédio como encurtamento do tempo.

Um conteúdo rico e interessante é [...] capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia, Excurso sobre o sentido do tempo
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro

O Passeio pela praia leva a tese ao limite.

A conclusão da digressão é a fórmula que vai justificar, páginas adiante, o próprio tédio do Berghof: Ali é igual a aqui, e antes é igual a agora e depois; o tempo afoga-se na monotonia imensa do espaço, e onde reina a uniformidade o movimento de um ponto a outro já não é mais movimento. E onde movimento já não é mais movimento, não existe o tempo.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão