O tema na obra
No romance a beleza é quase sempre um rosto, e o rosto é quase sempre o de Nastácia Filíppovna Barachkova. Liev Nikoláievitch Míchkin a conhece por um retrato antes de conhecê-la, e o que ele lê ali não é encanto: é sofrimento, orgulho e uma pergunta sobre a bondade, da qual tudo dependeria. Diante das moças Iepántchin ele adia o juízo sobre a mais bela e diz que a beleza é um enigma; no mesmo capítulo, Adelaida Ivánovna Iepántchina diz que uma beleza como a do retrato é força, que com ela se vira o mundo. O livro deixa as duas frases de pé e vai mostrando a beleza em lugares em que ela não salva ninguém: no rosto que o príncipe acaba por não suportar, no quadro em que não há nenhuma, nas árvores de Pávlovsk que ofendem quem vai morrer. A frase famosa sobre o mundo salvo pela beleza nunca é dita pelo príncipe diante do leitor: chega citada de segunda mão, primeiro como zombaria, depois como proibição.
No capítulo III da Primeira Parte, diante do retrato que Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin entregou ao general, o príncipe lê uma vida inteira e para no que não sabe ler.
Удивительное лицо! [...] Лицо веселое, а она ведь ужасно страдала, а? [...] Это гордое лицо, ужасно гордое, и вот не знаю, добра ли она? Ах, кабы добра! Все было бы спасено!, um rosto surpreendente! [...] O rosto é alegre, e no entanto ela sofreu terrivelmente, não é? [...] É um rosto orgulhoso, terrivelmente orgulhoso, e eis que não sei se ela é boa. Ah, se fosse boa! Tudo estaria salvo!
No capítulo VII da Primeira Parte, perguntado sobre o rosto de Aglaia Ivánovna Iepántchina, ele recusa o juízo que fizera com facilidade sobre as outras.
вы чрезвычайная красавица, Аглая Ивановна. Вы так хороши, что на вас боишься смотреть. [...] Красоту трудно судить; я еще не приготовился. Красота — загадка., a senhora é uma beldade extraordinária, Aglaia Ivánovna. É tão bonita que dá medo de olhar. [...] A beleza é difícil de julgar; ainda não estou preparado. A beleza é um enigma.
Ainda no capítulo VII da Primeira Parte, a caminho da sala, ele para à janela e olha de novo o retrato, e o que acha na beleza é uma contradição que desperta compaixão.
Как будто необъятная гордость и презрение, почти ненависть, были в этом лице, и в то же самое время что-то доверчивое, что-то удивительно простодушное; эти два контраста возбуждали как будто даже какое-то сострадание при взгляде на эти черты. Эта ослепляющая красота была даже невыносима, красота бледного лица, чуть не впалых щек и горевших глаз; странная красота!, era como se houvesse naquele rosto um orgulho e um desprezo imensos, quase ódio, e ao mesmo tempo algo confiante, algo espantosamente ingênuo; esses dois contrastes pareciam até despertar uma espécie de compaixão ao olhar aqueles traços. Aquela beleza ofuscante era até insuportável, a beleza do rosto pálido, das faces quase encovadas e dos olhos ardentes; uma beleza estranha!
No capítulo V da Segunda Parte, sentado no Jardim de Verão para não pensar na vitrine e nos olhos que o seguem, o príncipe pensa no segundo que precede o ataque, em que tudo se resolve numa harmonia alta, e chama aquilo de beleza e de oração, sabendo que vem da doença.
Если в ту секунду, [...] ему случалось успевать ясно и сознательно сказать себе: «Да, за этот момент можно отдать всю жизнь!», — то, конечно, этот момент сам по себе и стоил всей жизни, Se naquele segundo [...] lhe acontecia ter tempo de dizer a si mesmo, com clareza e consciência: Sim, por este momento se pode dar a vida inteira!, então, é claro, esse momento por si só valia a vida inteira.
No capítulo V da Terceira Parte, a frase sobre a beleza chega pela boca de Hippolit Tieriêntiev, que a ouviu de Kólia, e já como zombaria.
Правда, князь, что вы раз говорили, что мир спасет «красота»? [...] А я утверждаю, что у него оттого такие игривые мысли, что он теперь влюблен, É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo? [...] E eu afirmo que ele tem essas ideias brincalhonas porque agora está apaixonado.
No capítulo VI da Terceira Parte, o quadro de Rogójin é descrito pela falta dela.
В картине же Рогожина о красоте и слова нет; это в полном виде труп человека, вынесшего бесконечные муки [...] На картине это лицо страшно разбито ударами, вспухшее, со страшными, вспухшими и окровавленными синяками, глаза открыты, зрачки скосились; большие, открытые белки глаз блещут каким-то мертвенным, стеклянным отблеском, Já no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza; é, por inteiro, o cadáver de um homem que suportou tormentos sem fim [...] No quadro, esse rosto está terrivelmente desfeito pelos golpes, inchado, com hematomas terríveis, inchados e ensanguentados, os olhos abertos, as pupilas enviesadas; os grandes brancos dos olhos, abertos, brilham com um reflexo morto, vítreo.
No capítulo VII da Terceira Parte, perto do fim da Explicação, a beleza do mundo é o que mais ofende Hippolit.
Что мне во всей этой красоте, когда я каждую минуту, каждую секунду должен и принужден теперь знать, что вот даже эта крошечная мушка, которая жужжит теперь около меня в солнечном луче, и та даже во всем этом пире и хоре участница, место знает свое, любит его и счастлива, а я один выкидыш, De que me serve toda essa beleza, quando a cada minuto, a cada segundo, eu devo e sou obrigado a saber que até essa mosquinha minúscula, que zumbe agora perto de mim num raio de sol, até ela toma parte em todo esse banquete e nesse coro, conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, e só eu sou um aborto.
No capítulo VI da Quarta Parte, Aglaia põe a frase na lista do que o príncipe não deve dizer diante dos convidados.
если вы заговорите о чем-нибудь в роде смертной казни, или об экономическом состоянии России, или о том, что «мир спасет красота», то… я, конечно, порадуюсь и посмеюсь очень, но… предупреждаю вас заранее: не кажитесь мне потом на глаза!, se o senhor puser-se a falar de alguma coisa como a pena de morte, ou a situação econômica da Rússia, ou de que "a beleza salvará o mundo", então... eu, é claro, vou me alegrar e rir muito, mas... estou avisando desde já: depois, não me apareça mais diante dos olhos!
No capítulo VII da Quarta Parte, ele não diz a frase, mas diz a forma mais simples dela, de pé, pouco antes do ataque.
Знаете, я не понимаю, как можно проходить мимо дерева и не быть счастливым, что видишь его? Говорить с человеком и не быть счастливым, что любишь его! О, я только не умею высказать… а сколько вещей на каждом шагу таких прекрасных, которые даже самый потерявшийся человек находит прекрасными? Посмотрите на ребенка, посмотрите на божию зарю, посмотрите на травку, как она растет, посмотрите в глаза, которые на вас смотрят и вас любят…, Sabe, eu não entendo como se pode passar diante de uma árvore e não ser feliz por vê-la. Falar com uma pessoa e não ser feliz por amá-la! Oh, só que eu não sei dizer... e quantas coisas tão belas há a cada passo, que até o homem mais perdido acha belas? Olhem uma criança, olhem a aurora de Deus, olhem a grama, como cresce, olhem os olhos que olham para vocês e os amam...
No capítulo IX da Quarta Parte, conversando com Ievguiêni Pávlovitch Radomski, que lhe fala da beleza fantástica que o enfeitiçou no primeiro dia, o príncipe confessa o que nunca disse a ninguém sobre o rosto do retrato.
я этого никому не говорил, никогда, даже Аглае, но я не могу лица Настасьи Филипповны выносить… [...] я смотрел на ее лицо! Я еще утром, на портрете, не мог его вынести… Вот у Веры, у Лебедевой, совсем другие глаза; я… я боюсь ее лица!, nunca disse isto a ninguém, nunca, nem a Aglaia, mas eu não consigo suportar o rosto de Nastácia Filíppovna... [...] eu olhava para o rosto dela! Já de manhã, no retrato, não consegui suportá-lo... Vera, a Liébedieva, tem olhos completamente diferentes; eu... eu tenho medo do rosto dela!
A beleza do livro tem duas faces que o príncipe nunca separa. Uma é a das coisas simples, a árvore, a criança, a aurora, que ele aponta no capítulo VII da Quarta Parte e que até o homem mais perdido acha belas; a outra é a do rosto de Nastácia Filíppovna, que no capítulo VII da Primeira Parte o atrai pela contradição e no capítulo IX da Quarta Parte lhe dá medo. A primeira consola, a segunda exige alguma coisa dele. A frase de que a beleza salvará o mundo fica entre as duas e nunca é posta à prova, porque o livro só a deixa ouvir citada por quem a ataca ou a proíbe.
Quem o encarna
Nastácia Filíppovna é a beleza que todos medem e ninguém consegue julgar. No capítulo XIII da Primeira Parte, ofuscado, o príncipe lhe diz na porta da festa que nela tudo é perfeição, e ela responde que ele se enganou e que vai lembrá-lo disso ainda naquela noite.
В вас всё совершенство… даже то, что вы худы и бледны… вас и не желаешь представить иначе… Мне так захотелось к вам придти… я… простите…, na senhora tudo é perfeição... até o ser magra e pálida... nem se deseja imaginá-la de outro modo... Tive tanta vontade de vir à sua casa... eu... perdão...
Aglaia é a beleza que dá medo de olhar, e é ela quem mais desconfia da beleza dos sentimentos. No capítulo VII da Segunda Parte, depois de recitar a balada do cavaleiro pobre (O cavaleiro pobre) com as letras trocadas, deixa o príncipe sem saber separar uma coisa da outra.
как можно было соединить такое истинное, прекрасное чувство с такою явною и злобною насмешкой?, como era possível juntar um sentimento tão verdadeiro, tão belo, com uma zombaria tão evidente e maldosa?
No capítulo X da Terceira Parte, nas cartas, Nastácia Filíppovna inverte os papéis e põe em Aglaia a perfeição que o príncipe tinha posto nela.
но вы для меня — совершенство! Я вас видела, я вижу вас каждый день. Ведь я не сужу вас; я не рассудком дошла до того, что вы совершенство; я просто уверовала, mas a senhora, para mim, é a perfeição! Eu a vi, eu a vejo todo dia. Pois eu não a julgo; não foi pela razão que cheguei a achar que a senhora é a perfeição; eu simplesmente passei a crer.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo III: O príncipe lê no retrato de Nastácia Filíppovna alegria, sofrimento e orgulho, e diz que tudo estaria salvo se ela fosse boa.
- Primeira Parte, capítulo VII: O príncipe diz a Aglaia que a beleza é um enigma, beija o retrato às escondidas, e Adelaida diz que uma beleza assim é força.
- Primeira Parte, capítulo XIII: Na porta da festa, o príncipe diz a Nastácia Filíppovna que nela tudo é perfeição, até a magreza e a palidez, e ela responde que ele se enganou.
- Segunda Parte, capítulo V: No Jardim de Verão, o príncipe pensa no instante de harmonia que precede o ataque e o chama de beleza e oração.
- Segunda Parte, capítulo VI: Aglaia diz que o cavaleiro pobre acreditou na beleza pura da dama e se inclinou diante dela para sempre.
- Segunda Parte, capítulo VII: Aglaia recita a balada com as iniciais de Nastácia Filíppovna, e o príncipe não consegue separar o sentimento belo da zombaria.
- Terceira Parte, capítulo V: Hippolit pergunta diante de todos se é verdade que o príncipe disse que a beleza salvará o mundo.
- Terceira Parte, capítulo VI: Hippolit diz que no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza, só o cadáver de um homem torturado.
- Terceira Parte, capítulo VII: Hippolit pergunta de que lhe serve a beleza do mundo, se até a mosca no raio de sol tem lugar no banquete e ele não.
- Terceira Parte, capítulo X: Nas cartas, Nastácia Filíppovna escreve a Aglaia que ela é a perfeição, e que chegou a isso por crer, não por julgar.
- Quarta Parte, capítulo VI: Aglaia avisa o príncipe que, se ele falar diante dos convidados de que a beleza salvará o mundo, não apareça mais diante dela.
- Quarta Parte, capítulo VII: O príncipe diz aos convidados que não entende como se passa diante de uma árvore sem ser feliz por vê-la.
- Quarta Parte, capítulo IX: Radomski fala da beleza fantástica que enfeitiçou o príncipe, e o príncipe confessa que tem medo do rosto de Nastácia Filíppovna.
Onde as leituras divergem
A frase de que a beleza salvará o mundo se lê de dois modos, e o livro não escolhe. Pode ser a convicção do príncipe, que no capítulo VII da Quarta Parte a reduz à felicidade de ver uma árvore e uma criança; ou pode ser o ideal que o romance põe à prova e deixa cair, com Hippolit no capítulo VII da Terceira Parte sofrendo com a beleza que não o salva e o príncipe, no capítulo IX da Quarta Parte, com medo do rosto que um dia achou perfeito.
O instante de beleza e oração do capítulo V da Segunda Parte vem da doença, e o príncipe sabe disso; o discurso da árvore no capítulo VII da Quarta Parte é dito pouco antes do ataque. As duas vezes em que ele fala da beleza com mais plenitude, ela chega junto com a aura. O texto sustenta as duas leituras: a de que a doença lhe abre uma porta para o que é verdadeiro, e a de que a beleza que ele vê é o primeiro sintoma.