Quem é
Aglaia Ivánovna Iepántchina é a filha caçula do general Ivan Fiódorovitch Iepántchin e de Ielisavieta Prokófievna Iepántchina, de vinte anos no começo do livro, a beldade da casa, por quem as irmãs, diz-se, fariam sacrifícios (capítulo II da Primeira Parte); para a mãe é ao mesmo tempo o tormento e o ídolo (capítulo I da Terceira Parte). É a mulher que Liev Nikoláievitch Míchkin não consegue julgar pelo rosto no primeiro dia e a única que discute com ele como com um adversário à altura. O romance a faz passar por todos os modos de tratá-lo, a zombaria, a defesa pública, a recusa antes do pedido, o pedido de casamento feito por ela mesma e a fuga, e no último capítulo a casa com um falso conde polonês que a afasta da família (capítulo XII da Quarta Parte). O que ela quer, diz no banco verde, é não ser tratada como menina tola nem casada a toda hora, e servir para alguma coisa (capítulo VIII da Terceira Parte).
Trajetória
No capítulo V da Primeira Parte, na saleta da generala, é a única que ataca o príncipe e, com isso, a única que o leva a sério:
Коли говорите, что были счастливы, стало быть, жили не меньше, а больше; зачем же вы кривите и извиняетесь?, se o senhor diz que foi feliz, então viveu não menos, mas mais; por que então faz rodeios e se desculpa?
Acusa-o em seguida de quietismo, de tirar a mesma lição de uma execução e de um dedinho. No capítulo VII da Primeira Parte, quando chega a vez do rosto dela, o príncipe adia o juízo:
вы чрезвычайная красавица, Аглая Ивановна. Вы так хороши, что на вас боишься смотреть. [...] Красоту трудно судить; я еще не приготовился. Красота — загадка., a senhora é uma beldade extraordinária, Aglaia Ivánovna. É tão bonita que dá medo de olhar. [...] A beleza é difícil de julgar; ainda não estou preparado. A beleza é um enigma.
No mesmo capítulo recebe pelo príncipe o bilhete em que Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin pede uma palavra dela para romper com Nastácia Filíppovna sem perder o dote se a palavra não vier, e responde no álbum, ditando ao príncipe com Gánia ao lado:
Я в торги не вступаю, eu não entro em regateio.
Devolve o bilhete pelo príncipe, depois de mandá-lo lê-lo. No capítulo I da Segunda Parte, na Páscoa, Kólia lhe entrega o bilhete de Moscou em que o príncipe pergunta apenas se ela é feliz; ela cora, joga-o na gaveta e no dia seguinte o guarda num livro grosso:
Это был «Дон-Кихот Ламанчский». Аглая ужасно расхохоталась — неизвестно чему, Era o Dom Quixote de la Mancha. Aglaia caiu numa gargalhada terrível, não se sabe de quê.
этому «бедному рыцарю» уже всё равно стало: кто бы ни была и что бы ни сделала его дама. Довольно того, что он ее выбрал и поверил ее «чистой красоте», а затем уже преклонился пред нею навеки; в том-то и заслуга, что если б она потом хоть воровкой была, то он все-таки должен был ей верить, para esse cavaleiro pobre já não importava quem fosse a sua dama nem o que ela tivesse feito. Bastava que ele a tivesse escolhido e acreditado na sua beleza pura, e depois se inclinado diante dela para sempre; o mérito está justamente em que, mesmo que ela depois fosse uma ladra, ele ainda assim devia acreditar nela.
«Рыцарь бедный» — тот же Дон-Кихот, но только серьезный, а не комический, O cavaleiro pobre é o mesmo Dom Quixote, só que sério, e não cômico.
No capítulo VII da Segunda Parte declama a balada de Púchkin olhando só para o príncipe, com uma seriedade que prende a todos, e faz uma troca:
во время чтения Аглая позволила себе переменить буквы A. M. D. в буквы Н. Ф. Б., durante a leitura Aglaia se permitiu trocar as letras A. M. D. pelas letras N. F. B.
Na mesma cena, quando chega o grupo de Burdovski, é ela quem diz que querem enlameá-lo e exige que ele se justifique diante de todos. No capítulo X da Segunda Parte, depois que Hippolit o insulta, ela sussurra no ouvido do príncipe:
Если вы не бросите сейчас же этих мерзких людей, то я всю жизнь, всю жизнь буду вас одного ненавидеть!, Se o senhor não largar agora mesmo essa gente asquerosa, vou odiar o senhor, só o senhor, a vida inteira, a vida inteira!
No capítulo XI da Segunda Parte briga com a família inteira, e Kólia conta que a briga é por causa de Gánia; no capítulo XII da Segunda Parte o príncipe mostra à mãe o papel que ela lhe mandou de manhã:
Князь Лев Николаевич! Если, после всего, что было, вы намерены удивить меня посещением нашей дачи, то меня, будьте уверены, не найдете в числе обрадованных, Príncipe Liev Nikoláievitch! Se, depois de tudo o que houve, o senhor pretende me surpreender com uma visita à nossa datcha, pode ter certeza de que não me encontrará entre os que se alegram.
No capítulo II da Terceira Parte, quando o príncipe pede desculpas à família pela própria falta de medida, ela explode em defesa dele:
Здесь ни одного нет, который бы стоил таких слов! [...] Вы честнее всех, благороднее всех, лучше всех, добрее всех, умнее всех! [...] Для чего же вы себя унижаете и ставите ниже всех? Зачем вы всё в себе исковеркали, зачем в вас гордости нет?, Aqui não há um só que mereça essas palavras! [...] O senhor é o mais honesto de todos, o mais nobre de todos, o melhor de todos, o mais bondoso de todos, o mais inteligente de todos! [...] Para que se rebaixa e se põe abaixo de todos? Por que deformou tudo dentro de si, por que não tem orgulho?
Na mesma cena, voltando-se contra todos os que a provocam há três dias, recusa o casamento que ninguém pediu:
Я ни за что за вас не выйду замуж! Знайте, что ни за что и никогда!, Eu não me caso com o senhor por nada! Saiba: por nada e nunca!
Toma o braço dele até o vauxhall, mostra-lhe o banco verde onde se senta sozinha às sete da manhã, chama-o de idiota baixinho e, depois do escândalo de Nastácia Filíppovna com a bengala, cobre o que viu:
Мне хотелось посмотреть, чем кончится комедия, Eu queria ver como a comédia ia acabar.
No capítulo III da Terceira Parte, no terraço, ensina o príncipe a carregar uma pistola, com medo de que o oficial do vauxhall o desafie:
вложите пулю, — слышите же, пулю потом, а порох прежде, а то не выстрелит, ponha a bala; está ouvindo? primeiro a pólvora e a bala depois, senão não dispara.
E lhe aperta na mão o bilhete que marca o encontro no banco verde. No capítulo VIII da Terceira Parte o encontra dormindo no banco, ouve a história do tiro de Hippolit, confessa que aos treze anos quis se envenenar umas trinta vezes imaginando a família chorando junto ao caixão, e o acusa:
У вас нежности нет: одна правда, стало быть, — несправедливо, No senhor não há ternura: só a verdade, e portanto é injusto.
Propõe-lhe ser seu amigo e cúmplice de uma fuga, para estudar em Paris e se dedicar à educação, e diz por que o escolheu:
я вас считаю за самого честного и за самого правдивого человека, всех честнее и правдивее [...] то зато главный ум у вас лучше, чем у них у всех, такой даже, какой им и не снился, потому что есть два ума: главный и неглавный, eu o considero o homem mais honesto e mais verdadeiro, mais honesto e verdadeiro que todos [...] em compensação, no senhor a inteligência principal é melhor do que a de todos eles, uma tal que eles nem sonharam, porque há duas inteligências: a principal e a não principal.
Diz que não o ama e que ama Gánia, que teria segurado o dedo sobre uma vela por ela, e confessa a mentira assim que ele duvida. Tira do bolso as cartas de Nastácia Filíppovna e lê nelas o que o príncipe não quer ver:
Неужели вы не видите, что не в меня она влюблена, а вас, вас одного она любит! [...] Она убьет себя на другой день, только что мы обвенчаемся!, Será possível que o senhor não veja que não é por mim que ela está apaixonada, mas pelo senhor, que é só o senhor que ela ama! [...] Ela se mata no dia seguinte, assim que nós nos casarmos!
Quando a mãe chega, atira-lhe que vai casar com Gánia e fugir com ele no dia seguinte, e corre para casa. No capítulo IX da Terceira Parte agradece ao príncipe por ele não a ter julgado capaz de mentir diante da mãe. No capítulo II da Quarta Parte manda um bilhete a Gánia marcando no mesmo banco verde, para lhe pedir um conselho. No capítulo V da Quarta Parte, depois de humilhar o príncipe no xadrez e expulsá-lo, manda-lhe um ouriço numa cesta como sinal de respeito, e à noite faz a pergunta diante de todos:
Позвольте, наконец, узнать от вас самого и лично: сватаетесь вы за меня или нет?, Permita-me, enfim, saber do senhor mesmo, em pessoa: o senhor está me pedindo em casamento ou não?
Ouve o sim, examina-o como numa negociação (quanto tem, se pretende servir), cai num riso quase histérico, sai correndo e volta sozinha para pedir desculpas pelo absurdo sem consequência. No capítulo VI da Quarta Parte, na véspera da reunião em que a velha Bielokónskaia vai conhecê-lo, pede que ele quebre o vaso chinês da mãe e o avisa:
если вы заговорите о чем-нибудь в роде смертной казни, или об экономическом состоянии России, или о том, что «мир спасет красота», то… я, конечно, порадуюсь и посмеюсь очень, но… предупреждаю вас заранее: не кажитесь мне потом на глаза!, se o senhor puser-se a falar de alguma coisa como a pena de morte, ou a situação econômica da Rússia, ou de que "a beleza salvará o mundo", então... eu, é claro, vou me alegrar e rir muito, mas... estou avisando desde já: depois, não me apareça mais diante dos olhos!
No capítulo VII da Quarta Parte corre e o recebe nos braços quando o ataque o derruba, e no dia seguinte diz friamente que nunca o considerou noivo. No capítulo VIII da Quarta Parte vai com ele à casa de Dária Alieksêievna enfrentar Nastácia Filíppovna e diz as palavras preparadas havia muito:
Вы его, такого простого, не могли полюбить, и даже, может быть, про себя презирали и смеялись над ним, могли полюбить только один свой позор и беспрерывную мысль о том, что вы опозорены, и что вас оскорбили. Будь у вас меньше позору, или не будь его вовсе, вы были бы несчастнее…, A ele, tão simples, a senhora não pôde amar, e talvez até o desprezasse e risse dele por dentro; só pôde amar a sua desonra e a ideia contínua de que foi desonrada e ofendida. Se tivesse menos desonra, ou nenhuma, seria mais infeliz...
Confessa à rival que ama o príncipe porque qualquer um pode enganá-lo e ele perdoa. Quando ele, diante das duas, pede pena da outra, ela lhe lança um olhar de sofrimento e ódio e foge. No capítulo IX da Quarta Parte refugia-se na casa de Nina Alieksándrovna, onde, segundo os boatos, pergunta a Gánia se ele queimaria o dedo na vela por ela e ri histericamente, e volta com a mãe e as irmãs; a família rompe com o príncipe e se muda para Kolmino. No capítulo XII da Quarta Parte, uma carta de Radomski conta o fim dela:
Пленил он Аглаю необычайным благородством своей истерзавшейся страданиями по отчизне души, и до того пленил, что та, еще до выхода замуж, стала членом какого-то заграничного комитета по восстановлению Польши и сверх того попала в католическую исповедальню какого-то знаменитого патера, овладевшего ее умом до исступления., Ele cativou Aglaia pela nobreza extraordinária da sua alma dilacerada de sofrimento pela pátria, e a cativou a tal ponto que ela, ainda antes de casar, tornou-se membro de um comitê no estrangeiro pela restauração da Polônia e, além disso, foi parar no confessionário católico de um padre famoso, que se apoderou da mente dela até o delírio.
Temas que encarna
Aglaia é a personagem em que a Beleza do livro tem de responder pelo que faz. O príncipe adia o juízo sobre o rosto dela (capítulo VII da Primeira Parte), ela recusa a frase da beleza que salvará o mundo antes que ele a diga em público (capítulo VI da Quarta Parte), e quer de quem ama não a contemplação, mas o feito: o cavaleiro que se inclina para sempre (capítulo VI da Segunda Parte), o homem que não foge do duelo (capítulo III da Terceira Parte), a fuga para estudar e servir (capítulo VIII da Terceira Parte). O que a atrai no príncipe, ela mesma diz a Nastácia Filíppovna, é o que a irrita nele: que qualquer um possa enganá-lo e ele perdoe (capítulo VIII da Quarta Parte).
Ela fala sempre por contrário, e o livro dá a chave pela boca da mãe: quando ama, xinga em voz alta (capítulo XII da Segunda Parte). A recusa antes do pedido (capítulo II da Terceira Parte), o bilhete que proíbe a visita (capítulo XII da Segunda Parte), a mentira sobre Gánia e a vela (capítulo VIII da Terceira Parte), o pedido de desculpas que desfaz o pedido de casamento (capítulo V da Quarta Parte) são todos modos de dizer sim sem se expor ao riso. O que ela não suporta é exatamente o que o príncipe faz no confronto: hesitar e pedir, diante dela, pena para a que sofre mais (capítulo VIII da Quarta Parte). A troca das letras no escudo (capítulo VII da Segunda Parte) já dizia que ela sabia, desde o terraço, quem estava no centro da balada.
Ela é também a voz mais exata sobre o príncipe e sobre Nastácia Filíppovna, e o livro lhe dá razão nos dois casos: é ela quem diz que ele tem a verdade sem ternura (capítulo VIII da Terceira Parte) e quem lê nas cartas da rival o amor que a rival dissimula (capítulo VIII da Terceira Parte). Acerta sobre os outros e erra sobre si, e o fim que o livro lhe dá, um falso herói que fala de uma pátria perdida (capítulo XII da Quarta Parte), é o mesmo desejo de cavaleiro pobre, agora entregue a um impostor.
Leituras divergentes
O próprio príncipe não consegue decidir, no capítulo VII da Segunda Parte, se a leitura da balada foi sentimento ou zombaria:
как можно было соединить такое истинное, прекрасное чувство с такою явною и злобною насмешкой?, como era possível juntar um sentimento tão verdadeiro, tão belo, com uma zombaria tão evidente e maldosa?
A mãe também não, e a cobre com as duas hipóteses: se leu a sério, tem pena dela; se leu por zombaria, não aprova.
Quem a lê como a moça orgulhosa que o orgulho perde encontra razão no desfecho; o texto, porém, mostra mais do que orgulho. Ela é a única que defende o príncipe diante da família inteira (capítulo II da Terceira Parte), a única que o recebe nos braços no ataque (capítulo VII da Quarta Parte), e a que diz à rival, sem ironia, por que o ama (capítulo VIII da Quarta Parte). Ela não quer o poder de Nastácia Filíppovna sobre os homens, quer ser útil e livre; e a fuga no confronto vem depois de ele hesitar e pedir pena da outra diante dela, e não antes. A pergunta que o livro deixa é se o orgulho a perdeu ou se foi a hesitação dele.
Relações
- Liev Nikoláievitch Míchkin: ela o desafia no primeiro dia (capítulo V da Primeira Parte), declama para ele a balada com as letras trocadas (capítulo VII da Segunda Parte), defende-o diante da família (capítulo II da Terceira Parte), propõe-lhe a fuga (capítulo VIII da Terceira Parte), pergunta em público se ele a pede (capítulo V da Quarta Parte) e foge quando ele hesita (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Nastácia Filíppovna Barachkova: a rival que lhe escreve cartas implorando que case com o príncipe (capítulo VIII da Terceira Parte, capítulo X da Terceira Parte) e que ela enfrenta na casa de Dária Alieksêievna (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin: o pretendente cujo bilhete ela recusa por regateio (capítulo VII da Primeira Parte), que ela usa para ferir o príncipe (capítulo VIII da Terceira Parte) e a quem, segundo os boatos, pergunta se queimaria o dedo na vela (capítulo IX da Quarta Parte).
- Ielisavieta Prokófievna Iepántchina: a mãe, para quem ela é tormento e ídolo (capítulo I da Terceira Parte) e com quem chora abraçada depois do pedido de casamento (capítulo V da Quarta Parte).
- Ievguiêni Pávlovitch Radomski: o pretendente que ela recusa (capítulo VIII da Terceira Parte) e que conta, em carta de Paris, o destino dela (capítulo XII da Quarta Parte).
- Hippolit Tieriêntiev: lega-lhe uma cópia da Explicação (capítulo VII da Terceira Parte) e arranja, por Rogójin, o encontro dela com Nastácia Filíppovna (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin: Kólia, que lhe entrega o bilhete do príncipe (capítulo I da Segunda Parte), proclama o cavaleiro pobre (capítulo VI da Segunda Parte) e lhe traz o ouriço (capítulo V da Quarta Parte).