Clavis Libri

Personagem

Minos

Quem é

Minos é o juiz do Inferno. Está à entrada do segundo círculo, rosnando de modo horrível, e ali examina as culpas das almas que chegam, julga e manda cada uma ao círculo que lhe cabe, enrolando a cauda em volta do corpo tantas vezes quantos os graus que quer que ela desça. O poema o faz conhecedor dos pecados, a quem uma alma se confessa inteira, e a quem, como diz uma alma do fundo, errar não é permitido. Não é ele quem decide o que é pecado: aplica a medida, e a ordem que o antecede vem de outra parte. O nome vem do mito, e o ofício, da tradição clássica.

O Minos do mito é o rei de Creta que, depois de morto, se torna um dos juízes do submundo, e a Eneida já o mostra, no Livro VI, separando e julgando as almas, como se lê em Minos.

Reaparece em mais quatro cantos, sempre de passagem, mas sempre pela mesma função: a alma que se arranca do próprio corpo é mandada por ele à sétima boca do Inferno, Anfiarau cai até chegar a ele, Guido da Montefeltro é levado a ele por um diabo, e um alquimista é por ele condenado na última das dez valas.

Trajetória

No canto V do Inferno, Dante desce ao segundo círculo e dá com Minos, que examina as culpas na entrada. A alma mal nascida se confessa inteira diante dele, e ele vê qual lugar do Inferno lhe cabe e se cinge com a cauda tantas vezes quantos os graus que a alma deve descer. Sempre há muitas diante dele, e cada uma vai a seu turno: dizem, ouvem e são lançadas para baixo. Quando vê Dante, deixa o ato do ofício e o avisa de que não se engane com a largura da entrada. Virgílio o corta com a mesma fórmula que usou com Caronte no canto III do Inferno. Ali ela soa assim:

Caron, non ti crucciare: / vuolsi così colà dove si puote / ciò che si vuole, e più non dimandare, Caronte, não te irrites: quer-se assim lá onde se pode o que se quer, e não perguntes mais.
Cantos I a IV: A selva e a porta

E aqui, a Minos, palavra por palavra:

Non impedir lo suo fatale andare: / vuolsi così colà dove si puote / ciò che si vuole, e più non dimandare, não impeças o seu fatal andar: quer-se assim lá onde se pode o que se quer, e não perguntes mais.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

No canto XIII do Inferno, Minos reaparece na fala do tronco que explica a Virgílio o destino da alma que se arranca do próprio corpo: Minos a manda à sétima boca. No canto XX do Inferno, Virgílio mostra Anfiarau, a quem a terra se abriu diante dos tebanos e que não parou de cair até chegar a Minos, que agarra cada um. No canto XXVII do Inferno, Guido da Montefeltro conta que o diabo o levou a Minos, que enrolou a cauda oito vezes no dorso duro, mordeu-a de raiva e o sentenciou ao fogo. No canto XXIX do Inferno, um alquimista conta que, na última das dez valas, Minos, a quem errar não é permitido, o condenou pela alquimia que praticou no mundo.

Temas que encarna

Minos é a Justiça e lei em ato: não decide o que é pecado, mede-o. O Pecado que cada alma confessa a ele é o que define o círculo em que ela vai viver para sempre, e a cauda que o enrola é o instrumento da medida. A cena que importa é a do canto V do Inferno: o juiz fala a Dante vivo, e é Virgílio quem o cala, com a razão de uma vontade que ele conhece e não discute.

O Inferno de Dante é uma máquina de ordem, com um juiz, uma medida e uma vontade acima do juiz, e Minos é a figura em que o poema concentra o primeiro desses três elementos. A medida em que ele trabalha é a do desenho que Virgílio traça no canto XI do Inferno: a figura serve ao desenho, e o desenho é anterior a ela.

Leituras divergentes

O poema mostra dois lados da autoridade de Minos. No canto V do Inferno ele é detido por uma ordem que o supera, e o texto não diz se cede por humilhação ou por conhecer de onde vem a vontade invocada, só que a fórmula basta. No canto XXVII do Inferno e no canto XXIX do Inferno a sua autoridade sobre os condenados é plena: um diabo lhe leva Guido, e o alquimista diz dele que errar não lhe é permitido.

As duas figuras não se contradizem: Minos é absoluto sobre as almas e limitado pela vontade que as põe ali. O leitor aprende a hierarquia do Inferno por ele.

Relações