O Cortiço serve como repertório em redação quando o tema é desigualdade, moradia ou identidade cultural, desde que você cite o fato do livro (quem faz o quê e em que capítulo) e só depois ligue ao tema. Três eixos em que ele funciona, cada um com o fato que o sustenta:
Ambição e trabalho alheio. João Romão enriquece guardando as economias de Bertoleza, levantando as casinhas com pedra furtada e calculando, ao contratar o cavouqueiro, que "os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta". O livro termina com ele recebendo um diploma de sócio benemérito no mesmo momento em que Bertoleza morre. Serve para mostrar como o sucesso de um pode se apoiar no trabalho de outros e ser honrado sem que ninguém olhe o custo.
Moradia popular e a cidade. A estalagem lota até que "os casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas", e a febre amarela leva dois moradores. Depois da reconstrução, a Avenida São Romão sobe os preços e passa a exigir, "para entrar", "carta de fiança e uma recomendação especial", e muitos dos antigos hóspedes saem para o Cabeça-de-Gato. Serve para falar de habitação, saúde pública e de quem fica de fora quando o lugar melhora.
Mistura cultural e adaptação do imigrante. Jerônimo chega de Portugal poupado e sério e, no Rio, "a aguardente de cana substituiu o vinho", o café e o feijão-preto entram na casa, e o chorado baiano cala o fado. A rivalidade entre brasileiros e portugueses estoura na briga de Piedade com Rita, mas no incêndio "já não havia ali brasileiros e portugueses, havia um só partido". Serve para falar de imigração, identidade e convivência entre origens diferentes.
Cuidado: use o livro pelo que ele mostra, e não por teses que ele não faz. O narrador não dá sermão, e a escravidão aparece como enredo e época, na carta falsa e na devolução de Bertoleza.