Quem é
Nastácia Filíppovna Barachkova é a filha do oficial reformado Filipp Alieksándrovitch Barachkov, órfã ainda criança depois do incêndio que matou a mãe e enlouqueceu o pai, recolhida por Afanassi Ivánovitch Totski, vizinho rico, que aos doze anos lhe deu governanta e estudos e aos dezesseis a instalou na casinha de Otrádnoe, onde a visitou todo verão por quatro anos (capítulo IV da Primeira Parte). Quando soube que ele ia casar, foi sozinha a Petersburgo impedir o casamento, e há cinco anos vive num apartamento pago por ele, com fama de bela inacessível. O romance a apresenta antes de dar-lhe voz: Liev Nikoláievitch Míchkin vê o retrato dela na casa do general Ivan Fiódorovitch Iepántchin, no capítulo III da Primeira Parte, e já ali formula, diante de um pedaço de papel, a pergunta que vai acompanhá-la pelas quatro partes:
Удивительное лицо! [...] Лицо веселое, а она ведь ужасно страдала, а? [...] Это гордое лицо, ужасно гордое, и вот не знаю, добра ли она? Ах, кабы добра! Все было бы спасено!, um rosto surpreendente! [...] O rosto é alegre, e no entanto ela sofreu terrivelmente, não é? [...] É um rosto orgulhoso, terrivelmente orgulhoso, e eis que não sei se ela é boa. Ah, se fosse boa! Tudo estaria salvo!
O que ela é, na origem, ela mesma diz no capítulo IV da Primeira Parte, quando Totski e o general propõem casá-la com Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin e Totski lhe oferece setenta e cinco mil rublos: aceita o dinheiro e recusa o sentido que ele teria.
если она и принимает теперь капитал, то вовсе не как плату за свой девичий позор, в котором она не виновата, а просто как вознаграждение за исковерканную судьбу, se ela agora aceita o capital, não é de modo nenhum como pagamento por sua desonra de moça, da qual ela não tem culpa, mas simplesmente como indenização por um destino estropiado.
Trajetória
No capítulo IV da Primeira Parte, a cena de Petersburgo que mudou a vida de Totski é dita por ela num riso:
ну хоть для того, чтобы мне только посмеяться над тобой вволю, потому что теперь и я наконец смеяться хочу, nem que seja só para rir de você à vontade, porque agora eu também, finalmente, quero rir.
E o narrador dá, pelos olhos do próprio Totski, o que a torna perigosa:
Ничем не дорожа, а пуще всего собой (нужно было очень много ума и проникновения, чтобы догадаться в эту минуту, что она давно уже перестала дорожить собой, и чтоб ему, скептику и светскому цинику, поверить серьезности этого чувства), Настасья Филипповна в состоянии была самое себя погубить, безвозвратно и безобразно, Сибирью и каторгой, лишь бы надругаться над человеком, к которому она питала такое бесчеловечное отвращение, não dando valor a nada, e menos que tudo a si mesma (era preciso muita inteligência e penetração para adivinhar, naquele instante, que ela havia muito deixara de dar valor a si mesma, e para que ele, cético e cínico mundano, acreditasse na seriedade desse sentimento), Nastácia Filíppovna era capaz de arruinar a si própria, irremediavelmente e de modo hediondo, com Sibéria e trabalhos forçados, contanto que ultrajasse o homem por quem sentia uma repulsa tão desumana.
No capítulo VIII da Primeira Parte ela aparece sem convite na casa dos Ívolguin, toma o príncipe por lacaio e lhe joga a peliça. No capítulo IX da Primeira Parte zomba da família de Gánia e desmascara com um jornal a história do general Ívolguin. No capítulo X da Primeira Parte, quando Varvara Ardaliónovna Ívolguina a chama de sem-vergonha e o príncipe leva a bofetada de Gánia no lugar da irmã, ele a repreende, e ela admite a encenação:
А вам и не стыдно! Разве вы такая, какою теперь представлялись. Да может ли это быть! [...] Я ведь и в самом деле не такая, он угадал, e a senhora não tem vergonha? Por acaso é assim como acabou de se mostrar? Pode lá ser! [...] Eu de fato não sou assim, ele adivinhou.
Na festa do aniversário, no capítulo XIV da Primeira Parte, recusa o noivado arranjado com Gánia perguntando ao príncipe, que conheceu naquela manhã, se deve aceitá-lo:
За… за кого? [...] Н-нет… не выходите!, com... com quem? [...] N-não... não se case!
E explica a Totski e ao general por que a palavra do estranho vale mais que a deles:
А князь для меня то, что я в него в первого, во всю мою жизнь, как в истинно-преданного человека поверила. Он в меня с одного взгляда поверил, и я ему верю., e o príncipe, para mim, é aquele em quem eu, pela primeira vez em toda a minha vida, acreditei como num homem verdadeiramente dedicado. Ele acreditou em mim com um só olhar, e eu acredito nele.
No capítulo XV da Primeira Parte, Parfen Semeónovitch Rogójin entra com o bando e põe na mesa os cem mil rublos, e ela repete o preço em voz alta:
Во сто тысяч меня оценил! [...] Да неужто ты меня в свою семью ввести хотел? Меня-то, Рогожинскую!, me avaliou em cem mil! [...] Será que você queria mesmo me levar para a sua família? A mim, a mulher de Rogójin!
Minutos depois o príncipe a pede em casamento e inverte a condição que ela mesma pôs:
Возьмете как есть, без ничего! [...] Возьму, Настасья Филипповна… [...] Я вас честную беру, Настасья Филипповна, а не Рогожинскую, vai me aceitar assim como estou, sem nada! [...] Aceito, Nastácia Filíppovna... [...] Eu a aceito honrada, Nastácia Filíppovna, e não como a mulher de Rogójin.
No capítulo XVI da Primeira Parte chega a notícia da herança do príncipe, ela anuncia por um instante que vai casar com ele e então o recusa, nomeando-se com a pior palavra:
Я Тоцкого наложницей была… Князь! тебе теперь надо Аглаю Епанчину, а не Настасью Филипповну [...] Вот так-то вы все: или с бесчестными, или с честными женщинами знаться, — один выбор!, eu fui concubina de Totski... Príncipe! agora você precisa é de Aglaia Iepántchina, e não de Nastácia Filíppovna [...] Assim são vocês todos: ou se relacionar com as desonradas, ou com as honradas, uma escolha só!
Confirma que sonhou com um homem como ele nos cinco anos de Otrádnoe:
Разве я сама о тебе не мечтала? Это ты прав, давно мечтала, еще в деревне у него, пять лет прожила одна-одинехонька; думаешь-думаешь, бывало-то, мечтаешь-мечтаешь, — и вот всё такого, как ты воображала, доброго, честного, хорошего и такого же глупенького, что вдруг придет да и скажет: «Вы не виноваты, Настасья Филипповна, а я вас обожаю!», por acaso eu mesma não sonhei com você? Nisso você tem razão, sonhei faz tempo, ainda na aldeia dele, morei cinco anos sozinha; a gente pensa e pensa, sonha e sonha, e é sempre alguém assim como você, bom, honesto, bondoso e bobinho do mesmo jeito, que de repente chega e diz: a senhora não tem culpa, Nastácia Filíppovna, e eu a adoro!
Antes de partir com Rogójin, joga o pacote dos cem mil no fogo e desafia Gánia a tirá-lo com as mãos nuas:
Видишь ты эту пачку, в ней сто тысяч! [...] Как только огонь обхватит ее всю, — полезай в камин, но только без перчаток, с голыми руками [...] Вытащишь — твоя, все сто тысяч твои!, está vendo este pacote? Nele há cem mil! [...] Assim que o fogo pegar nele inteiro, enfie-se na lareira, mas sem luvas, de mãos nuas [...] Tirou, é seu, os cem mil são seus!
E se despede do príncipe com a frase que é ao mesmo tempo homenagem e justificativa:
в первый раз человека видела!, pela primeira vez vi um ser humano!
Nos seis meses seguintes, contados por boato no capítulo I da Segunda Parte, Rogójin a acha e a perde duas vezes em Moscou, e ela foge pela terceira vez quase do pé do altar. No capítulo II da Segunda Parte, escondida na casa de Liébediev, ouve dele a interpretação do Apocalipse, que a impressiona muito:
мы при третьем коне, вороном, и при всаднике, имеющем меру в руке своей, так как всё в нынешний век на мере и на договоре, и все люди своего только права и ищут, estamos no tempo do terceiro cavalo, o preto, e do cavaleiro que tem a balança na mão, porque no século de agora tudo é medida e contrato, e todos os homens só procuram o próprio direito.
No capítulo III da Segunda Parte, Rogójin conta ao príncipe o que houve em Moscou (o espancamento, a porta destrancada para mostrar que não o temia, a lista de livros para ele ler) e revela, contra a vontade, para quem é o amor dela:
Другого она любит, — вот что пойми! Точно так, как я ее люблю теперь, точно так же она другого теперь любит. А другой этот знаешь ты кто? Это ты!, Ela ama outro, é isso que você tem de entender! Do mesmo jeito que eu a amo agora, do mesmo jeito ela ama outro agora. E sabe quem é esse outro? É você!
No capítulo X da Segunda Parte, de uma caleche, grita a Ievguiêni Pávlovitch Radomski, diante dos Iepántchin, que Rogójin comprou as promissórias dele. No capítulo II da Terceira Parte, no vauxhall, anuncia em público o suicídio do tio de Radomski e corta com uma bengala o rosto do oficial que pedia o chicote para ela; o príncipe, ao vê-la depois de três meses, sente a mesma pena que o retrato despertou, agora com horror. No capítulo III da Terceira Parte, Rogójin conta que ela quer casar o príncipe com Aglaia e escreve cartas à outra:
так она еще не разлюбила тебя [...] Ты ведь знаешь, что она тебя с тою непременно повенчать хочет, слово такое дала, хе-хе! [...] Говорит: «Хочу его счастливым видеть», — значит, стало быть, любит, ela, então, ainda não deixou de te amar [...] Tu sabes que ela quer de todo jeito te casar com aquela, deu palavra, he-he! [...] Diz ela: quero vê-lo feliz; então quer dizer que ama.
No capítulo VIII da Terceira Parte, no banco verde, o príncipe dá a Aglaia Ivánovna Iepántchina o diagnóstico que o romance assume como o dele: ela se julga a mais decaída de todos, e é essa convicção, não os fatos, que a rege.
Эта несчастная женщина глубоко убеждена, что она самое павшее, самое порочное существо из всех на свете [...] что она сама, первая, не верит себе и что она всею совестью своею верит, напротив, что она… сама виновна, Essa mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais caído, mais depravado de todos no mundo. [...] que ela é a primeira a não acreditar em si mesma, e que com toda a sua consciência moral acredita, ao contrário, que ela... que ela mesma é culpada.
No capítulo X da Terceira Parte o príncipe lê as cartas que ela escreve à rival. Nelas, ela se declara descartável diante de Aglaia:
но вы для меня — совершенство! Я вас видела, я вижу вас каждый день. Ведь я не сужу вас; я не рассудком дошла до того, что вы совершенство; я просто уверовала, mas a senhora, para mim, é a perfeição! Eu a vi, eu a vejo todo dia. Pois eu não a julgo; não foi pela razão que cheguei a achar que a senhora é a perfeição; eu simplesmente passei a crer.
Descreve um quadro que só existe na sua imaginação, um Cristo pensativo, sozinho com uma criança:
Христос его слушал, но теперь задумался [...] мысль, великая, как весь мир, покоится в его взгляде; лицо грустное, Cristo o escutava, mas agora ficou pensativo [...] um pensamento, grande como o mundo inteiro, repousa no olhar dele; o rosto é triste.
Antecipa, com plena lucidez, o próprio fim:
но я знаю их тайну [...] Я уверена, что у него в ящике спрятана бритва, обмотанная шелком, как и у того московского убийцы [...] Я бы его убила со страху… Но он меня убьет прежде…, mas eu sei o segredo deles. [...] Tenho certeza de que ele tem na gaveta uma navalha escondida, enrolada em seda, como aquele assassino de Moscou [...] Eu o mataria de medo... Mas ele vai me matar antes...
Na mesma noite, ajoelhada na rua, faz ao príncipe a pergunta que ele não responde:
Ты счастлив? Счастлив? — спрашивала она. — Мне только одно слово скажи, счастлив ты теперь?, Tu és feliz? Feliz?, perguntava ela, só me diz uma palavra: estás feliz agora?
No capítulo VIII da Quarta Parte, na casa de Dária Alieksêievna, recebe Aglaia, que lhe diz o que ninguém tinha dito na cara dela:
Вы его, такого простого, не могли полюбить, и даже, может быть, про себя презирали и смеялись над ним, могли полюбить только один свой позор и беспрерывную мысль о том, что вы опозорены, и что вас оскорбили. Будь у вас меньше позору, или не будь его вовсе, вы были бы несчастнее…, A ele, tão simples, a senhora não pôde amar, e talvez até o desprezasse e risse dele por dentro; só pôde amar a sua desonra e a ideia contínua de que foi desonrada e ofendida. Se tivesse menos desonra, ou nenhuma, seria mais infeliz...
Humilhada diante do príncipe, ela oferece o príncipe à outra e, minutos depois, ameaça ordenar que ele escolha ali mesmo:
А хочешь, я сейчас… при-ка-жу, слышишь ли? только ему при-ка-жу, и он тотчас же бросит тебя и останется при мне навсегда и женится на мне, а ты побежишь домой одна? Хочешь, хочешь?, E se você quiser, eu agora... or-de-no, está ouvindo? basta eu or-de-nar a ele, e ele larga você na hora e fica comigo para sempre e se casa comigo, e você corre sozinha para casa? Quer, quer?
Ele hesita, Aglaia foge, e ela desmaia nos braços dele. No capítulo IX da Quarta Parte o casamento é marcado depressa, por vontade dela, e o noivo confessa a Radomski o que sente diante dela:
я этого никому не говорил, никогда, даже Аглае, но я не могу лица Настасьи Филипповны выносить… [...] я смотрел на ее лицо! Я еще утром, на портрете, не мог его вынести… Вот у Веры, у Лебедевой, совсем другие глаза; я… я боюсь ее лица!, nunca disse isto a ninguém, nunca, nem a Aglaia, mas eu não consigo suportar o rosto de Nastácia Filíppovna... [...] eu olhava para o rosto dela! Já de manhã, no retrato, não consegui suportá-lo... Vera, a Liébedieva, tem olhos completamente diferentes; eu... eu tenho medo do rosto dela!
No capítulo X da Quarta Parte, na véspera, cai de joelhos e pergunta o que está fazendo com ele; no dia do casamento, à porta da casa de Dária Alieksêievna, vestida de noiva, vê Rogójin na multidão e corre para ele:
Спаси меня! Увези меня! Куда хочешь, сейчас!, Me salva! Me leva embora! Para onde você quiser, agora!
Rogójin a leva à estação. No capítulo XI da Quarta Parte o príncipe a procura por um dia inteiro em Petersburgo; no antigo apartamento dela ficou um livro aberto, Madame Bovary:
увидал на столике развернутую книгу из библиотеки для чтения, французский роман M-me Bovary, заметил, загнул страницу, на которой была развернута книга, попросил позволения взять ее с собой, viu sobre a mesinha um livro aberto, de uma biblioteca de empréstimo, o romance francês Madame Bovary, reparou nele, dobrou a página em que o livro estava aberto, pediu licença para levá-lo consigo.
À noite Rogójin o leva para dentro de casa e mostra o corpo atrás da cortina:
В ногах, сбиты были в комок какие-то кружева, и на белевших кружевах, выглядывая из-под простыни, обозначался кончик обнаженной ноги; он казался как бы выточенным из мрамора и ужасно был неподвижен. Князь глядел и чувствовал, что чем больше он глядит, тем еще мертвее и тише становится в комнате. Вдруг зажужжала проснувшаяся муха, пронеслась над кроватью и затихла у изголовья., Aos pés, umas rendas estavam embaladas num bolo, e sobre a renda branca, despontando do lençol, desenhava-se a ponta de um pé nu; parecia talhado em mármore e estava terrivelmente imóvel. O príncipe olhava e sentia que, quanto mais olhava, mais morto e silencioso ficava o quarto. De repente, uma mosca que despertara zumbiu, passou por cima da cama e se calou junto à cabeceira.
Temas que encarna
O romance nunca resolve a tensão entre a culpa que ela não tem e a culpa que ela se atribui, e é essa recusa a resolver que a torna difícil de escrever sobre. Ela mesma declara diante de Totski e do general que não tem culpa da desonra (capítulo IV da Primeira Parte), Míchkin repete o diagnóstico na noite em que a pede em casamento (capítulo XVI da Primeira Parte) e outra vez a Aglaia (capítulo VIII da Terceira Parte), e ainda assim é o julgamento dela sobre si mesma que governa cada decisão que toma, do desafio com o dinheiro em chamas (capítulo XVI da Primeira Parte) à fuga final (capítulo X da Quarta Parte). Tratá-la só como vítima apaga a segunda metade da frase, tratá-la só como responsável pela própria queda apaga a primeira: o livro pede as duas ao mesmo tempo, e esse é o centro do tema de Compaixão e caridade, que ela recusa sempre que a sente vinda de cima.
A recusa da saída negociada não é uma vez, são várias: ela recusa Totski, recusa Gánia, aceita e depois rejeita Míchkin, e escolhe Rogójin sabendo exatamente o que ele é, o bastante para prever por escrito a própria morte pela mão dele no fim da Terceira Parte (capítulo X da Terceira Parte). Isso não é passividade nem falta de opção, é agência aplicada contra si mesma, o que separa Nastácia de uma personagem que a trama simplesmente atropela.
A morte fecha essa agência sem cancelá-la: ela não se mata, é assassinada por Rogójin, e a diferença importa porque o romance a mantém sujeito até o fim, alguém que escolheu o risco e não a saída, não alguém que decidiu terminar a própria história com as próprias mãos.
Os dois quadros de Cristo dividem a Terceira Parte sem que nenhum personagem os confronte diretamente: o que Hippolit Tieriêntiev descreve na casa de Rogójin, no capítulo VI da Terceira Parte, é um corpo espancado e vencido pela matéria; o que Nastácia Filíppovna imagina nas cartas do capítulo X da Terceira Parte é manso, pensativo, junto de uma criança. Um pertence à casa que a vai matar, o outro à mente de quem vai morrer nela, e o romance nunca precisa dizer que são a mesma pergunta feita de dois lugares.
В картине же Рогожина о красоте и слова нет; это в полном виде труп человека, вынесшего бесконечные муки [...] На картине это лицо страшно разбито ударами, вспухшее, со страшными, вспухшими и окровавленными синяками, глаза открыты, зрачки скосились; большие, открытые белки глаз блещут каким-то мертвенным, стеклянным отблеском, Já no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza; é, por inteiro, o cadáver de um homem que suportou tormentos sem fim [...] No quadro, esse rosto está terrivelmente desfeito pelos golpes, inchado, com hematomas terríveis, inchados e ensanguentados, os olhos abertos, as pupilas enviesadas; os grandes brancos dos olhos, abertos, brilham com um reflexo morto, vítreo.
O livro que ela deixa aberto no antigo apartamento, Madame Bovary (capítulo XI da Quarta Parte), não é um adereço: é a única vez em que o próprio texto aponta um par de leitura para ela, e o par não é uma santa nem uma pecadora redimível, é outra mulher que também tratou o próprio fim como o único gesto que lhe restava para narrar a si mesma.
Relações
- Liev Nikoláievitch Míchkin: é o único que trata a origem dela como irrelevante para o próprio valor dela; pede-a em casamento na noite do aniversário (capítulo XV da Primeira Parte) e aceita o casamento que ela marca na Quarta Parte (capítulo IX da Quarta Parte), e das duas vezes ela foge com Rogójin (capítulo XVI da Primeira Parte, capítulo X da Quarta Parte).
- Parfen Semeónovitch Rogójin: paga por ela desde os brincos de brilhante contados no trem (capítulo I da Primeira Parte), é escolhido por ela mesmo depois de ela prever, nas cartas, que ele vai matá-la (capítulo X da Terceira Parte), e a mata (capítulo XI da Quarta Parte).
- Afanassi Ivánovitch Totski: o tutor que a tomou adolescente como amante e depois tenta se livrar dela casando-a com Gánia (capítulo IV da Primeira Parte); ela o liberta de graça diante de todos na festa (capítulo XIV da Primeira Parte).
- Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin: o noivo que a aceitaria pelo dote, a quem ela humilha na casa dele (capítulo X da Primeira Parte) e diante de quem queima os cem mil (capítulo XVI da Primeira Parte).
- Aglaia Ivánovna Iepántchina: a rival diante de quem Nastácia se declara descartável nas cartas (capítulo X da Terceira Parte) e diante de quem, no confronto, ameaça ordenar ao príncipe que fique com ela (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Hippolit Tieriêntiev: nunca fala diretamente com ela, mas descreve o quadro de Cristo morto que o livro põe em contraponto ao quadro que ela imagina (capítulo VI da Terceira Parte), e arranja, por meio de Rogójin, o encontro dela com Aglaia (capítulo VIII da Quarta Parte).