Clavis Libri

Personagem

Hippolit Tieriêntiev

Quem é

Hippolit Tieriêntiev é o filho mais velho da capitã Marfa Borísovna, a viúva a quem o general Ívolguin entrega os vinte e cinco rublos do príncipe, um rapaz de dezessete ou dezoito anos, tísico em fase terminal, amigo de Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin (capítulo XII da Primeira Parte). Entra em cena como um dos quatro rapazes que vão à datcha de Liébediev exigir de Liev Nikoláievitch Míchkin, em nome de Burdovski, o dinheiro que o benfeitor Pavlischov teria devido ao suposto filho (capítulo VII da Segunda Parte). Mora com a mãe, passa alguns dias na datcha do príncipe (capítulo I da Terceira Parte), depois na casa de Ptítzin, onde vive a família Ívolguin (capítulo II da Quarta Parte), e volta para a mãe para morrer (capítulo XII da Quarta Parte). É a voz da morte marcada em O Idiota: sabe o prazo aproximado da própria morte e usa esse prazo como licença para dizer, em voz alta, o que os outros personagens só insinuam. A Explicação necessária que ele lê na festa de aniversário do príncipe (capítulo V da Terceira Parte, capítulo VI da Terceira Parte e capítulo VII da Terceira Parte) é o único bloco do romance dedicado inteiro à confissão de um único homem, e é ali, de segunda mão, que aparece a frase mais citada do livro.

Trajetória

No capítulo XII da Primeira Parte ele ainda não aparece: Kólia conta ao príncipe que o amigo acha um canalha quem leva uma bofetada e não desafia o outro. No capítulo VII da Segunda Parte entra com Burdovski, Doktorenko e Keller, magro como um esqueleto, tossindo, com duas manchas vermelhas nas faces, e no capítulo VIII da Segunda Parte pergunta com que direito o caso vai ao juízo dos amigos do príncipe e grita que dez mil é pouco. No capítulo IX da Segunda Parte, quando Lisavieta Prokófievna lhe agarra o braço, tosse sangue, diz que um médico lhe deu duas semanas e pede uma última conversa, com o ar e as árvores. No capítulo X da Segunda Parte convida todos ao próprio enterro, diz que da janela só vê o muro de tijolo da casa de Meyer, e se queixa de uma natureza que zomba dos melhores seres:

природа насмешлива! Зачем она, — подхватил он вдруг с жаром, — зачем она создает самые лучшие существа с тем, чтобы потом насмеяться над ними?, a natureza é zombeteira! Por que ela, retomou de repente com ardor, por que ela cria os melhores seres para depois zombar deles?
Segunda Parte: O quadro

Chora como criança no colo de Ielisavieta Prokófievna Iepántchina e encontra na lágrima dela o que dizia nunca ter tido:

Ипполит остановился почти пораженный, поднял руку, боязливо протянул ее и дотронулся до этой слезинки. Он улыбнулся какою-то детскою улыбкой, Hippolit parou quase atônito, ergueu a mão, estendeu-a com medo e tocou aquela lagrimazinha. Sorriu um sorriso de criança.
Segunda Parte: O quadro

Minutos depois, envergonhado do próprio choro e de o príncipe ter previsto essa vergonha, explode contra ele:

если я кого-нибудь здесь ненавижу, [...] но вас, вас, иезуитская, паточная душонка, идиот, миллионер-благодетель, вас более всех и всего на свете! [...] Это вы теперь всё подвели! Это вы меня довели до припадка!, se eu odeio alguém aqui, [...] é ao senhor, ao senhor, alminha jesuítica, melosa, idiota, milionário benfeitor, ao senhor mais que a todos e a tudo no mundo! [...] Foi o senhor que armou tudo isso agora! Foi o senhor que me levou a este ataque!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo I da Terceira Parte muda-se para a datcha do príncipe; Radomski zomba do tísico que quer morrer com eloquência e diz que lhe perdoa tudo, e o príncipe corrige:

надо так, чтоб и вы согласились принять от него прощение, é preciso que o senhor também aceite receber o perdão dele.
Terceira Parte: A explicação

No capítulo IV da Terceira Parte, no terraço cheio do aniversário do príncipe, pergunta quantas horas faltam para o sol nascer, bebe o terceiro copo e quer saber se o príncipe já ouviu falar da estrela Absinto. No capítulo V da Terceira Parte acorda de um cochilo de sete minutos e provoca o príncipe diante de todos:

Правда, князь, что вы раз говорили, что мир спасет «красота»? [...] А я утверждаю, что у него оттого такие игривые мысли, что он теперь влюблен, É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo? [...] E eu afirmo que ele tem essas ideias brincalhonas porque agora está apaixonado.
Terceira Parte: A explicação

Dostoiévski nunca põe a frase da beleza que salvará o mundo na boca do próprio Míchkin: ela chega ao leitor sempre filtrada por essa ironia de segunda mão, de um moribundo que a ouviu de Kólia, e depois pela de Aglaia, que proíbe o príncipe de repeti-la (capítulo VI da Quarta Parte). É a maneira mais econômica que o romance encontra de proteger a frase de virar doutrina.

Tira do bolso o envelope lacrado de vermelho e entrega à moeda a decisão de ler:

как будто раздавленный решением судьбы; он не побледнел бы более, если б ему прочли смертный приговор, como que esmagado pela decisão do destino; não teria empalidecido mais se lhe tivessem lido a sentença de morte.
Terceira Parte: A explicação

Na Explicação conta o sonho do bicho venenoso em forma de tridente que a terra-nova Norma abocanha, o ódio aos pobres que não sabem viver os sessenta anos que têm pela frente, e a tese sobre a felicidade:

Колумб был счастлив не тогда, когда открыл Америку, а когда открывал ее [...] Дело в жизни, в одной жизни, — в открывании ее, беспрерывном и вечном, а совсем не в открытии!, Colombo foi feliz não quando descobriu a América, mas quando a estava descobrindo [...] O que importa é a vida, só a vida: o descobri-la, sem parar e para sempre, e de modo nenhum a descoberta!
Terceira Parte: A explicação

No capítulo VI da Terceira Parte conta a noite de março em que devolveu a carteira a um médico arruinado e arranjou para ele um posto, e o discurso que fez sobre a boa ação isolada:

Тут ведь целая жизнь и бесчисленное множество скрытых от нас разветвлений [...] И почему вы знаете, какое участие вы будете иметь в будущем разрешении судеб человечества?, Aí há uma vida inteira e uma quantidade incontável de ramificações escondidas de nós. [...] E como o senhor sabe que parte terá na futura decisão dos destinos da humanidade?
Terceira Parte: A explicação

Depois descreve o quadro de Cristo morto que viu na casa de Parfen Semeónovitch Rogójin, a mesma tela diante da qual Míchkin já havia dito que se pode perder a fé:

В картине же Рогожина о красоте и слова нет; это в полном виде труп человека, вынесшего бесконечные муки [...] На картине это лицо страшно разбито ударами, вспухшее, со страшными, вспухшими и окровавленными синяками, глаза открыты, зрачки скосились; большие, открытые белки глаз блещут каким-то мертвенным, стеклянным отблеском, Já no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza; é, por inteiro, o cadáver de um homem que suportou tormentos sem fim [...] No quadro, esse rosto está terrivelmente desfeito pelos golpes, inchado, com hematomas terríveis, inchados e ensanguentados, os olhos abertos, as pupilas enviesadas; os grandes brancos dos olhos, abertos, brilham com um reflexo morto, vítreo.
Terceira Parte: A explicação
каким образом могли они поверить, смотря на такой труп, что этот мученик воскреснет?, como puderam acreditar, olhando para um cadáver assim, que esse mártir ressuscitaria?
Terceira Parte: A explicação
Природа мерещится при взгляде на эту картину в виде какого-то огромного, неумолимого и немого зверя [...] в виде какой-нибудь громадной машины новейшего устройства, которая бессмысленно захватила, раздробила и поглотила в себя [...] великое и бесценное существо — такое существо, которое одно стоило всей природы и всех законов ее, всей земли, Olhando esse quadro, a natureza assoma na forma de uma fera enorme, implacável e muda [...] na forma de uma máquina gigantesca, de fabricação moderníssima, que sem sentido agarrou, triturou e engoliu [...] um ser grande e inestimável, um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, a terra inteira.
Terceira Parte: A explicação

É a resposta oposta à de Nastácia Filíppovna, que nas cartas do capítulo X da Terceira Parte imagina um Cristo pensativo, sozinho com uma criança: onde ela vê consolo possível, Hippolit vê só a matéria vencendo, sem transcendência nenhuma. As duas visões de Cristo dividem a Terceira Parte entre si.

Naquela noite, diz ele, Rogójin entrou no quarto à uma da manhã, sentou-se sob a lamparina do ícone e o olhou em silêncio, zombando, até sair na ponta dos pés, com as portas trancadas. A decisão nasceu daí:

не логика, не логическое убеждение, а отвращение. Нельзя оставаться в жизни, которая принимает такие странные, обижающие меня формы, não a lógica, não a convicção lógica, mas a repugnância. Não se pode ficar numa vida que toma formas tão estranhas e que me ofendem.
Terceira Parte: A explicação

No capítulo VII da Terceira Parte lê o fim. A Explicação termina na justificativa do suicídio:

кому, во имя какого права, во имя какого побуждения вздумалось бы оспаривать теперь у меня мое право на эти две-три недели моего срока?, a quem, em nome de que direito, em nome de que motivo, ocorreria agora contestar-me o meu direito a essas duas ou três semanas do meu prazo?
Terceira Parte: A explicação

E na queixa mais dura do livro contra a beleza do mundo:

Что мне во всей этой красоте, когда я каждую минуту, каждую секунду должен и принужден теперь знать, что вот даже эта крошечная мушка, которая жужжит теперь около меня в солнечном луче, и та даже во всем этом пире и хоре участница, место знает свое, любит его и счастлива, а я один выкидыш, De que me serve toda essa beleza, quando a cada minuto, a cada segundo, eu devo e sou obrigado a saber que até essa mosquinha minúscula, que zumbe agora perto de mim num raio de sol, até ela toma parte em todo esse banquete e nesse coro, conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, e só eu sou um aborto.
Terceira Parte: A explicação
Неужто нельзя меня просто съесть, не требуя от меня похвал тому, что меня съело?, Será que não podem simplesmente me devorar, sem exigir de mim louvores àquilo que me devorou?
Terceira Parte: A explicação

Grita que o sol nasceu, chama Gánia de patife porque bocejou, abraça o príncipe dizendo que se despede do Homem, vai até a escada do terraço, encosta a pistola na têmpora e puxa o gatilho: não havia cápsula. O susto vira riso, e ele, em histeria, mostra as dez cápsulas do bolso do colete e grita que está desonrado para sempre, até desmaiar.

O fracasso do gesto é o ponto mais irônico do livro: o discurso inteiro sobre o direito de escolher a própria morte desmorona diante de um esquecimento banal, a falta da peça que a lição de pistola de Aglaia ao príncipe (capítulo III da Terceira Parte) tinha posto em cena naquela mesma noite, e a plateia passa em segundos da comoção ao riso maldoso.

No capítulo I da Quarta Parte já mora na casa de Ptítzin, aonde Gánia o trouxe calculando usá-lo contra o príncipe, e, segundo Gánia, contou à mãe dele, pelo prazer de feri-la, que o general roubara os quatrocentos rublos de Liébediev. No capítulo II da Quarta Parte diz em voz alta que o capitão Ieropiegov talvez nunca tenha existido, o que derruba o general, e, antes de voltar para a casa da mãe, é a vez de Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin receber o mesmo tratamento que o príncipe:

Ненавижу я вас, Гаврила Ардалионович, единственно за то, [...] что вы тип и воплощение, олицетворение и верх самой наглой, самой самодовольной, самой пошлой и гадкой ординарности!, Eu o odeio, Gavrila Ardaliónovitch, unicamente porque [...] o senhor é o tipo e a encarnação, a personificação e o ápice da mediocridade mais insolente, mais satisfeita consigo, mais vulgar e mais repugnante!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo V da Quarta Parte aborda o príncipe no parque para provocá-lo, queixa-se dos Ívolguin, que o teriam acolhido sob a condição de que morresse logo, fala da morte de Stepan Glébov, empalado no tempo de Pedro, e pergunta como seria melhor morrer; o príncipe responde:

Пройдите мимо нас и простите нам наше счастье!, Passe por nós e perdoe-nos a nossa felicidade!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo VIII da Quarta Parte, tossindo sangue, conta ao príncipe que foi ele quem arranjou, por meio de Rogójin, o encontro de Aglaia com Nastácia Filíppovna naquela noite, e conta por despeito, porque Aglaia o chamou de mexeriqueiro. No capítulo X da Quarta Parte, cada vez pior, chama o príncipe de babá, briga e faz as pazes com ele, e por fim o assusta de propósito com a ideia de que Rogójin, tirada a noiva, pode matar Aglaia por vingança. No capítulo XII da Quarta Parte morre em grande agitação, umas duas semanas depois de Nastácia Filíppovna, antes do que esperava.

Temas que encarna

Hippolit é a Morte vista de dentro, por quem conta os dias, e é por isso que o romance lhe dá a objeção mais séria que faz à fé: diante do Cristo morto, a natureza é uma máquina muda que moeu o ser que valia mais do que ela (capítulo VI da Terceira Parte), e a beleza do mundo, a mosca no raio de sol e as árvores de Pávlovsk, só mostra ao condenado a festa da qual foi excluído (capítulo VII da Terceira Parte). O livro não refuta o argumento: o tiro falha por um detalhe técnico, os convidados riem, e a única resposta que se insinua é a do príncipe, que reconhece na mosca o próprio choro na Suíça e, mesmo assim, não chegou ao desespero (capítulo VII da Terceira Parte).

O padrão se repete: Hippolit ataca quem lhe mostra bondade ou mediania, como se as duas fossem igualmente insuportáveis para quem sabe que vai morrer logo. Ele mesmo confessa, no ponto decisivo da Explicação, que a decisão de morrer veio da repugnância e não da lógica (capítulo VI da Terceira Parte), e o que o fere em cada cena é ser visto: chorando no colo de Lisavieta Prokófievna (capítulo X da Segunda Parte), previsto pelo príncipe (capítulo X da Segunda Parte), rido pelos convidados (capítulo VII da Terceira Parte). O mesmo despeito o faz, no capítulo X da Quarta Parte, assustar o príncipe de propósito com o perigo de Aglaia; e o gesto em que ele mais parece agir a favor de alguém, contar ao príncipe o encontro das duas mulheres (capítulo VIII da Quarta Parte), ele mesmo diz fazer por vingança contra Aglaia.

A recusa dele não é a Deus, é à gratidão: aceita a vida eterna e até a providência, e recusa louvar aquilo que o devora (capítulo VII da Terceira Parte). É a mesma recusa do grupo de Burdovski, que exige como direito para não ter de agradecer (capítulo VIII da Segunda Parte), e a mesma palavra, direito, que ele reivindica sobre as duas ou três semanas que lhe restam.

Leituras divergentes

O próprio livro deixa aberto se o esquecimento da cápsula foi sincero. Keller ameaça quem disser o contrário, Liébediev e Radomski duvidam, e Radomski o chama de um Lacenaire caseiro, capaz de matar dez pessoas por brincadeira (capítulo VII da Terceira Parte); no banco verde, Aglaia acha que a pistola tinha mesmo de falhar, porque combina mais com ele, e o príncipe diz que Hippolit queria que todos o cercassem e pedissem que vivesse (capítulo VIII da Terceira Parte). Na leitura do príncipe ele é um rapaz que quer ser amado; na de Radomski, um vaidoso perigoso.

O texto sustenta as duas leituras do tiro e não escolhe: a Explicação é lida como sentença de morte entregue à moeda (capítulo V da Terceira Parte), e Hippolit ainda vive semanas depois, ri, provoca e morre antes do que esperava (capítulo XII da Quarta Parte). O que fica fora de dúvida é a força do argumento, que o livro não desmonta, e a fragilidade do homem que o sustenta, que o livro mostra sem zombar.

Relações