Pelo que o livro mostra, O Cortiço põe sob lente a ambição sem escrúpulos de João Romão, o modo como ele enriquece com o trabalho dos outros e a distância entre o sobrado e a estalagem. O narrador não faz sermão: põe os fatos em sequência e deixa o leitor ver quem sobe e quem paga.
A ambição vem descrita como doença: "Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular". Para acumular, João Romão forja a carta de liberdade de Bertoleza, levanta as casinhas com pedra furtada da pedreira e, depois do incêndio, arranca as garrafas de dinheiro de Libório.
O trabalho alheio sustenta cada passo. O cortiço se levanta com as economias de Bertoleza e o aluguel das lavadeiras. Ao contratar Jerônimo por setenta mil-réis, João Romão calcula: "Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa!". Do alto da janela de Miranda, ele olha com "olhares de desprezo sobre aquela gentalha sensual, que o enriquecera". E, na manhã seguinte ao incêndio, é Miranda quem diz que os desabrigados "nada têm que perder" enquanto o dono está no seguro.
A distância entre o sobrado e a estalagem está no desenho do lugar, com o muro de cacos de vidro entre os dois. Miranda, à janela, diz: "Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes daqui, como a cães danados!". No fim, o vizinho que Miranda invejava vira genro, e o cortiço "aristocratizava-se", com carta de fiança na entrada e preços mais altos, e muitos dos antigos hóspedes desertam para o Cabeça-de-Gato. A escravidão entra como enredo e época, na carta falsa, na devolução de Bertoleza e na comissão de abolicionistas do fim.