Quem é
O avô paterno de Hans Castorp, senador em Hamburgo, em cuja casa o neto, órfão de pai e mãe, morou um ano e meio. Aparecia ao menino de duas formas: o avô do dia a dia e o do retrato de corpo inteiro na sala, com a golilha espanhola e as vestes talares de vereador antigo, e só a segunda valia como verdadeira.
Para a criança, e depois para a lembrança do adulto, era a segunda imagem que valia como autêntica, e a primeira que se reduzia a uma aproximação incompleta dela:para o menino de sete anos tanto como para a recordação do adulto, a imagem cotidiana e familiar do ancião não constituía a genuína e verdadeira.
Trajetória
No Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô mostra ao neto, a pedido dele, a pia batismal de família, uma bacia de prata sobre uma bandeja mais antiga, em cujo reverso estão os nomes dos sete chefes de família que a possuíram, e repete sobre ela, a cada vez, o relato de três batismos.
Ao ouvir o avô recitar os nomes, o menino sentia algo que o narrador descreve como um efeito quase físico, o som dos prefixos genealógicos acumulados soando como vindo de um mundo submerso:esses "bis, tris, tetra", sons obscuros de tumba e de tempos soterrados, que todavia expressavam uma ligação piedosamente mantida entre o presente — a sua própria vida — e aquele mundo submerso.
O próprio avô repetia a cada vez, sobre a mesma bacia, o relato de três batismos, o de Hans, o do pai dele e o do próprio avô, cada um com a água caindo na mesma concavidade dourada, e é diante dessa repetição idêntica que o narrador nomeia pela primeira vez o sentimento central do capítulo,a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era tanto reiteração como vertiginosa monotonia.
No mesmo capítulo morre de pneumonia e é velado na sala das refeições, outra vez com a golilha espanhola e o crucifixo de marfim entre as mãos. É a terceira morte que o neto vê num curto lapso de tempo, depois da mãe e do pai, mortos entre os cinco e os sete anos dele.
Assim o menino aprovou no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre, porque na morteo avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto.
Dessa terceira morte o narrador extrai a formulação com que resume o duplo rosto da morte no romance inteiro:a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza [...] e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, nem sequer de triste.
No Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro volta por dois caminhos: o tique dele, o tremor de cabeça, fica em Hans Castorp depois do passeio solitário e o acomete à mesa, onde ele espera, sobressaltado, o estrondo da porta envidraçada que anuncia Clawdia Chauchat; e, quando Lodovico Settembrini conta o avô Giuseppe, carbonário vestido de preto em luto pela pátria, Hans Castorp o compara ao próprio avô, também sempre de preto, por um motivo oposto.
Certamente, isto são dois mundos, dois pontos cardeais, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
A bacia batismal que aqui volta à memória de Hans Castorp foi apresentada no Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô, e é contra essa imagem de piedade e passado que Settembrini mede o avô rebelde e voltado para o progresso.
No Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis o anel-sinete que ele legou ao neto aparece na radioscopia, preto e frouxo em torno do osso do dedo anular de Hans Castorp.
Terminada a radioscopia de Joachim, Behrens permite a Hans Castorp contemplar a própria mão através do anteparo, e é aqui que o capítulo chega à sua cena mais forte.E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, em meio à qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular pairava, preto e frouxo, o anel-sinete que o avô lhe legara [...]. Com os olhos daquela parenta da família Tienappel, contemplou uma parte familiar do seu corpo [...], e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer.
Temas que encarna
Os temas-padrão que passam por ele são Morte, Tempo e Tradição e modernidade. A leitura da leitura do capítulo II sobre o que a pia batismal instala no romance:
Essa dupla sensação, o tempo como sucessão que ao mesmo tempo não muda nada, nasce de um objeto de família, não de um argumento filosófico, e é essa mesma experiência, deslocada para o sanatório, que vai reaparecer tratada de forma direta em Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro.
Depois do capítulo II, o avô só volta por objetos e gestos: a bacia lembrada no IV, o tremor de cabeça herdado pelo neto, o anel-sinete na mão radiografada no V. O capítulo II diz que o menino reconheceu a forma verdadeira do avô no morto; no V, o anel dele aparece no momento em que Hans Castorp compreende pela primeira vez que está destinado a morrer.
Relações
- Hans Castorp: o neto que morou com ele, herdou o anel-sinete e o tremor de cabeça.
- Lodovico Settembrini: cujo avô Giuseppe, o carbonário, é medido contra ele no capítulo IV.
- O cônsul Tienappel, tio-avô materno, que recolhe o menino depois da morte dele.
- Símbolo ligado a ele: A radiografia, onde aparece o anel-sinete.