Clavis Libri

Personagem

Julien Sorel

Filho de carpinteiro em Verrières, memória prodigiosa, latinista de cor e leitor clandestino de Napoleão. É o protagonista, e o romance existe para acompanhar o cálculo dele por dentro, sem absolver e sem condenar.

O que o move

Não é ganância, é lugar. Julien quer entrar num mundo que decidiu não deixá-lo entrar, e percebe cedo que a época fechou a porta pela qual entraria: a farda fazia general aos trinta no tempo de Napoleão, e o que sobrou é a batina (ver A farda e a batina).

A palavra para o método não é dele, é do narrador: hipocrisia, e Stendhal a escreve sem eufemismo, ciente de que ela choca.

Antes disso, no mesmo capítulo, vem a explicação do método: A palavra surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho.
Livro I, capítulo 5: Uma negociação

O ressentimento vem antes da ambição, e nasce de uma comparação doméstica, não de teoria política: ele apanha em casa e vê, do lado de fora, gente que vive bem.

O próprio Julien registra, sem dramatizar, a régua que vai usar dali por diante: Que diferença em relação a mim, pensou Julien. Ontem mesmo meu pai me bateu. Como essa gente rica é feliz!
Livro I, capítulo 6: O tédio
Cap. VIII. Julien lendo às escondidas o livro que o guia: Quando o sr. de Rênal estava na cidade, o que acontecia com frequência, arriscava-se a ler; dentro de pouco tempo, em vez de ler à noite, e tomando o cuidado de esconder a lâmpada num vaso de flores emborcado, pôde se entregar ao sono; de dia, no intervalo das lições das crianças, ia aos rochedos com o livro que era sua única regra de conduta e objeto exclusivo de seu arrebatamento. Encontrava nele, a um só tempo, felicidade, êxtase e consolo nas horas de desânimo.
Livro I, capítulo 8: Pequenos acontecimentos
Cap. IX. Julien queimando o retrato de Napoleão escondido no colchão: Toda a minha reputação destruída, aniquilada num segundo!, pensava Julien enquanto via a caixa queimar, e minha reputação é o meu único bem, é só por ela que vivo… E ainda assim, que vida, meu Deus!
Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo

O método, e onde ele foi aprendido

Em Verrières a conquista é encenação militar: cada gesto com a senhora de Rênal é campanha, com dever imposto a si mesmo e vitória contabilizada.

Cap. X. Depois de arrancar o aumento, Julien sobe ao bosque e dá nome ao que fez no vocabulário do chefe que admira, a guerra: Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!
Livro I, capítulo 10: Um grande coração

No seminário (ver O seminário de Besançon) ele descobre que mérito não é moeda, e que inteligência exposta é risco. É a lição mais dura do livro e a que muda o personagem de vez.

Julien percebe que seus primeiros passos foram equivocados: a ciência e a lógica, que o distinguiram em Verrières, aqui não valem, e o momento em que ele entende a regra do lugar está nesta constatação amarga: Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico

Em Paris o método se refina até a frieza pura, e ele passa a usar em Mathilde uma tática que nem sequer é sua, emprestada de um terceiro: mostrar o contrário do que se espera.

lembre-se do grande princípio do século: mostre-se o contrário do que esperam do senhor. Aja exatamente tal como agia oito dias antes de ser honrado com seus favores.
Livro II, capítulo 24: Estrasburgo
Cap. V. O que a religião significava para Julien: Julien surpreendeu-se; a ideia de religião estava indiscutivelmente ligada, em seu espírito, à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro.
Livro II, capítulo 5: A sensibilidade e uma grande piedade
Julien no seminário, entre inimigos: Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico

Onde ele se desmente

O personagem seria pequeno se fosse coerente. O que o salva é que o cálculo falha exatamente nos momentos decisivos: quando a carta da senhora de Rênal desfaz o casamento e o futuro que já estavam nas mãos, ele não manobra para salvar o que resta, atira nela na igreja e perde tudo de vez, e depois, preso, escolhe a paz de dois meses com a senhora de Rênal em vez de qualquer manobra para escapar.

Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Livro II, capítulo 43

No tribunal ele faz o oposto do que a ambição mandaria: em vez de se defender, acusa, e transforma o próprio julgamento em acusação de classe.

Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.
Livro II, capítulo 41: O julgamento
Julien na prisão, pensando na sra. de Rênal: Depois de uma ação dessas, como persuadi-la de que é a ela que amo, unicamente? Pois, afinal, quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde.
Livro II, capítulo 42
Julien na prisão: Contudo, é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar.
Livro II, capítulo 40: A tranquilidade

O tonel furado, e a saída que só a prisão dá

Pelo Górgias, a ambição de Julien é o tonel furado: cada vitória escoa no instante em que se completa. Ele acaba de virar La Vernaye e pensa que o romance dele terminou, e dois dias depois o posto de tenente já é pouco. O arco dele, porém, não é o de Mathilde. Ela oscila sem sair do lugar; ele só encontra a vida que se satisfaz com o dia presente na prisão, quando os dias estão contados, e é essa a ironia do livro: a temperança chega quando já não há futuro a disputar.

a porção da alma dos não iniciados em que se localizam as paixões, justamente por ser incontentável e nada reter, comparou a um tonel furado, por isso mesmo que nunca revela saciedade
Górgias
Em Estrasburgo, dois dias depois da patente, a vitória já não basta: Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos.
Livro II, capítulo 35: Uma tormenta
O mito serve a Sócrates para uma escolha entre duas vidas, e a temperança é o nome da que não vaza: Cálicles deveria em vez de uma vida intemperante e insaciável preferires a bem ordenada e que se satisfaz com o que o dia presente lhe oferece
Górgias

O pêndulo de Arthur Schopenhauer serve a ele pelo contraste. Julien não conhece o tédio de Mathilde, conhece só a falta, e sai da oscilação não pela negação da vontade, mas pelo amor recuperado pela senhora de Rênal.

A vida do homem oscila, como uma pêndula, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos.
Dores do Mundo - Parte 1 - As dores do mundo

O lugar dele na máquina da Restauração

O bonapartismo de Julien costuma ser lido como excentricidade de leitor solitário, e o próprio romance desmente isso: a mesma nostalgia que ele guarda escondida é o que os pedreiros do claustro dizem em voz alta, sem ler nada.

Julien ouve por acaso, no jardim, os pedreiros do claustro comentarem o recrutamento, e a conversa deles nomeia sem rodeios o que a Restauração fechou: No tempo do outro, aí sim! Um pedreiro se tornava oficial, se tornava general, a gente via isso acontecer.
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção
Ao se afastar, Julien repete baixinho a mesma nostalgia dos pedreiros, prova de que seu bonapartismo não é peculiaridade de leitura, é sentimento vivo na rua: O único rei de que o povo se lembra!
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Isso muda a natureza do personagem. Admirar Napoleão em 1830 não é gosto literário, é posição política proibida, e a hipocrisia dele deixa de ser vício de caráter para virar a única língua disponível a quem pensa assim e quer comer.

No seminário ele descobre que a briga não é teológica. Abade Pirard é jansenista e Abade de Frilair é o homem da congregação, e Julien é punido por estar do lado que perdeu, com uma precisão administrativa que o livro faz questão de nomear.

O alcance da rede que arma essa vingança é descrito sem meias palavras: aquele homem hábil que organizara tão sabiamente a rede da congregação de Besançon e cujas missivas para Paris faziam tremer juízes, o governador e até os oficiais da guarnição, escrevesse, de próprio punho, o número 198 ao lado do nome de Julien.
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Em Paris, quem lhe explica a própria posição é o conde Altamira, condenado à morte no país dele, e a frase divide a mesa em duas espécies de estrangeiro.

O senhor e eu, nesse jantar, seremos os únicos sem mancha de sangue, mas eu serei desprezado e quase odiado como um monstro sanguinário e jacobino, e o senhor, desprezado simplesmente como homem do povo, um intruso na boa sociedade.
Livro II, capítulo 9: O baile

A carreira dele chega ao ponto mais alto quando vira instrumento político, e não quando vira genro: no capítulo XXI do Livro segundo, o Marquês de La Mole o leva a uma reunião conspirativa de que ele redige a ata, e é a nota secreta tirada dela, a de uma conjura ultrarrealista, que Julien decora e transporta.

vou levá-lo a um salão onde doze pessoas estarão reunidas; o senhor deverá anotar o que cada um disser.
Livro II, capítulo 21: A nota secreta
A nota secreta que o marquês redigiu, baseada na longa ata de vinte e seis páginas escrita por Julien, só ficou pronta às quinze para as cinco.
Livro II, capítulo 23: O clero, os bosques, a liberdade

E o fecho é a mesma máquina fechando a mão sobre ele. O discurso ao júri é acusação de classe, e o júri que o ouve tinha sido arranjado pelo padre de Frilair, que contava com seis jurados e lhes deu a entender que o bispado dependia deles. O arranjo era para salvá-lo, e quem o desfaz é Valenod, o agente do próprio Frilair, que já tem no bolso a nomeação para governador e se dá o prazer de condenar o antigo rival.

Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.
Livro II, capítulo 41: O julgamento
Ela lhe contou que, no dia do julgamento, o sr. de Valenod, tendo no bolso sua nomeação para governador, ousara zombar do padre de Frilair e dar-se o prazer de condenar Julien à morte.
Livro II, capítulo 44

Julien é condenado, portanto, por um tribunal que funciona exatamente como a carreira que ele tentou escalar. É a ironia mais dura do livro, e ela só aparece quando se lê o processo como política, e não como desfecho romanesco.

Por que ele reaparece fora do livro

Julien é o modelo do arrivista moderno, e a discussão que ele abre não envelheceu: quando a hipocrisia é a única língua disponível para quem não nasceu no lugar certo, ela é defeito de caráter ou resposta racional? É o mesmo terreno de Rodion Românovitch Raskólnikov em Crime e Castigo, com uma diferença que vale a comparação: Raskólnikov mata por teoria e desmorona por consciência, Julien calcula por posição e desmorona por afeto.