Sim, em certo sentido: o narrador de O Cortiço trata a estalagem como um organismo vivo, que nasce, acorda, se defende, se divide, pega fogo e se refaz, e a segue com tanta atenção quanto segue qualquer morador. É por isso que muitos leitores a chamam de personagem central.
A imagem aparece já no primeiro capítulo: da terra encharcada e fumegante de Botafogo "começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva", que parecia brotar daquele lameiro "como larvas no esterco". No capítulo III, "eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas", e o texto fala de "o prazer animal de existir" de quem acorda ali.
O cortiço também age como um corpo único. Quando a polícia tenta entrar, depois da navalhada de Firmo, os moradores levantam barricada no portão, e nenhum deles denuncia ninguém depois: o "espírito de coletividade" os une "em círculo de ferro". Mais tarde, a rivalidade com o Cabeça-de-Gato o parte em carapicus e cabeças-de-gato, e, quando os capoeiras rivais invadem e o fogo começa, "já não havia ali brasileiros e portugueses, havia um só partido".
Depois do incêndio, o cortiço se refaz, limpo, caiado e com nome de avenida, e passa a ser, nas palavras do narrador, uma "máquina terrível, que nunca parava", que "aristocratizava-se". Mas o livro não deixa o cortiço decidir sozinho: quem diz o que ele vira é o dono, João Romão. A estalagem cresce como coisa viva, e as cenas mostram que quem a conduz é o interesse de um homem.