Quem é
Francesca é a primeira condenada a quem o poema deixa contar a própria história, e a conta no segundo círculo, o dos luxuriosos, arrastados por uma ventania que nunca para. Chega ao chamado de Dante com outro espírito, que não fala e chora o tempo todo, como pombas chamadas pelo desejo, saídas da tropa em que está Dido. Não diz o próprio nome: apresenta-se pela terra em que nasceu, à beira-mar, onde o Pó desce para ter paz com seus seguidores, e é Dante quem a chama de Francesca, três tercetos depois, quando lhe pergunta como o amor lhes deixou conhecer os desejos duvidosos. Rimini, o lugar que a fama lhe atribui, e Paolo, o nome que dá ao companheiro, não estão no poema: vêm da tradição, que identifica o outro como o cunhado dela e o assassino dos dois como o marido, Gianciotto. No canto V do Inferno ela só diz que Caína espera quem lhes tirou a vida. O que a define é a cortesia com que fala e o modo como conta: três vezes o sujeito do que lhe aconteceu é o Amor, nunca ela.
Trajetória
No canto V do Inferno, Virgílio nomeia as sombras que o vento arrasta (Semíramis, Dido, Cleópatra, Helena, Aquiles, Páris, Tristão), e Dante, quase perdido de piedade, pede para falar com dois que vão juntos e parecem leves ao vento. Francesca responde com cortesia: agradece a Dante, que visita no ar escuro quem tingiu o mundo de sangue, e diz que rezaria pela paz dele se o rei do universo fosse amigo dos dois, já que ele tem piedade do mal perverso deles. Depois conta de onde veio e começa pelo Amor:
Amor, ch’al cor gentil ratto s’apprende, / prese costui de la bella persona / che mi fu tolta; e ’l modo ancor m’offende. / Amor, ch’a nullo amato amar perdona, / mi prese del costui piacer sì forte, / che, come vedi, ancor non m’abbandona, amor, que ao coração gentil logo se prende, prendeu este pela bela pessoa que me foi tirada, e o modo ainda me ofende; amor, que a nenhum amado perdoa amar, prendeu-me tão forte do prazer dele que, como vês, ainda não me abandona.
O terceto seguinte põe a morte e a acusação na mesma frase, e fecha com o assassino mandado a Caína, o fundo do Inferno reservado aos traidores de parentes:
Amor condusse noi ad una morte. / Caina attende chi a vita ci spense, amor nos levou a uma só morte; Caína espera quem nos tirou a vida.
Dante baixa o rosto e só o levanta quando Virgílio lhe pergunta o que pensa. Responde, falando do que se passa nele:
Oh lasso, / quanti dolci pensier, quanto disio / menò costoro al doloroso passo, ai de mim, quantos doces pensamentos, quanto desejo levou estes ao doloroso passo!
Voltando-se a ela, chama-a pelo nome e pergunta como o amor os deixou saber dos desejos duvidosos. A resposta abre com uma sentença sobre a memória, e remete a um mestre que ela não nomeia:
E quella a me: «Nessun maggior dolore / che ricordarsi del tempo felice / nella miseria; e ciò sa ’l tuo dottore, nenhuma dor maior que lembrar o tempo feliz na miséria; e isso sabe o teu doutor.
Conta então a cena da leitura: liam por prazer, num dia, a história de Lancelote, estavam sós e sem suspeita, os olhos se encontravam e o rosto descorava, e só um ponto os venceu, quando leram que o riso desejado foi beijado por tal amante. Quem a beijou tremendo, e nunca mais será separado dela, é o outro espírito. Francesca fecha o relato com a frase que tira o ato de dentro dela:
Galeotto fu ’l libro e chi lo scrisse: / quel giorno più non vi leggemmo avante, Galeoto foi o livro e quem o escreveu: nesse dia não lemos mais adiante.
Enquanto ela falava, o outro chorava, e Dante cai desmaiado como cai um corpo morto. Ela não aparece em mais nenhum canto, mas o poema volta à sua cena quando mede o peregrino: no canto XXIX do Inferno, os lamentos dos falsários o ferem de piedade como flechas, a mesma piedade que o derrubou no canto V do Inferno, e no canto XXXII do Inferno a primeira zona do gelo é a Caína de que ela falou.
Temas que encarna
Francesca é a ilustração do que o canto define como o pecado dos luxuriosos, e o poema o diz pela voz do narrador antes de ela falar:
Intesi ch’a così fatto tormento / enno dannati i peccator carnali, / che la ragion sommettono al talento, entendi que a tão grande tormento são condenados os pecadores carnais, que submetem a razão ao desejo.
O Desejo vem nela com a cara mais amável: um amor que não pede licença, um beijo trêmulo, um livro de romance como mediador. O Pecado, na definição do canto, é a razão que se submete ao apetite, e o que Francesca faz ao falar é tirar o próprio apetite do centro da frase e pô-lo em Amor.
A cena é montada para comover e, no mesmo ato, para obrigar o leitor a perceber a troca de sujeito. Dante, ao responder, devolve o sujeito aos movimentos de quem os tem (pensamentos, desejo), e a diferença entre a frase dela e a dele é o que o canto pede que se veja.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras de Francesca, e o poema não escolhe. Numa, ela é franca: descreve com as palavras de uma tradição cortês o que lhe aconteceu e não esconde a morte nem a quem culpa. Na outra, ela desloca para o Amor a decisão que foi dos dois, e a frase final sobre o livro faz do romance o mediador, o Galeoto que passa o recado dos amantes. Quem lê a primeira vê uma mulher vencida, e a piedade de Dante parece justa. Quem lê a segunda vê o poeta apontar o mecanismo pelo qual o desejo se disfarça, e a piedade, que aqui é desmaio, se torna o primeiro exemplo da reação que o poema vai educar.
Tomar o poeta por defensor dela não resiste ao fato de que ela nunca diz eu quando fala do que aconteceu, e tomá-lo por acusador silencioso não resiste ao desmaio de Dante. O que o texto dá, a quem lê, é a cena inteira para decidir.
Relações
- Dante: o visitante que ela trata de animal gracioso e benigno, que a chama pelo nome e cai desmaiado ao fim do relato (canto V do Inferno).
- Virgílio: o doutor que ela cita sem nomear quando fala da dor de lembrar o tempo feliz, e o mestre que manda Dante chamá-la em nome do amor que a leva.
- Minos: o juiz do círculo, diante de quem Virgílio repete a fórmula da vontade que ninguém discute, momentos antes de ela falar.