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Personagem

Caronte

Quem é

Caronte é o barqueiro do Aqueronte, o primeiro guardião que Dante enfrenta depois de cruzar a porta do Inferno. O poema o apresenta como um velho de pelo branco de tão antigo, de faces lanosas e olhos cercados de rodas de fogo, que vem em sua barca pelo pântano lívido gritando às almas que não verão o céu. Dante o chama de demônio, e o seu ofício é passar os condenados à outra margem, para as trevas eternas, no calor e no gelo. O nome e o papel vêm do mito: o barqueiro dos mortos, que só leva quem recebeu sepultura, e que a Eneida já mostra no Livro VI. O que o define no canto III do Inferno é a combinação de ira e de limite: grita, bate, recusa um vivo, e se cala quando Virgílio lhe diz de onde vem a ordem.

Na Eneida, Caronte recusa os mortos sem sepultura, e a sua barca range sob o peso de Enéias vivo; Michelangelo retoma o barqueiro de Dante, com o remo, no Juízo Final, como se lê em Caronte.

Trajetória

Tudo acontece no canto III do Inferno. Dante e Virgílio chegam à margem do Aqueronte, onde multidões esperam a vez de atravessar, e Dante, com olhos vergonhosos e baixos, teme que o seu dizer pese ao mestre e se cala até o rio. Surge então o barqueiro, que grita às almas que não esperem jamais ver o céu, que ele vem para levá-las à outra margem, e manda a Dante, que está vivo, que se afaste dos mortos. Como Dante não se afasta, muda de tom: por outra via, por outro porto, ele chegará à praia, e não aqui, porque um lenho mais leve convém que o leve. Virgílio responde com a fórmula da vontade que ninguém discute:

Caron, non ti crucciare: / vuolsi così colà dove si puote / ciò che si vuole, e più non dimandare, Caronte, não te irrites: quer-se assim lá onde se pode o que se quer, e não perguntes mais.
Cantos I a IV: A selva e a porta

As faces lanosas do barqueiro se aquietam, e as almas, cansadas e nuas, mudam de cor e batem os dentes ao ouvir as palavras cruéis. Blasfemam contra Deus, os pais, a espécie humana, o lugar, o tempo e a semente de que nasceram, e depois se recolhem juntas à margem malvada que espera todo homem que não teme a Deus. Caronte acena com olhos de brasa e as reúne, batendo com o remo em qualquer uma que se atrasa. Como no outono as folhas se soltam uma após outra, até que o ramo vê no chão todos os seus despojos, assim o mau sangue de Adão se lança da margem, uma a uma, ao sinal dele, como a ave ao chamado. Virgílio explica a Dante que todos os que morrem na ira de Deus se reúnem ali de toda terra, e que a divina justiça os esporeia, de modo que o temor se torna desejo; por ali nunca passa alma boa, e por isso, se Caronte se queixa de Dante, ele já pode entender o que isso quer dizer. Com a explicação, a campina escura treme tanto que a lembrança ainda molha de suor o narrador, a terra lacrimosa solta um vento e dele salta uma luz vermelha que vence todos os sentidos de Dante, e ele cai como quem é tomado pelo sono.

No canto V do Inferno a mesma fórmula é dita a Minos, e no canto XIV do Inferno Virgílio explica de onde vêm os rios que Dante cruza: a estátua de um velho de Creta, rachada, deixa gotejar lágrimas que formam o Aqueronte, o Estige, o Flegetonte e, pela goteira estreita, o Cocito.

Temas que encarna

Caronte é a Justiça e lei vista da margem: ele não julga, executa o que a divina justiça decidiu, e a fala de Virgílio dá o nome do mecanismo, o temor que se converte em desejo. O Desejo das almas de passar à outra margem é a ironia do canto, pois elas correm para a pena que as espera. A cena não discute se a pena é justa; discute como é possível querê-la.

Caronte recusa Dante com a razão de que ele não é dali, e a frase tem uma ambiguidade que o poema deixa: ele diz por outra via, por outro porto, sem dizer qual. A tradição lê nessas palavras a barca dos anjos do Purgatório, e o texto não diz isso. O que se vê é um guardião que sabe distinguir os condenados dos vivos, e que Virgílio vence sem argumentar.

Leituras divergentes

O Caronte de Dante é herdeiro direto do virgiliano, e a Eneida já lhe dá o gesto de recusar um vivo; o que o poema acrescenta é o demônio de olhos de brasa que bate com o remo nos retardatários, e a fórmula que o cala.

O texto sustenta duas leituras do que esse acréscimo faz. Numa, é o Inferno cristão que absorve o oficial pagão e o põe a serviço de uma ordem, a mesma que mais adiante cala Minos. Na outra, é só o poeta dando ao barqueiro de Virgílio olhos de brasa e um remo, sem mudar o ofício.

Relações

  • Dante: o vivo que ele manda afastar-se dos mortos e que cai desacordado ao fim do canto.
  • Virgílio: quem lhe dirige a fórmula da vontade que ninguém discute, pela primeira vez no poema.
  • Minos: o guardião a quem Virgílio repete a mesma fórmula, no canto V do Inferno.