Quem é
Farinata é o chefe dos gibelinos de Florença, o partido que se opôs ao de Dante, e é nomeado por Virgílio ao apontá-lo no túmulo do sexto círculo, o dos hereges. Fala a Dante no canto X do Inferno de dentro de uma arca de tampa erguida, de pé da cintura para cima, como quem tem o Inferno em grande desprezo, e é o primeiro grande condenado florentino que o peregrino encontra. Já tinha sido citado no canto VI do Inferno, quando Dante pergunta a Ciacco onde estão os bons florentinos e ouve que Farinata está entre as almas mais negras. O que o define no canto é a postura, a pergunta que faz antes de ouvir qualquer nome, os maiores de Dante, e a ligação que mantém com a cidade, a única coisa que lhe interessa.
Farinata é nomeado por Virgílio.
Trajetória
No canto VI do Inferno, Dante cita os que empenharam o engenho em bem fazer, Farinata entre eles, e pergunta se o céu os adoça ou o inferno os envenena. Ciacco responde que estão entre as almas mais negras, por culpas diversas, e que Dante os verá se descer tão fundo. No canto X do Inferno, por uma vereda entre a muralha e os suplícios, Virgílio explica que os túmulos de tampa erguida serão fechados quando os mortos voltarem do vale de Josafá com os corpos, e que ali jazem os que fazem a alma morrer com o corpo:
Tutti saran serrati / quando di Iosafàt qui torneranno / coi corpi che là sù hanno lasciati., todos serão fechados quando de Josafá aqui voltarem com os corpos que lá em cima deixaram.
A voz que sai de uma arca reconhece em Dante um toscano pela fala. Dante se encolhe, e Virgílio o chama a olhar:
Ed el mi disse: «Volgiti! Che fai? / Vedi là Farinata che s’è dritto: / da la cintola in sù tutto ’l vedrai». / Io avea già il mio viso nel suo fitto; / ed el s’ergea col petto e con la fronte / com’ avesse l’inferno a gran dispitto., e ele me disse: vira-te! Que fazes? Vê ali Farinata, que se pôs de pé: da cintura para cima o verás todo. Eu já tinha o meu rosto fixo no dele; e ele se erguia com o peito e com a fronte, como se tivesse o inferno em grande desprezo.
Virgílio empurra Dante até o pé da tumba e manda medir as palavras. Farinata o olha um pouco e, quase com desdém, pergunta quem foram os seus maiores. Dante, que queria obedecer, não lhe esconde nada, e ele levanta um pouco as sobrancelhas e diz que eles foram ferozmente adversários dele, dos seus primeiros e do seu partido, que por duas vezes ele dispersou. Dante responde como guelfo, com a ferida na ponta da língua:
«S’ei fur cacciati, ei tornar d’ogne parte», / rispuos’ io lui, «l’una e l’altra fïata; / ma i vostri non appreser ben quell’ arte»., se foram expulsos, voltaram de toda parte, respondi, uma e outra vez; mas os vossos não aprenderam bem essa arte.
A resposta o atinge, mas não o dobra. Quando outra sombra se ergue ao lado dele, visível só até o queixo, de joelhos, e cai de costas depois de um verbo no passado, Farinata não muda de aspecto. O poema não dá o nome dessa sombra: é a tradição que a identifica com Cavalcante dei Cavalcanti, pai do poeta Guido Cavalcanti, e é pelo filho, Guido, que a sombra pergunta a Dante.
Ma quell’ altro magnanimo, a cui posta / restato m’era, non mutò aspetto, / né mosse collo, né piegò sua costa, mas aquele outro magnânimo, a cujo pedido eu me havia detido, não mudou de aspecto, nem mexeu o pescoço, nem dobrou o flanco.
Retoma a frase no ponto em que o outro a interrompeu: se os seus aprenderam mal a arte de voltar, isso o atormenta mais que a cama de fogo, e Dante saberá em pouco tempo o que ela pesa. Pergunta por que Florença é tão cruel com os seus, e ouve do Arbia tingido de vermelho. Responde que não foi o único a agir, nem agiu sem motivo, mas que foi o único a defender a cidade de rosto aberto quando todos consentiam em destruí-la. Dante, que não entende como eles veem o futuro e perdem o presente, pede que lhe desfaça o nó, e ele explica a sua condição:
Noi veggiam, come quei c’ha mala luce, / le cose», disse, «che ne son lontano; / cotanto ancor ne splende il sommo duce. / Quando s’appressano o son, tutto è vano / nostro intelletto; e s’altri non ci apporta, / nulla sapem di vostro stato umano., vemos, como quem enxerga mal, as coisas que estão longe de nós, disse; tanto ainda nos ilumina o sumo guia. Quando se aproximam ou são, é vão todo o nosso intelecto, e se outros não no-lo trazem nada sabemos do vosso estado humano.
Dá a regra de dentro: quando o futuro se fechar, a ciência deles morre toda. Dante, compungido, lhe pede que avise o caído de que o filho ainda vive. Farinata nomeia, entre mais de mil que jazem ali, o segundo Frederico e o Cardeal, e se cala. Não aparece mais no poema, mas a sua profecia volta no canto XV do Inferno, onde Dante a guarda junto à de Brunetto para que uma dama a explique.
Temas que encarna
Farinata é o homem de partido que o Inferno não consegue diminuir. A Política é a única matéria que lhe resta, e ele a trata no túmulo como a tratava vivo: pergunta pelos antepassados do interlocutor, mede o resultado das lutas por ter dispersado os guelfos duas vezes, sofre mais por os seus não terem aprendido a voltar do que com o fogo. A Honra e reputação está na defesa de Florença a rosto aberto, que ele cobra como serviço, e no gesto de não se mover enquanto o outro desaba. O Pecado que o põe ali não aparece em nenhuma fala dele: o poema o situa no sexto círculo, onde Virgílio põe quem faz a alma morrer com o corpo, e o castigo é a ciência que se apaga, a vista que alcança longe e perde o que está perto.
A grandeza de Farinata e o seu limite estão no mesmo gesto. Ele continua a frase como se a queda de Cavalcante fosse incidente alheio, e o texto sustenta as duas leituras: dureza de quem só tem a cidade na cabeça, ou grandeza que o próprio poema reconhece ao chamá-lo de magnânimo.
Leituras divergentes
Erich Auerbach, no capítulo de Mimesis dedicado a este canto, faz de Farinata o caso central do realismo de Dante: a situação eterna não apaga o caráter, revela-o.
Os dois estão na mesma categoria de pecadores e sofrem a mesma pena objetiva, mas cada um a recebe de um jeito radicalmente diferente, e é nessa diferença que Auerbach lê o cerne do realismo dantesco: a situação eterna não apaga o caráter, ao contrário, o revela sem o desgaste da ação terrena.Farinata é, no meio do Inferno, maior, mais poderoso e nobre do que nunca, pois nunca, durante a sua vida, teve a oportunidade de manifestar, assim, a fôrça do seu coração
O mesmo crítico tira daí uma tese sobre o poema: a ordem divina devia ser exaltada pela figura de Farinata, e a força com que Dante a realiza passa à frente do juízo.
a figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus
Carpeaux, para o poema inteiro, escolhe um termo mais curto, e é com ele que se costuma ler a cena:
Dante é realista, antes de tudo.
Quem lê Farinata como figura vê um homem maior do que o lugar, e a cena ensina a admirá-lo. Quem lê pela ordem do canto XI do Inferno vê alguém que, apesar da postura, está onde o mapa de Virgílio põe quem nega a vida da alma, e o canto deixa a tensão sem resolver, porque o mapa do canto seguinte não diz onde cabe a heresia. As duas leituras convivem na cena.
Relações
- Dante: o interlocutor que ele reconhece pela fala, de quem recebe uma resposta de guelfo e a quem faz a profecia do exílio (canto X do Inferno).
- Virgílio: quem aponta Farinata e empurra Dante até o túmulo, mandando medir as palavras.
- Brunetto Latini: o outro florentino que fala do futuro de Dante, no canto XV do Inferno, cuja profecia Dante guarda junto à de Farinata.