Quem é
Lúcifer é o imperador do reino doloroso, preso no gelo do Cocito até a metade do peito, no centro da Terra, onde o poema coloca o ponto para o qual todo peso converge. Quem o apresenta é Virgílio, que o chama de Dite e diz a Dante que ali é preciso armar-se de fortaleza; o nome Lúcifer aparece em outro canto, quando o gigante Anteu pousa os dois no fundo que devora Lúcifer com Judas, e Belzebu é o nome com que o narrador o designa quando fala do lugar mais distante dele. Dite é também o nome da cidade murada que abre o Inferno baixo (canto VIII do Inferno e canto IX do Inferno). Tem três faces, seis olhos, seis asas de morcego, e em cada boca dilacera um pecador. O que o define é o contraste entre o que foi e o que é, a beleza perdida medida pela feiura de agora, e o fato de que o mal que ele representa não é majestoso: chora, baba sangue, e o vento das asas é o que congela o lago em que está preso.
Trajetória
No canto XI do Inferno, Virgílio já o situa no desenho do abismo: no círculo menor, no ponto do universo onde Dite se assenta, o traidor é consumido para sempre. No canto XXXI do Inferno, Anteu desce os dois ao fundo que devora Lúcifer com Judas, e só no canto XXXIV do Inferno ele é visto. O canto abre com Virgílio completando um verso do hino da Cruz, e Dante, que vê de longe um edifício de moinho girando ao vento, recua para trás de Virgílio. Quando chegam perto, Virgílio se põe de lado e o faz parar, apontando a criatura que teve o belo semblante. A reação de Dante é de silêncio:
Io non mori’ e non rimasi vivo; / pensa oggimai per te, s’hai fior d’ingegno, / qual io divenni, d’uno e d’altro privo, eu não morri e não fiquei vivo; pensa agora por ti, se tens flor de engenho, qual me tornei, privado de um e de outro.
Lúcifer sai do gelo da metade do peito para cima, e Dante, em proporção, se parece mais com um gigante do que os gigantes se parecem com os braços dele. O poeta tira a conclusão do estado em que o vê: se foi tão belo quanto agora é feio e contra o criador ergueu as sobrancelhas, bem deve proceder dele todo luto. Dante conta as três faces: a da frente vermelha, a da direita entre branca e amarela, a da esquerda da cor dos que vêm de onde o Nilo desce. Sob cada uma saem duas grandes asas, sem penas, de feitio de morcego:
sì che tre venti si movean da ello: / quindi Cocito tutto s’aggelava. / Con sei occhi piangëa, e per tre menti / gocciava ’l pianto e sanguinosa bava, de modo que três ventos dele se moviam: dali Cocito todo se congelava. Com seis olhos chorava, e por três queixos gotejava o pranto e a baba sanguinolenta.
Em cada boca ele dilacera um pecador com os dentes, como uma gramadeira de linho. Ao da frente o morder era nada diante do arranhar, que às vezes deixava a pele das costas toda pelada. Virgílio o nomeia:
Quell’ anima là sù c’ha maggior pena», / disse ’l maestro, «è Giuda Scarïotto, / che ’l capo ha dentro e fuor le gambe mena, aquela alma lá em cima que tem a maior pena, disse o mestre, é Judas Iscariotes, que tem a cabeça dentro e agita as pernas fora.
Os outros dois, de cabeça para baixo e para fora da boca, são Bruto, que pende da boca negra e se contorce sem fazer ruído, e Cássio, que parece tão membrudo. Quando a noite ressurge, Virgílio agarra-se às costelas peludas de Lúcifer, desce de pelo em pelo e, no ponto em que a coxa gira, vira a cabeça para onde tinha as pernas e sobe, ofegante:
Attienti ben, ché per cotali scale», / disse ’l maestro, ansando com’ uom lasso, / «conviensi dipartir da tanto male, segura-te bem, pois por tais escadas, disse o mestre, ofegando como homem cansado, convém partir de tanto mal.
Do outro lado do centro, Virgílio explica que ali o sol já passou da tarde à manhã, que Lúcifer continua fincado como antes, que deste lado caiu do céu, e que a terra, por medo dele, fez do mar um véu e passou ao outro hemisfério. Dali um riacho desce por um buraco de pedra que ele mesmo roeu, e é por esse corredor natural de mau chão e pouca luz que os dois saem:
salimmo sù, el primo e io secondo, / tanto ch’i’ vidi de le cose belle / che porta ’l ciel, per un pertugio tondo, subimos, ele primeiro e eu segundo, tanto que vi das coisas belas que o céu leva, por um buraco redondo.
Temas que encarna
Lúcifer é a Lealdade e traição no ponto mais fundo: o criador que ele traiu é o laço mais alto de todos, e as três bocas guardam o traidor de Cristo e os de César. O Pecado, aqui, é o da rebelião, que o poema deduz do estado em que o vê, não de uma narração. A Justiça e lei aparece no desenho do castigo, em que o imperador do reino preso no gelo é também o que, ao bater as asas, congela o lago que o prende. E a Política está no trio das bocas, Judas, que traiu Cristo, e Bruto e Cássio, os assassinos de Júlio César, que a leitura corrente lê como as duas autoridades universais que Dante defende, Igreja e Império; o texto não diz isso, só junta os três.
Ninguém conta a rebelião de Lúcifer: o narrador a deduz do que vê, em dois adjetivos, e quem tira a conclusão é Dante, não Virgílio. Nada nele é majestoso. O poema rebaixa o imperador a um mecanismo, ou mostra que o mal consome a si mesmo: as duas leituras cabem no mesmo verso. A saída pelo corpo do pior de todos é a última ironia da cântica.
Leituras divergentes
A fala de Dante ao leitor é o ponto onde o poema renuncia a descrever. O narrador que descreveu o sangue, a podridão e as serpentes diz que não é capaz de dizer o que sentiu diante de Dite e entrega ao leitor o trabalho de imaginar, com a sua flor de engenho, o que ele não diz. A leitura aqui é de arte: o silêncio mede o medo pelo que o narrador renuncia a escrever.
O texto sustenta duas leituras do que Lúcifer é. Numa, ele é o vilão que o poema reserva ao centro de tudo, por ter erguido as sobrancelhas contra o criador. Na outra, é um corpo preso numa máquina que ele mesmo faz girar, e a feiura que Dante descreve é consequência da queda, não castigo adicional. A saída de Dante e Virgílio, que depende desse corpo, deixa a pergunta de por que o poema escolheu fazer da passagem para as estrelas um caminho pelo pior.
Relações
- Dante: o visitante que fica sem palavras diante dele e que o atravessa agarrado ao pelo (canto XXXIV do Inferno).
- Virgílio: quem o apresenta pelo nome de Dite, nomeia os três condenados das bocas e usa o seu corpo como escada.
- Ugolino: o traidor do mesmo gelo, duas zonas antes, cuja história (canto XXXIII do Inferno) precede a descida ao fundo.