Clavis Libri

Personagem

Brunetto Latini

Quem é

Brunetto Latini é o mestre florentino que Dante encontra no terceiro giro do sétimo círculo, a charneca de areia ardente onde cai a chuva de fogo, e a quem o poema deixa o título que lhe cabia em vida, ser. Agarra o peregrino pela barra da veste, grita que maravilha, e é reconhecido apesar do rosto cozido pelo fogo. Caminha na areia, abaixo do dique em que Dante anda, porque quem para um instante do bando fica cem anos sem se abrigar das chamas, e conversa com ele o tempo que a pena permite. O que o define é o laço entre os dois: foi quem, no mundo, ensinava a Dante como o homem se eterniza, e é a imagem paterna que o peregrino diz trazer fixa na mente. Ao mesmo tempo é um condenado que o poema coloca entre clérigos e letrados de grande fama, sujos de um mesmo pecado que o canto não nomeia, e a ternura da cena é a medida do que o lugar custa.

Trajetória

Tudo acontece no canto XV do Inferno. O reconhecimento dá trabalho: Dante fixa os olhos no rosto queimado até que o intelecto o alcance, e baixa a mão até a face dele para perguntar:

e chinando la mano a la sua faccia, / rispuosi: «Siete voi qui, ser Brunetto?»., e baixando a mão até o rosto dele, respondi: estais aqui, senhor Brunetto?
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Brunetto pede para voltar um pouco com ele, deixando seguir a sua gente, e diz que Dante deve andar, que irá à barra do seu manto. Dante não ousa descer da estrada para andar a par e mantém a cabeça baixa, como quem vai em reverência. Brunetto pergunta que fortuna ou destino o traz antes do último dia, e quem é o que mostra o caminho. Dante responde que se perdeu num vale na vida serena e que Virgílio lhe apareceu para reconduzi-lo. Brunetto lhe diz que, se seguir a estrela, não falhará o porto glorioso, e que, se não tivesse morrido tão cedo, teria dado conforto à obra:

Se tu segui tua stella, / non puoi fallire a glorïoso porto, / se ben m’accorsi ne la vita bella; / e s’io non fossi sì per tempo morto, / veggendo il cielo a te così benigno, / dato t’avrei a l’opera conforto., se segues a tua estrela, não podes falhar em glorioso porto, se bem o notei na vida bela; e se eu não tivesse morrido tão cedo, vendo o céu tão benigno contigo, dar-te-ia conforto na obra.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Anuncia então o que o espera: o povo ingrato e maligno que desceu de Fiesole será seu inimigo por ele ter feito o bem, porque entre as sorveiras azedas não convém dar fruto o doce figo, e Dante deve limpar-se dos costumes dessa gente avara, invejosa e soberba. Dante responde com gratidão: a imagem paterna do mestre, de quando lhe ensinava como o homem se eterniza, está fixa na sua mente e o aflige agora, e enquanto viver ela se verá na sua língua. Promete escrever o que Brunetto narra do seu destino e guardá-lo para ser glosado, com outro texto, por uma dama que saberá, se chegar a ela. E se declara pronto para o que a Fortuna quiser:

Non è nuova a li orecchi miei tal arra: / però giri Fortuna la sua rota / come le piace, e ’l villan la sua marra, não é nova aos meus ouvidos tal garantia: por isso gire a Fortuna a sua roda como lhe apraz, e o vilão a sua enxada.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Virgílio olha para trás e aprova de lado. Dante pergunta quem são os companheiros de Brunetto, e ele nomeia dois, Prisciano e Francesco d'Accorso, e se cala sobre os demais porque o tempo é curto e uma fumaça nova sobe do areal, de gente com quem não deve estar. O que pede é só isto:

Sieti raccomandato il mio Tesoro, / nel qual io vivo ancora, e più non cheggio». / Poi si rivolse, e parve di coloro / che corrono a Verona il drappo verde / per la campagna; e parve di costoro / quelli che vince, non colui che perde., seja-vos recomendado o meu Tesoro, no qual ainda vivo, e mais não peço. Depois se voltou, e pareceu daqueles que correm em Verona o pano verde pelo campo; e pareceu, entre eles, o que vence, não o que perde.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Volta-se e some, e o poema o compara ao corredor que, em Verona, disputa o pano verde: parece o que vence, não o que perde. A mesma cena tem eco no canto seguinte, onde três outros florentinos da mesma charneca pedem a Dante que fale deles quando rever as estrelas.

Temas que encarna

Brunetto é a Honra e reputação levada à sobrevivência do livro. Tudo o que pede é que o seu Tesoro seja recomendado, e o poema o deixa vencer no último verso, ao mesmo tempo que o condena. A Política está na profecia de Fiesole e na lição de limpar-se dos costumes da cidade, e o saber, tema de Conhecimento e sabedoria, está na lembrança de que ele ensinava a Dante como o homem se eterniza, que a cena põe ao lado da pena. O poema não nomeia o pecado do grupo; o que o situa ali é o desenho do canto XI do Inferno, em que o terceiro giro do sétimo círculo pune a violência contra Deus, contra a natureza e contra a arte.

O canto faz a gratidão e o julgamento chegarem juntos, e nenhum dos dois anula o outro. Dante o chama de ser e responde com a voz de discípulo, e o mestre responde com o conselho de quem leu o céu dele. Duas leituras: encorajamento sincero, ou o último gesto de quem não quer sair de cena.

Leituras divergentes

Os ajustes de contas de Dante com a cidade fazem parte do projeto do poema, e a profecia de Brunetto sobre Fiesole é um dos casos em que a cidade fica a descoberto.

O poema condena Brunetto e, no último verso, o mostra vencendo, e a lembrança que ele pede a Dante é a que o poema lhe guarda. Quem lê o fecho como vitória lê o verso do corredor de Verona; quem o lê como perda lê o fogo que o espera, e o texto sustenta as duas.

Relações

  • Dante: o discípulo que o reconhece, que o chama de ser e que escreve o que ele narra do seu destino (canto XV do Inferno).
  • Virgílio: o mestre de Dante que aprova a resposta ao outro mestre com um provérbio.
  • Farinata degli Uberti: o outro condenado florentino que anuncia a Dante o seu futuro, no canto X do Inferno, e a cuja profecia Dante junta a de Brunetto.