No final de O Cortiço, Bertoleza descobre que a carta de alforria que lhe deram era falsa, é reclamada pelo antigo senhor, que chega com dois policiais, e se mata com a faca de cozinha antes de ser levada. É o desfecho de um engano que João Romão armou no primeiro capítulo e usa de novo no vigésimo primeiro.
No capítulo I, ele forja a carta, guarda as economias que ela juntava para a alforria e a toma como caixeiro, criada e amante. No capítulo XXI, com o casamento com Zulmira decidido, ela é tudo que lhe lembra o passado: "Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo que havia de mau na vida dele!". Ele pensa em esganá-la, recua e, quando Botelho pergunta se ela era escrava, acha a saída: devolvê-la ao dono. Botelho resume o plano: "Ora! Então a coisa é simples!... Mande-a p’ro dono!", e mais tarde, "os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a entrega".
O narrador conta a cena da cozinha em poucas linhas. Bertoleza, de cócoras, escamando peixe, reconhece o filho mais velho do primeiro senhor e "num relance de grande perigo compreendeu a situação". Os policiais desembainham os sabres, e antes que alguém a alcance, ela "de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado". Morre ali, na cozinha.
A cena seguinte é a do diploma. João Romão, que fugira para o canto mais escuro do armazém, vê chegar a comissão de abolicionistas, de casaca, e manda que a levem para a sala de visitas. O livro termina sem comentar o contraste. O texto também não diz se o que move Bertoleza é o medo do cativeiro ou o fim de tudo o que ela fizera por ele.